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domingo, 1 de novembro de 2015

Sopa de castanhas com crocante de bacon para o Dia Um

Novembro inicia a época de trevas que me escurece a alma. Há algo de decadente em Setembro que me agrada, Outubro prolonga esta mesma decadência conjugando-a com um aconchego próprio, luminosidades únicas encantatórias, línguas de fogo que se apagam sobre o mar. Outubro abraça-me. Novembro inicia o começo do fim. Do fim do Outono, do fim dos pores-do-sol rubros, do fim de dias tépidos e luminosos. Novembro inicia a espera de que acabe o Inverno que ainda nem começou, de que Dezembro não se demore demasiado e de que Janeiro se evapore na esperança da Primavera. E hoje foi dia de Pão-por Deus e não houve crianças à minha porta. Olá Novembro. Adeus Novembro. 

Sopa de castanhas com crocante de bacon

Ingredientes
600 g de castanhas cozidas
1/2 courgette média
1 cebola média
Azeite 

Bacon em pedacinhos
Flocos de malagueta

Preparação
Lavar e cortar as castanhas. Cozer em água abundante com sal. Escorrer e deixar arrefecer. Descascar as castanhas e reservar.
Num tacho, levar a lume médio a courgette com a cebola e um fio generoso de azeite. Fechar o tacho e deixar suar os legumes. Seguidamente tirar a tampa e refogar um pouco. Juntar as castanhas cozidas e acrescentar água, mexendo de cada vez até ficar tudo bem envolvido e macio. Reduzir a puré com um liquidificador. Rectificar os temperos. Para o bacon: aquecer uma frigideira anti-aderente e deitar os pedacinhos quando esta estiver quente. Temperar com pimenta preta acabada de moer. Retirar do lume quando estiverem caramelizados e cocrantes. Servir a sopa com os pedacinhos de bacon e os flocos de malagueta. 

Apesar de Novembro não ser de todo dos meus meses preferidos hoje foi dia de almoço tranquilo e acolhedor. Escolhi esta sopa de castanhas para o Dia Um... Na Cozinha, cujo tema eram as castanhas e não me arrependi. A sopa mantém o sabor adocicado das castanhas cortado com a malagueta e o bacon e a textura ficou cremosa. Uma boa opção para o Inverno que nos chama





terça-feira, 1 de setembro de 2015

Bruschetta de bacalhau fumado com rúcula e o regresso ao Dia Um

Depois de a bruschetta ter sido a eleita do Dia Um, assisti e participei numa conversa engraçada no Facebook. Dizia uma amiga que preferia uma salada rústica a montinhos de comida, ou arremedos, acrescento eu, de 'coisas' empinadas. Faço parte daquele grupo de pessoas que gosta de comida honesta, verdadeira, da que nós, comuns mortais que andamos lá fora a fazer pela vida, cozinhamos e comemos. Não sou rapariga sofisticada e, assim sendo, concordo inteiramente com a minha amiga. Aquela ideia de empilhar tudo em andares não colhe muito cá em casa: primeiro porque não gosto de nada que fique empapado por levar com algo em cima e depois porque por vezes me é demasiado artificial. Por outro lado, também como com os olhos, e muito, e detesto pratos demasiado cheios ou pouco harmoniosos. Pode parecer complicado o equilíbrio entre alguma esquisitice, admito, e a falta de sofisticação quando ela significa falsidade mas é isso mesmo que sou e a minha comida reflecte-me. Vem isto tudo a propósito da bruschetta, por excelência um acumular na vertical de vários ingredientes. O pão deve ser torrado e como não gosto de pão mole embebido seja em que for, a bruschetta é quase uma corrida contra o tempo. A que apresento hoje mostra quem sou no dia-a-dia. Foi feita num fim de tarde, momento do dia que adoro, comida lá fora, com o carvão a crepitar no grelhador, acompanhada de um belíssimo gin tónico, sim, num desses copos imensos cheios de gelo e com lima e hortelã a aromatizar e em belíssima companhia, uma comemoração singela de dias que deixaram de ser tão pesados. Depois o aspecto: exactamente como saiu. E, aqui entre nós, como sou mulher de momentos, saiu muito bem para o nosso gosto. De vez em quando a vida sai-me bem. 

Bruschetta de bacalhau fumado com rúcula

Ingredientes
2 fatias de pão caseiro, pode ser saloio.
Bacalhau fumado
Rúcula selvagem
Queijo creme com ervas aromáticas
Azeitonas verdes
Azeite 
Pimenta preta acabada de moer

Preparação
Torrar as fatias de pão e deixar arrefecer. Depois de frias, barrar com o queijo-creme. Colocar por cima a rúcula, o bacalhau fumado e temperar com um fio de azeite e pimenta preta acabada de moer. Dispor as azeitonas verdes por cima. E comer. 



 Como Setembro é mês de reinícios regresso ao Dia Um... Na Cozinha.


domingo, 1 de março de 2015

Torta de merengue com 'curd' de limão para brindar Março

Este pobre blogue tem andado tão parado que mais parece morto. Obviamente tem-se comido cá em casa, mas tem-me faltado a calma e o tempo necessários para fotografar e escrever. Tenho algumas receitas em atraso, uma pie de frango com massa filo, uns crepes do dia das panquecas e uma deliciosa mousse de chocolate branco com lima e framboesas. Assim venha mais tempo e melhor disposição e talvez vejam a luz do dia . 
O que me trouxe aqui hoje não foi a lamúria habitual da falta de tempo mas mais um Dia Um... Na Cozinha. Depois de dois meses de ausência eis-me de regresso. A proposta eram tortas doces. No meu tempo de infância, a torta era uma presença muito constante à mesa de casa dos meus pais. Recheada com chocolate ou com com doce aparecia muitas vezes. Hesitei muito em recriar essas tortas, tão simples e tão boas, sem qualquer sofisticação, apenas o talento de quem deitava mãos à obra e o carinho à nossa volta. Como não se deve voltar ao lugar onde se foi feliz, diz-se por aí, optei por uma torta de merengue com 'curd' de limão. Não me arrependi.


