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domingo, 25 de outubro de 2015

Bolo de chocolate à antiga para domingos preguiçosos

 Um dia da semana passada numa tarde de conversa descontraída com a minha mãe, ela confessou que lhe apetecia um bolo à antiga, daqueles fofos e altos de que se come uma fatia ainda morna, a desmoronar-se pela textura, feitos sem a sofisticação dos tempos actuais. A seguir passámos pela memória os nossos bolos passados. Ela lembrou com carinho um bolo de iogurte que eu costumava fazer, não me lembro dele, e eu recordei todos os bolos enrolados que fazia também a pedido do meu pai. Tinham como recheio um molho de chocolate, feito a olho, completamente a olho, ou geleia de marmelo que a minha mãe fazia. Não devemos voltar ao lugar onde fomos felizes, diz-se por aí, e não sendo eu de me prender demasiado ao passado, sei que seria incapaz de reproduzir com fidelidade aqueles momentos pueris prenhes de carinho que caracterizavam os nossos momentos. O meu pai partiu. Jamais seriam os mesmos. 
É sabido que não se pode reproduzir o passado sob pena de não se viver o presente, mas hoje enquanto andava a dar voltas à cabeça para fazer um bolo que levasse natas, era o que tinha cá em casa, deparei-me com o bolo de chocolate à antiga da Nigella. Esta epifania só podia ser a continuação da conversa com a minha mãe e não procurei mais. Aqui o têm, com uma pequena alteração. Fiz uma cobertura à antiga com os ingredientes que tinha em casa e a olho. Não se deve reproduzir o passado exactamente porque o presente pode ser igualmente pleno. Vivamos apenas os tempos como se nos vão apresentando.

Bolo de chocolate à antiga

Ingredientes

Bolo
200 g de açúcar
200 g de farinha com fermento
50 g de cacau em pó
150 g de manteiga
200 g de natas espessas ou ácidas
1 colher de chá de fermento em pó
2 ovos grandes

Cobertura (medidas aproximadas)
1,5 dl de leite
1 colher de sopa de farinha
2 colheres de sopa de açúcar
1 colher de sopa de cacau em pó
1 colher de sopa de chocolate em pó
1 gema de ovo

Confecção
Pré-aquecer o forno a 180º
Bater a manteiga à temperatura ambiente com o açúcar. Juntar os dois ovos e as natas. Envolver a farinha com o cacau e o fermento. Deitar na forma untada com margarina e levar ao forno 35 a 40 minutos. Retirar do forno, esperar uns dez minutos e desenformar. 
Para a cobertura, juntar e mexer todos os ingredientes. Levar ao lume e deixar engrossar mexendo sempre. Deixar arrefecer um pouco, mexendo de vez em quando e verter por cima do bolo. 


E agora com uma bola de gelado de baunilha não fossem as calorias já as suficientes.

sábado, 19 de setembro de 2015

Bolo com crumble de canela para gente com pressa

Domingo. Almoço feito. Entrada. Grelhados para continuar a mimar o Verão. A calma que só se consegue no campo, com os melros a saltitar, uma tarja de mar ao fundo e a sinfonia de sons únicos que só no campo se fazem ouvir. Tudo em sintonia, até que dou conta de que faltava algo: sobremesa. Sem grande tempo para sobremesas muito elaboradas, nada que precisasse de frigorífico, nada de bolos com fruta, não tinha em casa e nada que necessitasse de ingredientes sofisticados, era tarde e não havia tempo de sair de casa e ir ao supermercado. É que isto de viver na aldeia é giro, calmo e bucólico, mas, infelizmente em alguns aspectos, quase todos, não é a cidade, vila sequer e qualquer necessidade menos básica obriga a uma deslocação à superfície comercial mais próxima. Não, nada disso era possível. Puxei pela cabeça e lembrei-me de um bolo que tinha visto de uma das minhas chefs preferidas, Rachel Allen. Dizia ela que era um bolo rápido, tal como eu precisava. Havia todos os ingredientes em casa, foi só deitar mãos à obra e verificar mais uma vez que a simplicidade pode ser muito boa. E deliciosa.

Bolo com crumble de canela

Ingredientes

Para o crumble
100 g de açúcar amarelo 
50 g de farinha 
60 g de manteiga
1 colher de chá de canela

Para a massa
175 g de farinha com fermento
100 de açúcar amarelo
1/2 colher de chá de sal (usei refinado)
75 g de manteiga
1 ovo
100 ml de buttermilk ou leite

Confecção
Pré-aquecer o forno a 180º
Primeiro preparar o crumble. Juntar todos os ingredientes secos. Adiconar a manteiga em pedaços pequenos e esfarelar com a mão ou usar um amassador manual. Reservar no frigorífico
Para a massa, juntar todos os ingredientes secos, adicionar a manteiga em pedaços e proceder como para o crumble. De seguida, juntar o ovo batido e o buttermilk. Deitar numa forma pequena forrada com papel vegetal anti-aderente e levar ao forno 15 minutos. Retirar e espalhar o crumble por cima. Levar ao forno mais 15 minutos. 


