Amesterdão é uma cidade estranha
e cheia de mitos nem sempre muito lisonjeiros para a cidade, dependendo do
ponto de vista, mas que não deixam de ser mitos. Um dos outros mitos é a beleza
da cidade. Os canais e as cornijas, as casas estreitas, quase em equilíbrio instável,
únicas na sua diferença, os espaços verdes da cidade, a proverbial tolerância que
não se estende ao resto da Holanda. Pode ser muito bela, sim, mas pode ser
áspera e gélida, coberta por mantos densos que ocultam o sol. A primeira vez
que lá estive era Inverno, Março talvez, uma visita fugaz num dia de muito
frio. A segunda vez que lá estive era Setembro e todos os dias foram dias de
muito frio. Um Setembro áspero que não oferecia qualquer novidade aos nativos.
Nesses dias longos de céu cinzento tive muito tempo. Tempo para calcorrear a
cidade longe do centro e do turismo. Avistava ao longe o Nemo e o Museu
Marítimo e cruzava pontes e canais à parte dos circuitos turísticos. A vida
leva-nos por vezes por outros caminhos e nesses caminhos, seja em que cidade
for, a solidão pode espreitar a qualquer esquina. Quanto mais bela a cidade
mais dolorosa a solidão. Às vezes encontrava-a ali perto, outras vezes mais
longe, mas foi uma constante. Meti o nariz em muitos museus, alberguei-me em
alguns na esperança de que a arte me acalmasse a nostalgia, um sentimento
estranho de fim. Num desses dias fui ao Museu Van Gogh, provavelmente o museu
mais conhecido de Amesterdão e lá andei, falando de mim para mim, sempre
surpreendida com a capacidade de passar para telas o incompreensível que vai
dentro de nós e a cor, nada me atrai tanto como a cor, e o traço espesso, a
marca inequívoca da alma perturbada. E estava frio. Era Setembro. Eu estava
sozinha e encontrei conforto numa deliciosa sopa de tomate com pimenta preta no
restaurante do museu. A que melhor me terá sabido.
Sopa de tomate assado e
manjericão
Ingredientes
1 kg de tomate de cacho
2 cebolas roxas médias
1 batata média
4 dentes de alho
¼ de colher de sobremesa de pimenta Cayenne (opcional)
½ colher de sobremesa de açúcar
½ cubo de galinha
Manjericão a gosto
1 colher de sopa generosa de
crème fraiche
Pimenta preta acabada de moer
Azeite (um fio)
Preparação
Pré-aquecer o forno a 200º.
Cortar as cebolas em rodelas
finas, o alho em pedaços, deitar a pimenta Cayenne, regar com o fio de azeite e
levar a lume médio a baixo numa frigideira larga que possa ir ao forno. Refogar uns
quatro minutos sem deixar que a cebola caramelize. Adicionar os tomates
cortados em quartos com a pele mas sem sementes, com a parte cortada virada
para baixo. Juntar a batata cortada em rodelas muito finas. Temperar com sal.
Salpicar com o manjericão picado. Deixar ao lume mais uns quatro minutos. Não
mexer nunca. Levar ao forno pré-aquecido cerca de meia hora para assar os
vegetais. Findo esse tempo, transferir para um tacho. Deitar um pouco de água
na frigideira para a aproveitar os sucos, dissolver meio cubo de galinha e
verter no tacho. Ferver um pouco e, com um triturador de alimentos, triturar
todos os ingredientes. Deitar a água necessária para liquidificar e formar um
creme mais homogéneo. Rectificar o tempero, ferver mais um pouco e, por fim,
acrescentar o crème fraiche. Servir bem quente, com pimenta preta acabada de
moer e folhas de manjericão a gosto.

Notas:
- A pimenta Cayenne torna a sopa
picante, mas pode obviamente ser omitida.
- A qualidade do tomate é fundamental. Nada daqueles tomates sensaborões que nos aparecem no supermercado ao preço da chuva.
- Nunca tinha feito sopa com
vegetais assados mas fiquei fã. A diferença no sabor é substancial.
- A inspiração veio de várias fontes: Gordon Ramsay para variar, Rachel Allen, receitas que procurei na net. O resultado foi este.
- Esta sopa é muito melhor do que a
comi no museu Van Gogh. Estou a pensar candidatar-me para lhes mostrar como se
faz.
E aqui fica a minha resposta a mais um desafio
Dia Um... Na Cozinha. Belíssima ideia, esta de proporem as sopas como tema. Siga para o seguinte e um beijo às incansáveis dinamizadoras.