Torta de merengue com 'curd' de limão

Ingredientes
Para o curd
100 g de manteiga
200 g de açúcar
3 gemas e um ovo
Sumo e raspa de 4 limões

Para o merengue
4 claras
225 g de açúcar amarelo


Confecção

Começar pelo curd: num tacho anti-aderente levar ao lume médio a manteiga, o açúcar e a raspa e sumo de limão. Quando a manteiga estiver derretida, retirar do lume e juntar os ovos previamente batidos com uma vara de arames. Levar ao lume e, mexendo sempre, deixar engrossar, sem ferver. Retirar do lume e ir mexendo de vez em quando com a vara de arames até arrefecer. Reservar.

Preparar o merengue: pré-aquecer o forno a 180º. Forrar a forma com papel aderente e pincelar com óleo. Bater as claras e incorporar aos poucos o açúcar. Bater as claras até ficarem bem presas. Levar ao forno 20 minutos. Abrir o forno, deixar uns cinco minutos lá dentro. Retirar e desenformar o merengue sobre um pano de cozinha polvilhado com açúcar. Deixar arrefecer. Barrar com o curd de limão e enrolar.






Mais um Dia Um... que chegou. Que sejas bem-vindo, Março.


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Zimtsterne ou estrelas de canela para o Dia Um

Sou um bocado obsessiva nos gostos. Se gostar de uma camisola de determinado modelo tenho vontade de comprar mais duas de cor diferente. O mesmo aplica-se a outras peças de roupa, acessórios ou seja o que for do que gosto, à excepção de uma ou outra coisa que por decoro não vou aqui referir. Nessa mesma medida se gostar muito de uma cidade ou país tenho sempre vontade de voltar. Berlim ou Londres, Cabo Verde ou Brasil são destinos a que regressaria assim a vontade me permitisse, quase sempre portanto, e a partir de agora quase nunca, sendo que o ‘quase’ é um acessório absolutamente ilusório nesta minha nova condição de depauperada. Quando fui a Munique num Dezembro passado e descobri os mercados de Natal passei a ter uma nova obsessão: mercados de Natal. Sempre que chega esta altura do ano, lá para os fins de Novembro, cresce em mim uma vontade imperiosa de me aconchegar num cachecol, atafulhar-me em casacos felpudos, gorros e luvas e perder-me entre a multidão, beber um Glühwein bem quente, enquanto as pessoas se passeiam mercado acima mercado abaixo numa romaria colorida e perfumada, e deixar-me envolver por momentos nessa que se diz ser a magia do Natal. Nada disto pode parecer muito mal excepto se se souber que sou mulher de sol e luz, portadas abertas e janela no basculante até o sol se esconder e que encontra amparo em dias tépidos ou escaldantes, o bálsamo verdadeiro que afasta cansaço, stress, angústia. Muito. Quase tudo. Mas obsessão é obsessão e até ontem apetecia-me um mercado de Natal e até ontem porque quando pus o nariz de fora à noite e senti o vento cortante em frente à basílica numa noite de breu gelada e impiedosa  sem que cachecóis, casacos e gorros me pudessem valer, percebi de que são feitos os sonhos, de sonhos apenas. Manias revestidas de grinaldas de fantasia. A realidade é outra coisa.

Texto originalmente publicado n' A Curva da Estrada.

E para celebrar esta minha paixão pelos mercados de Natal trouxe para o Dia Um... Na cozinha uma receita alemã: Zimtsterne ou Estrelas de canela.

Ingredientes
3 claras de ovos (M)
250 g de açúcar em pó
1 saqueta de açúcar baunilhado (8 g)
400 g de miolo de amêndoa triturado
3 colheres de chá de canela em pó
Raspa de laranja (opcional)
Arandos secos para decorar (opcional)
Farinha q. b.

Preparação
Pré-aquecer o forno a 140º.
Bater as claras em castelo bem firme. Juntar o açúcar a pouco e pouco, batendo a cada adição. Adicionar o açúcar baunilhado e retirar cerca de três colheres de sopa para decorar posteriormente. Por fim juntar a canela em pó e a raspa de laranja, continuando a bater.. Com a batedeira no mínimo, deitar metade do miolo de amêndoa. Adicionar depois o restante e ir batendo até a massa se ganhar mais consistência. Juntar um pouco de farinha, se for necessário. Deitar a massa na bancada da cozinha polvilhada com açúcar em pó, tender com o rolo da massa e cortar estrelas com um cortador de bolachas. Cobrir com as claras em castelo com açúcar e levar ao forno cerca de 30 minutos.


A massa foi muito difícil de tender e tive de juntar farinha, que não leva no original. Deram-me mais trabalho do que tinha pensado antes mas não desgostei do resultado. Feliz Natal a quem me visita!


Aqui fica a minha participação no Dia Um... Na cozinha dedicado a biscoitos e bolachas de Natal neste mês de Dezembro.


sábado, 1 de novembro de 2014

Doce de Abóbora com canela e laranja para mais um Dia Um

Outono sempre foi cá em casa época de doces e compotas. Acontecia em tempo de vida do meu pai, ele ir ao leilão do cortejo de oferendas dos bombeiros voluntários e chegar a casa com uvas, lembro-me tão bem, hortaliças e uma abóbora. Adora aquele ritual, como adorava mercados, gosto que talvez me tenha passado. A abóbora tinha usos vários, uma abóbora é muita abóbora, e um deles era doce de abóbora, feito pelas mãos prendadas e sempre carinhosas da minha sorridente mãe. Foi com ela que aprendi a fazer este doce e a ela que recorro em caso de dúvida.
Trouxe o hábito de fazer doce comigo, como tantos outros, e Outono é tempo de doce de abóbora. É denso e quente, chama o Outono e torna os dias cinzentos mais quentes e reconfortantes. Quase gosto de outonos assim e nem sabem como isto é estranho. 

Doce de Abóbora com canela e laranja

Ingredientes
2 kg de abóbora cortada em pedaços pequenos
1 kg de açúcar amarelo
3 paus de canela
raspa de 3 laranjas

Confecção
Arranjar a abóbora: abrir, tirar as sementes, cortar em pedaços pequenos. Num tacho juntar a abóbora, o açúcar, os paus de canela e a raspa da laranja. Levar a lume médio, mexendo com frequência até atingir o ponto desejado, este terá levado  cerca de uma hora e meia.

Quando o Dia Um... Na Cozinha lançou o desafio deste mês fiquei a pensar se faria este doce ou um de marmelos. A tradição pesou mais e decidi-me por este. Comprei a abóbora numa mercearia perto. Morar na aldeia pode ser uma vantagem às vezes.