Este bolo é de confecção fácil e delicioso. Numa altura mais outonal podem juntar-se especiarias ao crumble como pimenta da Jamaica e gengibre. 


segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Bolo de natas ácidas com laranja e canela

Abro o frigorífico e lá estão elas. Não sei muito bem para que as terei comprado mas, espreitando o prazo de validade, sei que estão nas últimas. Mais uns dias e zás,  entregarão a alma ao criador. Desde que deixaram de ser úteis para o fim para o qual as terei comprado que me desafiam de dentro do frigorífico e, por mais voltas que dê, penso sempre no mesmo. Na minha bíblia de bolos, o Cake da Rachel Allen cruzei-me um dia com um bolo de natas ácidas e laranja, e elas, as que me olham do frigorífico, pedindo para ser utilizadas antes que estiquem o pernil, serviriam na perfeição para me aventurar. Assim foi. Com umas pequenas alterações, o resultado está à vista. Ainda bem que ouvi as súplicas de dentro do frigorífico. 

Bolo de natas ácidas com laranja e canela

Ingredientes
150g de manteiga
200g de açúcar amarelo
250 g de farinha
200 ml de natas ácidas
2 ovos grandes
1 colheres de chá de fermento
Sumo de meia laranja grande
Raspa de duas laranjas
Meia colher de chá de canela em pó

Confecção
Pré-aquecer o forno a 180º.

Bater a manteiga à temperatura ambiente com o açúcar até ficar um creme leve. Adicionar os ovos um a um, batendo a cada adição. Juntar a raspa e sumo da laranja e as natas ácidas. Envolver a farinha com o fermento e a canela. Deitar numa forma muito bem untada e levar ao forno entre 40 a 50 minutos. Deixar repousar 5 minutos e desenformar. Depois de frio, decorar a gosto. Usei um stencil para bolos e polvilhei com canela em pó.


Este é o tipo de bolo que farei mais vezes, daqueles que se comem ao lanche com uma bela chávena de chá. A textura é perfeita, macia e fofa, parece que se vai desfazer.


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Bolo invertido de pêra para comemorar Setembro

Gosto de Setembro. É um dos meus meses preferidos, logo a seguir a Maio e Junho. Gosto de algum recolhimento, gosto das cores e dos pores-do-sol, gosto do cheiro de Setembro e da luz de fim de dia. Setembro marca inícios, marca fins também, mas um fim contém sempre um início, aprendizagens várias com lágrimas e sorrisos. Há uma esperança tonta em Setembro. No meu Setembro cabem sonhos.

Bolo invertido de pêras

Ingredientes

Para o caramelo
75g de manteiga
125g de açúcar amarelo

Para o bolo
4 ovos
100ml de óleo
175g de açúcar
150g de farinha
2 colheres de chá de canela
1 colher de chá de fermento
1 pêra ralada
4 pêras descascadas e cortadas em oitavos

Preparação
Pré-aquecer o forno a 180º.
Numa frigideira anti-aderente e que possa ir ao forno derreter a manteiga. Juntar o açúcar amarelo e caramelizar um pouco sem mexer. Continuar em lume brando e deitar as pêras cortadas. Desligar o lume e reservar.

Para o bolo, juntar num recipiente os ingredientes secos, a farinha, o açúcar, a canela e o fermento. Num outro, bater os ovos e o óleo com uma vara de arames, juntar por fim a pêra ralada. Adicionar aos ingredientes secos e envolver tudo. Usei na mesma a vara de arames. Deitar a massa cuidadosamente na frigideira sobre as pêras e o açúcar caramelizado e levar ao forno cerca de 40 minutos. Retirar do forno, deixar repousar cinco minutos e desenformar. 
Comer morno ou frio com crème fraiche ou simples. 