Desta vez usei açúcar amarelo em vez do habitual branco. O sabor ficou mais intenso e a cor mais escura. Gostei do resultado, especialmente do sabor.





E agora esperemos pelo próximo desafio. Tenho a certeza de que este doce não vai chegar até ao próximo dia um e, depois de dois posts de seguida com abóbora, prometo que o próximo será diferente.


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Bacalhau caribenho a duas mãos e uma pendura para o Dia Um

Quem gosta de cozinhar começa geralmente por contar como fez e como fazer. Usa-se e abusa-se da primeira pessoa do singular. Eu, eu e eu. Eu fiz, eu disse, eu bati, eu mexi, eu amassei, eu provei, eu tudo. Desta vez a história é diferente e se a contasse exactamente como foi teria de usar a terceira pessoa: ele. Os caminhos mais ou menos longos servem para descobrirmos talentos escondidos, partilharmos prazeres e cozinhar uns para os outros, um para o outro. Ao contrário do que acontece habitualmente não sou eu que cozinho, cozinham para mim. Ele.
“O amor é uma companhia. Já não sei andar sozinho pelos campos” – Alberto Caeiro.

Bacalhau Caribenho

Ingredientes
1 embalagem de bacalhau do Pacífico desfiado
2 cebolas
4 dentes de alho
1 pimento + metade de cores diferentes
1 pimento padrón sem grainhas
2 tomates médios muitos maduros em cubos
1 colher de chá de caril
1 colher de sopa de mostarda
2 colheres de sopa de vinagre
Malagueta a gosto
Tomilho
Pimenta preta acabada de moer
Azeite

Preparação
Pôr o bacalhau de molho de véspera e ir mudando a água.
Numa frigideira larga, deitar um fio de azeite e adicionar a cebola em rodelas. Quando a cebola começar a murchar, juntar o alho em fatias finas. Cozinhar uns cinco minutos até a cebola começar a ganhar cor mas sem deixar que frite. Adicionar o tomate em cubos, um pouco de água e continuar no lume uns cinco minutos até que o tomate comece a misturar-se com a cebola. Juntar o pimento em tiras, os pimentos padrón e o bacalhau demolhado. Rectificar o tempero e adicionar a mostarda, o vinagre e a malagueta a gosto. Deixar ferver 15 a 20 minutos em lume brando. Deitar um pouco de água, caso seja necessário. Acrescentar então o cebolinho picado, o caril, a pimenta preta e sal caso seja necessário. Deixar apurar.

Servir com batata doce  ou branca cozida no próprio bacalhau ou à parte.


Descobrimos esta receita num programa televisivo e desde então tornou-se um prato preferido cá em casa. O meu papel é apenas de apoio, ajuda, rectificação de temperos, cortar legumes e outras ninharias. Que bom que é quando cozinham para nós.

Depois de uns meses de ausência, regressei ao Dia Um... Na Cozinha, nesta edição de Outubro dedicada ao fiel amigo. 



terça-feira, 1 de julho de 2014

Garoupa à Bulhão Pato para começar bem o mês

Escrevi uma vez um post que anda por aí perdido nessa blogosfera intitulado "a nostalgia do bitoque". Tê-lo-ei algures encafuado também e ainda é capaz de ressuscitar neste blogue mas por enquanto fica a ideia principal. Era e é uma crítica feroz àquelas pessoas que quando estão de férias reclamam com a comida do hotel. Passaram alguns anos e continuo com a mesma ideia. Para quem, como eu, gosta de experimentar comida e pratos novos e que, perante os mesmos, não torce o nariz mas fica curiosa, esta rejeição da comida diferente sempre me encanitou. Acontece, contudo, que mesmo gostando de comer de tudo um pouco, houve uma altura da minha vida, vá-se lá saber porquê, em que quando estava fora tinha saudades de peixe. Quando a minha mãe me perguntava se queria alguma coisa quando chegasse, a resposta era sempre a mesma: peixe. Agora tenho menos saudades do peixe, mas a verdade é que há muitos dias da minha vida em que sinto que poderia facilmente comer só peixe, ou quase só, e prescindir da carne. Gosto de peixes vários e quase sempre confeccionados da forma mais simples: cozido, grelhado, assado no forno e frito, fumado também vai. Nada melhor do que uns carapaus pequenos fritos com um arroz de tomate malandrinho ou com um risotto de coentros. E a epifania numas simplicíssimas sardinhas assadas numa fatia de pão saloio com uma salada pungente a acompanhar? E uns arenques fumados numa tarde de sol dourado no Báltico? Ou o cozido de peixe com malagueta e banana em S. Tomé? O que teria perdido se torcesse o nariz à diferença. O peixe é leve, cheira a mar e sabe a maresia e maresia é casa. Seriam disso as minhas saudades?

Garoupa à Bulhão Pato

Ingredientes
Filetes de garoupa frescos (comprei as garoupas inteiras e pedi que filetassem)
Conquilhas
Limão
Flor de sal (acabou-se-me o sal mas o resultado compensou)
Alho
Azeite
Coentros a gosto
Vinho branco

Preparação
Com três horas de antecedência, temperar os filetes de garoupa com flor de sal, limão e alho. Reservar. Pôr as conquilhas em água com sal com a mesma antecedência e ir mudando a água para libertar a areia. 
Antes de brasear a garoupa, fazer as conquilhas: deitar um fio de azeite numa frigideira com alho picado e alguns coentros cortados com uma tesoura de ervas aromáticas, adicionar as conquilhas, tapar e deixar que abram. Juntar mais coentros e o vinho branco. Deixar que o aroma a álcool evapore, rectificar o tempero e deixar apurar um pouco. 
Para brasear o peixe: retirar do frigorífico, tirar o alho e secar o excesso de humidade com papel de cozinha. Aquecer uma frigideira de fundo antiaderente com um fio de azeite. Colocar a garoupa com a pele virada para baixo. Virar passado alguns minutos. Deitar as conquilhas à Bulhão Pato sobre a garoupa com uma colher e servir. 
Como acompanhamento fiz batatas salteadas com cebolinho e vinagre. Ninguém reclamou, nem mesmo os carnívoros indefectíveis.