Para celebrar Setembro fiz o que já não fazia há tempos, um bolo de sabores e aromas de dizer adeus ao Verão.  Esta receita foi inspirada numa da Rachel Allen, embora com pequenas alterações: deixar caramelizar levemente o açúcar e a manteiga e omiti a raspa de laranja. Para a próxima porei apenas uma colher de chá de canela. As pêras são biológicas, vieram directamente da mão do meu sogro cá para casa e este bolo surgiu também na necessidade de as usar. É de confecção muito fácil.

domingo, 13 de abril de 2014

Bolo de framboesas e chocolate branco e os domingos indulgentes

Domingo é dia de nada fazer. Embora consagrado como dia do Senhor, seja lá ele quem for, não somos muito dados à religião cá em casa, acabo sempre por contrariar a premissa. Levanto-me não muito tarde, e o tempo atmosférico permitindo, atiro-me à roupa para lavar. Em dias e semanas sem invernia, uma máquina chegará, mas em dias e semanas como os que temos vivido, uma máquina é pouco. Começo, portanto, pela roupa. E lavar roupa é estendê-la e apanhá-la. Lá se vão as boas intenções do dia de nada fazer. Depois vem o almoço, e a segunda parte do dia de nada fazer. O almoço, ao contrário da roupa, é prazer. Prazer puro. Prazer conseguir ver a tarja de mar iluminado da janela da cozinha e as manhãs luminosas prenhes de esperança de dias que não sei se algum dia virão. Mas foi Domingo. Atirei-me à cozinha e saiu este bolo.  Entre a primeira e a última fatia soltaram-se risos e exclamações, a partilha de que preciso para viver. Pode ser ao Domingo ou noutro dia qualquer. Se eles não passo.

Bolo de framboesas e chocolate branco

Ingredientes

Para a massa
175 g de manteiga
175 g de açúcar branco
175 g de farinha com fermento
2 ovos
Raspa de meio limão
50 ml de buttermilk ou leite
100 g de chocolate branco cortado em pedaços pequenos
125 g de amêndoas raladas
150 g de framboesas frescas

Para decorar
Açúcar de confeiteiro
Framboesas frescas
Raspas de chocolate branco


Preparação 
Pré-aquecer o forno a 180º. Bater o açúcar com a manteiga até obter uma mistura cremosa. Acrescentar os ovos um a um, batendo entre cada adição e a seguir o buttermilk. Acrescentar a farinha e envolver com uma espátula, depois as amêndoas raladas e a raspa de limão. Juntar o chocolate branco e, por fim, as framboesas com cuidado para não as partir. Colocar por cima as restantes e empurrar para dentro da massa suavemente. Levar ao forno 50 minutos.


Retirar do forno e deixar uns dez minutos na forma. Desenformar, deixar arrefecer e polvilhar com açúcar de confeiteiro, raspas de chocolate branco e framboesas. 

Fiquei fã deste bolo. É húmido, pintalgado de sabores tão diversos, feito de contrastes e fica maravilhosamente no meu suporte de bolos novo. A repetir. Há que lhe dar uso.

Nota: esta é uma versão mais densa do Bakewell Cake, uma alternativa para quem não gosta muito de chocolate branco e este uma alternativa para quem é amante de chocolate. 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Bolo mármore com crumble de chocolate com chilli e o triunfo da persistência

Há coisas que fazemos bem, outras assim assim e outras nem por isso. Num post antigo confessei já a minha total incapacidade para cortar pão. Comprovei-a mais uma vez neste Natal ao cortar o pão para as rabanadas. Não ficou mal de todo. Depois de aparadas as côdeas ficaram fatias bastante razoáveis mas não é façanha com que me dê bem. Há quem diga que o pão deve ser mesmo cortado à mão. Quando está quente parece-me a solução perfeita, mas nem sempre está e há dias e alturas em que tenho de cortar pão com a faca. As fatias nunca saem perfeitas.
Outra das minhas incapacidades é, porventura, o mais simples e básicos dos bolos: bolo mármore. Não me lembro de comer muito bolo mármore em criança mas lembro-me de um dia estar a fazer um bolo mármore com uma amiguinha lá em casa sob supervisão da minha mãe. Quando chegou a altura de sobrepor a massa simples e a de chocolate fizemo-lo ainda na tigela. Como é bom de ver, o mármore mudou de cor e em vez dos veios escuros ficou uma cor uniforme de sabor achocolatado. Devia logo ter desconfiado nessa altura.
Quando um dia anunciei cá em casa ‘vou fazer um bolo’ e o meu consorte me questionou em jeito de pedido ‘um bolo mármore?’ sim, podia ser, um bolo mármore, assim foi. Não bem assim. Quando deitei mãos à obra, e vão duas, saiu um bolo ‘tigresse’. Eu explico: deitei chocolate em vez de cacau e dei-lhe umas voltas na massa que mais parecia os padrões de bicheza que se vêem por aí. O veredicto foi claro, ‘o bolo está bom mas’, pois o ‘mas’, ‘mas’, concluiu ‘não é bolo mármore’. Não era.
A terceira vez que me aventurei, aconteceu-me pior. Passou-me pela cabeça usar uma forma de fundo amovível mas com o fundo trabalhado e de buraco ao meio. Após pouco tempo no forno, fui chamada de urgência à cozinha. Está por averiguar se foi falta de jeito da minha parte ou se a forma está frouxa e velha e não veda como devia. Havia massa de bolo a esparramar-se pelo forno. Actuei rapidamente, uma mulher atrapalhada é pior que um homem grávido, mas, mais uma vez, o resultado foi um bolo. Ponto. Um bolo. Nem 'tigresse' sequer. Estava bom mas ser bolo mármore é que não era.
A penúltima vez que arrisquei fui acometida da vontade de vencer a minha incapacidade e salvar a minha reputação. Fiz pouca massa, e o resultado foi um bolo dálmata: estava às pintas. Chocolate aqui e acolá. Delicioso. Delicioso bolo dálmata. Bolo mármore é que não era.
A mais recente investida começou ontem ‘hoje apetecia mesmo um bolinho com um chá com uma intempérie destas’ ao que me perguntaram ‘bolo mármore’? Foi quase bolo mármore. Lá que estava bom, estava mas seria bolo mármore?