Notas: 
  • Como em quase tudo, a qualidade dos ingredientes é fundamental. Para este prato usei garoupa fresca que pedi para filetar à minha frente.
  • Porque não gosto de muitos molhos e para não afogar a garoupa, pus pouco molho das conquilhas. Posteriormente cada um adicionou a gosto.
  • Mais um prato que não é particularmente fotogénico acrescido do facto de se fazerem poucas produções fotográficas antes das refeições cá por casa, contudo, o sabor compensou a falta de fotogenia.
  • O empratamento foi e é simples: não gosto de pratos demasiado cheios ou demasiado vazios e também não gosto do peixe encavilatado em 'camas'.


Depois de ter falhado a festa de aniversário do Dia Um... Na Cozinha, eis-me de volta. Qual será o próximo desafio?


quinta-feira, 1 de maio de 2014

Guinness Soda Bread para o Dia Um

Estava frio, muito frio para o início de Agosto. Quis o acaso ou a imprudência que não tivesse tomado café antes e quando chegou a hora do almoço no meu primeiro dia da semana em Cork, eu estava já exausta. Nesse primeiro dia decidiu-se que o almoço seria no English Market, o mercado local com uma oferta variada de produtos e, como todos os mercados, um estímulo poderoso para os sentidos.  Enquanto esperava pelo salmão grelhado, arrastando-me numa terrível fraqueza, veio para a mesa, onde se falavam algumas línguas do mundo, um pão em fatias, escuro, e de textura e sabor diferente de todos os que tinha provado até então. Estava morno e foi comido com manteiga e com prazer, o conforto dos dias frios e inesperados, o antídoto para o cansaço que me assolava. A comida é tantas vezes conforto. Ao longo dos dias o pão foi voltando, a mesma textura e sabor, com uma ou outra variação, mais ou menos escuro e sempre tão reconfortante. Este pão singelo, fofo e macio, constituiu um mistério revelado posteriormente. Bastava juntar a farinha com bicarbonato de sódio e buttermilk, a química, como em muitas outras coisas, encarregar-se-ia do resto. Viva a simplicidade. 

Guinness Soda Bread

Ingredientes
250 g de farinha de trigo sem fermento
250 g de farinha de trigo integral
1 colher de chá de bicarbonato de sódio
1 colher se chá de sal
1 colher de chá de açúcar
200 ml de butternilk (comprei feito)
200 ml de stout (usei Guinness)

Preparação
Num recipiente largo juntar as farinhas com o açúcar, o bicarbonato de sódio e o açúcar. Abrir uma cova no meio e adicionar a Guinness e o buttermilk. Com um grafo de madeira mexer cuidadosamente os ingredientes. Quando estiver formada uma massa pôr numa superfície enfarinhada. Unir a massa com as mãos sem amassar. Formar uma bola e transferir para um tabuleiro de forno com uma folha de papel vegetal anti-aderente. Com uma faca cortar uma cruz no pão. Ligar o forno a 220º e deixar a massa descansar 30 minutos. Findo esse tempo levar ao forno, meia hora. Retirar, deixar arrefece um pouco e saborear. Quem disse que fazer pão é difícil e moroso?
E aqui está a minha participação em mais uma edição do Dia Um... na Cozinha, dedicado ao pão numa homenagem das organizadoras ao dia 1 de Maio e a todos os trabalhadores do mundo e à qual me junto. Nos dias que correm julgar-se-iam para trás os dias em quem não havia pão na mesa, metáfora para uma sociedade justa e digna em que ninguém passaria fome, contudo a realidade todos os dias nos aponta noutra direcção e os tempos passados parecem bater à porta e sentar-se à nossa mesa como um fantasma de tempos que não se desejam.

Quando vi a escolha do Dia Um.. Na Cozinha, não fiquei muito animada: não tenho máquina de fazer pão, não tenho Bimby e recorro apenas a uma singela batedeira que me acompanha há uma dúzia de anos. Também não sou a mais paciente das  criaturas. Depois de dar voltas à cabeça, lembrei-me deste pão. É saboroso, de textura única, não precisa de ser amassado, não pode mesmo ser amassado, e seria a entrada desejada para uma almoço de feriado. Foi comido com manteiga com alho e ervas aromáticas e queijo da Serra. 
E agora, quando chega o próximo desafio?


terça-feira, 1 de abril de 2014

Pontos cardeais numa sericaia com ameixas de Elvas

Descobri que era do Sul quando me apaixonei pela luz de Lisboa, luz como não há outra e li nas palavras de José Cardoso Pires um bálsamo para a alma, o conforto para estados de alma sombrios não compatíveis com o fulgor da cidade branca.
Descobri que era do Norte quando me senti bem-vinda sem provas ou provações, apenas a porta escancarada, uma extensão evidente da alma calorosa que só a Norte se deixa sentir.
Descobri que era do Sul quando me arremessaram Vocês lá de Lisboa.
Descobri que era do Norte quando a minha mãe me pediu um testo, afirmou que o gato manquejava, usa cruzetas e cozinha em sertãs.
Descobri que era do Sul quando na esplanada da Graça vi a cidade estender-se para o Tejo como um tapete debruado e me senti de Lisboa como de mais lado nenhum.
Descobri que era do Norte quando me faltaram os dióspiros e os míscaros envoltos na frontalidade dos falares nortenhos.
Descobri que era do Sul quando li num guia de viagem sobre Portugal o preconceito escarrapachado em alemão como se de lei se tratasse Braga reza, o Porto trabalha e Lisboa diverte-se
Descobri que era do Norte quando as portas a Sul se me fecharam e os olhares de soslaio se me cravaram nas costas que nem flechas de bisonhice.
Descobri que era do Sul quando chego a Portugal em dia de sol brilhante e vejo Lisboa a meus pés como nenhuma outra e o coração me cutuca na alma Cheguei.
Descobri que era do Norte quando senti as portas semicerradas, uma frecha apenas, da qual se vislumbram olhos desconfiados, da alma nem sinal.
Descobri que era do Sul quando as palavras que ouço em surdina me trazem o escritor de volta Logo a abrir apareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade de navegar.
Descobri que era do Norte quando se me solta o vernáculo em momentos de fúria e intempestividade e mais não significa do que o alívio incomensurável da carga pesada dos sentimentos nefastos.
Descobri que era do Sul quando abri a porta do carro em pleno Alentejo e sou abraçada por um calor perfumado, um aroma inebriante, uma felicidade efémera e intensa.
Descobri que era do Norte quando filho da puta surge apenas o praguejar furioso não uma ofensa à progenitora do visado.
Descobri que era do Sul quando me questionaram E vocês, lá em Lisboa, o que é fazem no Natal?
Descobri que era do Norte quando me assola a nostalgia da Páscoa, a saudade do Pão-de-Ló com queijo da Serra, os desejos de leite-creme queimado com a pá de ferro fundido aquecido em fogão de lenha, aromas que a memória agarra à alma com a recordação doce dos afectos. 
Descobri que era do Sul quando descobri que era do Norte quando descobri que era do Sul.

E como sou de muitos lados escolhi uma das minhas sobremesas preferidas do Alentejo para participar no Dia Um... Na cozinha, nesta edição dedicada à doçaria regional. Sou do Sul também, sou muitas vezes de Sul.

Sericaia

Ingredientes
6 dl de leite
1 pau de canela
Casca de limão
7 ovos
275g de açúcar
75g de farinha
Canela em pó para polvilhar
1 pitada de sal grosso


Preparação
Pré-aquecer o forno a 200º. Colocar o prato redondo de barro no forno para ir aquecendo à medida que o forno aquece.
Ferver o leite com o pau de canela e a casca de limão. Retirar do lume e deixar que fique morno.
Bater as gemas com o açúcar até ficar um creme fofo e esbranquiçado.
Dissolver a farinha no leite morno, com uma vara de arames. Envolver o preparado dos ovos e açúcar e levar ao lume mexendo sempre até que engrosse e se forme um creme liso e homogéneo. Deixar amornar.
Bater as claras em castelo firme e incorporar no creme, envolvendo, de cima para baixo, com cuidado. Não mexer. A massa deve ficar leve. Retirar o prato do forno e untar levemente com margarina. Pode usar-se um pincel com um pouco de margarina. Uma vez que o prato está quente, a margarina dissolver-se-á rapidamente. Dispor a massa às colheradas desencontradas no prato, polvilhar abundantemente com canela e levar ao forno pré-aquecido durante cerca de 35 minutos.
Deixar arrefecer e servir com ameixas de Elvas.


Nunca tinha feito sericaia, embora seja das minhas sobremesas preferidas do meu querido e delicioso Alentejo. Requer calma e precisão. Esta receita deu uma sericaia enorme. Para uma menos exuberante aconselha-se meia receita. Mais um desafio superado. 






sábado, 1 de março de 2014

Começar o mês com pizza com pesto, mozzarella e cebola roxa

Confesso que quando o desafio do Dia Um... Na Cozinha saiu não fiquei muito entusiasmada. Pizza aqui em casa é o jantar de recurso, quando o tempo aperta, as reuniões se prolongam até às oito ou nove da noite e não há paciência para fazer algo mais do que ligar o forno, tirar a pizza do frigorífico e num quarto de hora, enquanto arrumo o dia, o jantar está pronto. Não compro refeições pré-cozinhadas, sou naturalmente desconfiada dos 'corantes e conservantes' e toda a espécie de ingredientes ocultos com que embelezam a comida pré-preparada, mas abro uma excepção para a pizza. Além da rapidez, não conheço ninguém que não goste. Eu gosto. Do conforto do pão, da indulgência do queijo, do aroma dos orégãos. E gosto do estereótipo das toalhas de quadrados vermelhos, linguajares cantantes e de um país que me deixa sempre dividida: Roma ou Veneza são cidades intensas e belas.Veneza está entre as mais belas que conheço, sem definição possível mas nada ou pouco me liga aos italianos como povo. Não há química entre nós. 
Hoje, não sendo dia de grandes afazeres, tive o dia preenchido contraditoriamente. Quando chegou a altura das habituais decisões quanto ao repasto da noite instalou-se a indecisão, como em tantas outras situações. Terei balbuciado que o desafio do Dia Um era pizza e sem demora ficou tudo decidido: pizza. Cá em casa nunca outro desafio foi tão bem acolhido. É tão bom quando a vida é fácil. E saborosa. 

Pizza com pesto, mozarella e cebola roxa

Ingredientes

Para a base:
250 g de farinha branca para pão
160 ml de água quente
2 colheres de sopa de azeite
1 colher de chá de açúcar
1 colher de chá de sal refinado

Para a cobertura:
Molho de tomate para pizza (usei de compra)
Pesto 
Mozzarella fresco 
Mozzarella ralado
1 cebola roxa pequena cortada em rodelas finas
Pimenta preta acabada de moer
Orégãos

Preparação
Deitar a farinha, o sal e o açúcar num recipiente largo e envolver. Abrir uma cova no meio, deitar o azeite e a água quente. Com um garfo e partindo do centro, envolver a água e restantes ingredientes com a farinha. Mexer até os ingredientes casarem. Retirar do recipiente e amassar dez minutos numa superfície enfarinhada. Fazer uma bola e retornar a massa ao recipiente. Cobrir com película aderente e deixar levedar em lugar  protegido e tépido durante uma hora.
Pré-aquecer o forno a 200º. Com um rolo da massa estender a massa, virando sempre. Depois de se obter a dimensão desejada, pegar na massa e rodá-la até ficar mais fina. Colocar num tabuleiro de ir ao forno sobre uma folha de papel vegetal.
Pincelar com o molho de tomate, deitar uma camada muito fina de mozzarella ralado, polvilhar com orégãos e pimenta preta acabada de moer. Colocar por cima a cebola roxa, o queijo mozzarella fresco cortado em rodelas finas e colheres de pesto entre o mozzarella. Levar ao forno. Retirar quando estiver pronto e saborear. 

Notas: 
  • A pizza ficou enorme, daria para quatro sem ninguém disputar a última fatia. 
  • Para uma próxima vez reduzo definitivamente a quantidade de queijo. 
  • A sensação de conseguir fazer o que se julgava impensável, a base da pizza, é como sempre fantástica. Cozinhar é também, e muito, superarmo-nos.


Mais uma participação no Dia Um... Na Cozinha. Obrigada mais uma vez pelo desafio.


sábado, 1 de fevereiro de 2014

Sopa de tomate assado e manjericão e um antídoto para a solidão.

Amesterdão é uma cidade estranha e cheia de mitos nem sempre muito lisonjeiros para a cidade, dependendo do ponto de vista, mas que não deixam de ser mitos. Um dos outros mitos é a beleza da cidade. Os canais e as cornijas, as casas estreitas, quase em equilíbrio instável, únicas na sua diferença, os espaços verdes da cidade, a proverbial tolerância que não se estende ao resto da Holanda. Pode ser muito bela, sim, mas pode ser áspera e gélida, coberta por mantos densos que ocultam o sol. A primeira vez que lá estive era Inverno, Março talvez, uma visita fugaz num dia de muito frio. A segunda vez que lá estive era Setembro e todos os dias foram dias de muito frio. Um Setembro áspero que não oferecia qualquer novidade aos nativos. Nesses dias longos de céu cinzento tive muito tempo. Tempo para calcorrear a cidade longe do centro e do turismo. Avistava ao longe o Nemo e o Museu Marítimo e cruzava pontes e canais à parte dos circuitos turísticos. A vida leva-nos por vezes por outros caminhos e nesses caminhos, seja em que cidade for, a solidão pode espreitar a qualquer esquina. Quanto mais bela a cidade mais dolorosa a solidão. Às vezes encontrava-a ali perto, outras vezes mais longe, mas foi uma constante. Meti o nariz em muitos museus, alberguei-me em alguns na esperança de que a arte me acalmasse a nostalgia, um sentimento estranho de fim. Num desses dias fui ao Museu Van Gogh, provavelmente o museu mais conhecido de Amesterdão e lá andei, falando de mim para mim, sempre surpreendida com a capacidade de passar para telas o incompreensível que vai dentro de nós e a cor, nada me atrai tanto como a cor, e o traço espesso, a marca inequívoca da alma perturbada. E estava frio. Era Setembro. Eu estava sozinha e encontrei conforto numa deliciosa sopa de tomate com pimenta preta no restaurante do museu. A que melhor me terá sabido.

Sopa de tomate assado e manjericão

Ingredientes
1 kg de tomate de cacho
2 cebolas roxas médias
1 batata média
4 dentes de alho
¼  de colher de sobremesa de pimenta Cayenne (opcional)
½ colher de sobremesa de açúcar
½ cubo de galinha
Manjericão a gosto
1 colher de sopa generosa de crème fraiche
Pimenta preta acabada de moer
Azeite (um fio)




Preparação
Pré-aquecer o forno a 200º.
Cortar as cebolas em rodelas finas, o alho em pedaços, deitar a pimenta Cayenne, regar com o fio de azeite e levar a lume médio a baixo numa frigideira larga que possa ir ao forno. Refogar uns quatro minutos sem deixar que a cebola caramelize. Adicionar os tomates cortados em quartos com a pele mas sem sementes, com a parte cortada virada para baixo. Juntar a batata cortada em rodelas muito finas. Temperar com sal. Salpicar com o manjericão picado. Deixar ao lume mais uns quatro minutos. Não mexer nunca. Levar ao forno pré-aquecido cerca de meia hora para assar os vegetais. Findo esse tempo, transferir para um tacho. Deitar um pouco de água na frigideira para a aproveitar os sucos, dissolver meio cubo de galinha e verter no tacho. Ferver um pouco e, com um triturador de alimentos, triturar todos os ingredientes. Deitar a água necessária para liquidificar e formar um creme mais homogéneo. Rectificar o tempero, ferver mais um pouco e, por fim, acrescentar o crème fraiche. Servir bem quente, com pimenta preta acabada de moer e folhas de manjericão a gosto.



Notas:
  • A pimenta Cayenne torna a sopa picante, mas pode obviamente ser omitida.
  • A qualidade do tomate é fundamental. Nada daqueles tomates sensaborões que nos aparecem no supermercado ao preço da chuva.
  • Nunca tinha feito sopa com vegetais assados mas fiquei fã. A diferença no sabor é substancial.
  • A inspiração veio de várias fontes: Gordon Ramsay para variar, Rachel Allen, receitas que procurei na net. O resultado foi este.
  • Esta sopa é muito melhor do que a comi no museu Van Gogh. Estou a pensar candidatar-me para lhes mostrar como se faz. 

E aqui fica a minha resposta a mais um desafio Dia Um... Na Cozinha. Belíssima ideia, esta de proporem as sopas como tema. Siga para o seguinte e um beijo às incansáveis dinamizadoras. 



quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

A noite e o insubstituível bacalhau

Eu gosto da noite. Sou noctívaga desde a barriga da minha mãe e se pudesse deitar-me-ia tarde todas as noites, a noite não me dá sonos calmos, dormiria até às dez e faria a vidinha depois. Mas não é assim.
Gosto da noite porque tudo apazigua. A primeira vez que fui a África cheguei à noite. Brindou-me o aroma inebriante e o calor húmido que adoro mal pus pé fora da porta daquele avião gélido que me transportara até aquelas paragens equatoriais. E esperava-me uma noite de breu que como um véu cobria e encobria a realidade lá fora.
Era noite quando entrei em Havana pela segunda vez. Noite quente de Junho e a Praça da Revolução pareceu-me o mais impressionante local, iluminado e apaziguado pela noite. Não é verdade mas a noite assim a tornou.
É à noite que mais gosto do Palácio à sombra do qual cresci. É maior, mais belo, imponente. Tudo por causa da noite.
Conheci o homem com quem trilho caminhos à noite. Era uma noite gélida de Novembro húmido como só Mafra conhece e com ele fiquei até hoje. Noite abençoada.
Há noites, como dias, em que as ementas são fixas cumprindo rituais ancestrais de hábitos culturais e religiosos. E há noites em que podemos dar a volta à ementa, vesti-la de gala para a ocasião, perfumá-la e polvilhá-la com outros aromas. 
O único problema da noite é quando se tem uma modesta máquina fotográfica, a ceia é aguardada com expectativa e as fotografias não saem como eu gostaria. Há sombras. Há o brilho dos pratos. Há a falta de luz que é fundamental para quem anda nestas lides, muito modestas as minhas, de fotografar comida. Aqui ficam as possíveis mas posso garantir que o sabor é muito mais intenso do que estas modestas fotografias. Às vezes a noite trai-nos.
Quando o Dia Um… Na Cozinha lançou o desafio deste mês com iguarias de Natal a escolha foi-me muito difícil, as possibilidades, embora imensas, acabavam por recair sempre nos mesmos doces. Decidi-me pelo fiel amigo. Depois de ter experimentado várias opções para a Ceia de Natal sem que nenhuma fosse o tradicional cozido com batatas, nada por que se morra de amores aqui por casa, este ano optámos por uma receita de confecção mais rápida e de sabores mais arrojados. Se havia 1001 maneiras de o preparar agora passa a haver mil e duas.

Lombo de bacalhau embrulhado em prosciutto com redução de vinho branco e coentros

Ingredientes
Lombos de bacalhau Usei congelados)
Presunto (usei Prosciutto por ser mais suave)
Sal e pimenta
Alho
Azeite

Para a redução:
Vinho branco
Coentros frescos a gosto

Preparação
Descongelar os lombos de bacalhau. Cortar ao meio pela espinha. Retirar a pele e as espinhas. Aquecer azeite com dois dentes de alho picados. Pincelar os lombos com o azeite e alho, deitar pimenta preta acabada de moer e reservar por umas horas.

Embrulhar os lombos de bacalhau nas fatias de presunto. Numa frigideira com um fio de azeite selar o bacalhau embrulhado no presunto. Baixar o lume e ir virando o bacalhau com uma pinça. Quanto ao tempo, usei a intuição, uso-a muito, e assim que vi que o bacalhau estava quase pronto transferi-o para uma travessa quente e levei ao forno pré-aquecido a uns 150º com uma folha de alumínio por cima. Entretanto, preparar a redução. Na frigideira onde se selou o bacalhau, adicionar vinho branco, usei Verdelho, quando o molho tiver reduzido, juntar os coentros cortados. Retirar o bacalhau do forno, regar com a redução e servir. Foi acompanhado com batatas salteadas avinagradas. Dispensámos as couves e nem os bróculos resolveram aparecer.  

Aqui fica mais uma participação no grupo Dia Um... Na Cozinha, um grupo ao qual gosto muito de pertencer e a quem desejo um 2014 bem opíparo. 


Desejo a todos um excelente 2014. Que seja sempre melhor do que o que esperamos. Que na noite haja aromas perfumados e luzes que nos iluminem o caminho.

Nota: mudei a foto e pus esta que de repente me apareceu no Google+ com estes efeitos sem eu saber como. Que a magia do Natal se mantenha ao longo dos outros dias do ano.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Strudel de cogumelos e presunto ou o Wellington sem beef

Embora não venere ninguém, tenho, como o comum dos mortais, um fraquinho por algumas figuras públicas na área da culinária internacional e, sendo eu rapariga de humores e de rompantes, sou fã confessa do Gordon Ramsay. A minha vida e experiência culinária pode dividir-se em dois momentos: antes e depois. Antes e depois do Gordon Ramsay. Antes e depois do Beef Wellington. Quando descobri há uns anos aquela criatura irada na cozinha a gritar desalmadamente por causa dos Beef Wellington, decidi deitar mãos à obra, eu mesma experimentar um Beef Wellington, o pomo da discórdia no "Hell’s Kitchen", e oferecê-lo com carinho ao carnívoro-mor cá de casa. Nesse dia e em todos os que regressei à receita morosa, aprimorando-me cada vez que a repetia, estabelecia-se uma contenda à mesa: todos e cada um de nós queriam ficar com o ‘rabo’ do Beef Wellington. O rabo do dito cujo situava-se nas extremidades e continha não a carne, mas o recheio: uma camada fininha de presunto com uma mistura de cogumelos moídos envolvido na massa folhada e com os sucos de todos os elementos em harmonia. As extremidades eram divididas pelos três e sempre muito concorridas. Meti na cabeça, depois da nossa preferência, que um dia faria um folhado apenas com o recheio de cogumelos.
Quando o Dia Um… Na cozinha lançou o desafio dos Strudel salgados ficou logo bem claro na minha cabeça que esta seria a oportunidade de pôr em prática a ideia que acalentei durante um tempo. Um Strudel seria e o recheio, o eleito cá de casa: cogumelos e presunto com um toque de mostarda, o 'rabo' do Beef Wellington. Acrescentei uns cubinhos de feta temperado com orégãos e a receita foi aclamada por unanimidade e com louvor. Pena é que as fotografias não façam justiça à delícia que foi hoje o nosso almoço. Estava sol, era Domingo e nada me pode fazer mais feliz do que amar cozinhando.

Strudel de cogumelos e presunto com feta

Ingredientes
1 base de massa folhada rectangular
200 g de cogumelos brancos
400 g de cogumelos Portobello
Presunto serrano em fatias finas
Queijo feta
Mostarda com grãos
Vinho branco
Tomilho fresco
Sal
Pimenta preta acabada de moer
Flor de sal
Margarina com alho
Azeite


Preparação
Lavar os cogumelos e triturar numa picadora ou robot de cozinha até ficarem em pedacinhos muito pequenos, quase em pasta. Reservar. Numa frigideira larga deitar um fio de azeite e uma noz de margarina com alho. Deitar os cogumelos e deixar cozinhar até desaparecer a água. Temperar com sal, pimenta acabada de moer, tomilho a gosto, e adicionar vinho branco. Deixar evaporar o vinho mexendo sempre, até ficar uma pasta uniforme húmida, sem deixar secar totalmente mas sem haver vestígios do vinho branco. Retirar do lume e deixar arrefecer.

Pré-aquecer o forno a 200º. Tirar a massa folhada do frigorífico, deixar descansar à temperatura ambiente uns dez minutos e estender numa folha de papel vegetal. Colocar as fatias de presunto sobre a massa folhada, deixando uma margem e pincelar generosamente o presunto com a mostarda com grãos. Dispor o queijo feta e a mistura de cogumelos por cima. Pincelar as extremidades da massa folhada e dobrar, ‘fechando’ muito bem a massa folhada. Refrigerar dez minutos no frigorífico. Retirar do frigorífico, pincelar levemente com o ovo batido, fazer uns traços na massa folhada com uma faca sem cortar. Salpicar com flor de sal e levar ao forno até a massa estar dourada.



E esta foi a minha resposta a mais um desafio do Dia Um... Na Cozinha. Que venha o próximo! 



sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Crumble de marmelos caramelizados e o elogio da imperfeição

Dos defeitos que me caracterizam um deles é ‘comer com os olhos’. Se for a uma banca de fruta ou de legumes, os olhos saltam-me sempre para os maiores, os mais lustrosos, os mais polpudos, os que saltam ao olhar. A única coisa que me demove de escolher sempre a fruta grande e lustrosa, a mais bonita, é o aroma. Penso a espaços que quem me vir às compras pensará que sou cão de duas patas porque farejo tudo. Sou incapaz de comprar fruta sem a cheirar, pelo menos a mais aromática e a cujo sabor se deixa adivinhar pelo aroma: pêssegos, maçãs, pêras, abacaxis e meloas têm de passar pelo teste do aroma. Se o aroma não acompanhar o aspecto atraente nada feito. Obviamente sou contra o desperdício, completamente contra, e contra a eugenia na fruta, compreendo muito bem este movimento e apoio, mas o aspecto, ai o aspecto. Nem é tanto ter uma mancha aqui e outra ali, é mais um ar enfezado e engelhado de quem teve melhores dias.
Cada vez mais compro fruta aqui na aldeia em vez daquela sensaborona do supermercado, não tem passado no teste do aroma, e recorro com frequência aos vendedores que aos fins-de-semana vendem os produtos das suas hortas. É neles que compro batatas e cebolas e tomates também. Nada pior do que tomate a saber a fénico e nada melhor do que tomate polpudo e adocicado, a saber a natureza e a sol, com cebola ‘verdadeira’ e manjericão do vaso que me decora a janela da cozinha.
Hoje fui à procura de marmelos. Não havia na primeira vendedora, indicou-me uma outra. Quando lá cheguei, vi uns marmelos, como as pessoas: uns pequenos e com sardas, uns mais gorduchos, uns com uns sinais, mas nenhum, nem unzinho, sem mácula. Como as pessoas. Dizia-me a vendedora que eram da safra dela, bons e docinhos, davam para assar, fazer marmelada, cozer. Dei-lhes uma volta, meti-lhes o nariz e trouxe um quilo e meio. Eram mesmo bons. Macios e aromáticos e o resultado foi melhor do que o esperado. Nunca se deve julgar um livro pela capa. Nunca se deve julgar a fruta pela cara. Estou quase convencida.

Crumble de marmelos caramelizados

Para a cobertura:
150 g de farinha
75 g de manteiga gelada cortada em cubos
3 colheres de sopa de açúcar mascavado
3 colheres de sopa de flocos de aveia
1/2 colher de chá de canela

6 marmelos (5 em pedaços e um ralado)
6 colheres de açúcar
Pimenta da Jamaica
Canela a gosto
Sumo de uma laranja
Vinho do Porto branco



Preparação
Pré-aquecer o forno a 200º
Para fazer a cobertura, juntar num recipiente a farinha, o açúcar e a canela. Adicionar a manteiga e misturar com as mãos, criando uma mistura semelhante a migalhas. Juntar por fim os flocos de aveia e reservar no frigorífico.
Descascar cinco marmelos e cortar em pedaços grosseiros não muito grandes. Ralar um marmelo.

Numa frigideira, deixar o açúcar em lume brando até começar a caramelizar. Adicionar o marmelo ralado e cozinhar 2 a 3 minutos. Juntar os restantes marmelos cortados em pedaços, canela a gosto, uma pitada de pimenta da Jamaica e o sumo de laranja. Envolver bem e deitar o Vinho do Porto. Deixar amolecer os marmelos e transferi-los para um recipiente refractário. Retirar a cobertura do frigorífico e espalhar por cima dos marmelos. Levar ao forno até ficar dourado. 


Este foi a minha escolha para mais um desafio do Dia Um... Na Cozinha. Gostei muito do resultado, tem o equilíbrio perfeito entre o doce do caramelo e a acidez dos marmelos. São servidos?



Receita inspirada no Apple Crumble do Ultimate Cookery Course do Gordon Ramsay.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Frittata de alcachofras e tomate seco e uma aventura em 'língua estrangeira'

Diz Chico Buarque no belíssimo Budapeste que “devia ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira.” Naquela luminosa manhã de Fevereiro, sentada numa das mais belas praças do mundo que conheço, não fiquei incomodada por terem ‘debochado’ do meu fraquíssimo italiano. Era Carnaval, Veneza cobria-se de turistas, a maior enchente dos últimos tempos, li depois, mas nem por isso deixou de ser mágica, misteriosa, encantadoramente decadente. Sentada na Praça de São Marcos a ver o mundo passar enquanto esperava um espresso matinal fui vendo desfilar ao meu lado aquilo que cá por casa se chamam fritas, uns bolos pequenos fritos polvilhados com açúcar, algures entre filhós e sonhos, que já tivera oportunidade de ver numa outra visita à cidade, menos bela dessa vez. Curiosa e foodie que se preze quer provar quase tudo e enquanto os ditos fritos iam sendo servidos à minha volta, fui apurando memória e ouvido: memória porque a palavra já se tinha cruzado comigo da outra vez em Burano, e ouvido, porque talvez pelo ouvido lá fosse. Começava por ‘f’, disso estava certa, e certa fiquei quando me surgiu a palavra. Era aquela. Quando o empregado chegou pedi-lhe lesta os cafés e acrescentei a palavra que tanto trabalho me havia dado a procurar: frittata. E é aqui que entra o Chico Buarque. Bem-disposto e sorridente o homem confirmou ironicamente se era mesmo uma frittata que eu queria àquela hora da manhã, "debochou da minha aventura em língua estrangeira", e corrigiu-me com uma gargalhada: frittelle! Frittelle di Carnevale. Eram bons, uma delícia, souberam-me pela vida mas algo me diz que aquele cenário inesquecível bem de frente para São Marcos deu um grande contributo. A frittata foi hoje. Hoje é que foi a frittata.

Frittata de alcachofras e tomates secos

Ingredientes
2 ovos grandes
Corações de alcachofra
Tomates secos
Queijo President Snack
Alecrim
Pimenta preta
Sal



Preparação
Pré-aquecer o forno a 200º. Bater os ovos muito bem com uma pitada de sal. Cortar os tomates secos ao meio, as alcachofras em metades. Cortar o queijo em fatias médias. Picar o alecrim.

Aquecer uma frigideira anti-aderente e deitar um fio de azeite. Retirar o excesso com papel de cozinha. Deitar os ovos batidos e dispor por cima os tomates secos, as alcachofras e o queijo em forma de estrela. Temperar com a pimenta preta acabada de moer e polvilhar com o alecrim. Quando começar a borbulhar e tiver uma base sólida, levar ao forno pré-aquecido uns dez minutos. Fácil e deliciosa.



Mais um desafio do Dia Um... Na Cozinha.