Bolo mármore com crumble de chocolate com chilli

Ingredientes

Para o bolo
200 g de manteiga
300 g de farinha
1 colher de chá de fermento
300 g de açúcar
6 ovos
½ iogurte natural magro sem açúcar
Cacau (deitei a olho)

Para o crumble
125 g de farinha
75 g de açúcar
75 g de manteiga gelada cortada em cubos
1 tablete (100g) de chocolate negro com chilli (usei Lindt)

Preparação
Pré-aquecer o forno a 180º.
Primeiro preparar o crumble. Juntar a farinha e o açúcar, a manteiga cortada em cubos e com os dedos esfarelar. Cortar o chocolate em pedacinhos com uma faca e adicionar ao crumble, envolvendo apenas. Reservar no frigorífico.
Para o bolo bater a manteiga à temperatura ambiente com o açúcar. Juntar os ovos um a um batendo entre cada adição. Deitar o iogurte e bater apenas o suficiente para ficar homogéneo. Com uma espátula, envolver a farinha. Dividir a massa em duas partes. Incorporar o cacau em pó numa das partes. Deitar na forma a massa simples e a com chocolate. Se necessário fazer leves movimentos com uma espátula ou uma faca. Levar ao forno cerca de 40 minutos. Quando o bolo estiver praticamente cozido, retirar do forno, espalhar o crumble por cima rapidamente, o bolo deve ficar o mínimo tempo possível fora do forno, e levar mais uns 15 minutos a cozer até começar a ficar dourado. Deixar arrefecer um pouco e desenformar.

Esta receita foi inspirada numa da Rachel Allen com algumas alterações. O chocolate do crumble pode ser de leite a versão original. Desta vez optei pelo chilli, gosto do contraste, mas ficará bem de certeza com chocolate com laranja.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Bolo de chocolate e frutos vermelhos para a festa da Maria

Agora que Setembro nos brinda com dias menos longos e ocasos em jeito de despedida o regresso a dias mais recatados anuncia-se sem cerimónia. Chama-me lentamente o conforto de uma tarde em casa tranquila com uma passagem breve pela cozinha e um prazer perfumado no forno, mais tarde acompanhado com uma chávena de chá. De maternidade entendo pouco, mas sinto que pouco nos faz mais feliz do que um bolo acabado de fazer pela nossa mãe. E sei que se tivesse filhos os acarinharia com o que destas mãos sai, um colo doce e carinhoso, o momento em que tudo pára e se relativiza.

Bolo de chocolate com frutos vermelhos

Ingredientes
200g de açúcar
200g de farinha
150 g de manteiga
4 ovos inteiros
2 colheres de sopa de iogurte grego (iogurte natural sem açúcar em alternativa)
2 colheres de sopa de cacau em pó
1 colher de sopa de chocolate em pó
Frutos vermelhos a gosto (usei mistura de frutos vermelhos congelados)

Preparação
Pré-aquecer o forno a 180º. Untar com margarina uma forma refratária baixa e larga. Bater a manteiga à temperatura ambiente com o açúcar até ficar um creme fofo e esbranquiçado. Adicionar os ovos inteiros um a um, batendo a cada adição e, por fim, o iogurte. Envolver a farinha cuidadosamente com uma espátula. Peneirar o cacau e o chocolate e envolver de novo sem nunca bater a massa.

Deitar na forma, pôr por cima os frutos vermelhos e levar ao forno uns vinte minutos. Depois de frio polvilhar com açúcar de confeiteiro. 

Este bolo é de fácil confecção e resulta muito bem. Ideal para quem tem preguiça ou falta de tempo para bolos de chocolate elaborados mas a quem apetece muito de repente uma fatia de bolo de chocolate fofo e saboroso. Os frutos vermelhos proporcionam o toque meio ácido para quebrar a monotonia.


Este é o meu contributo para a festa da minha querida Maria Papitas, cujo blogue comemora o segundo aniversário. O texto é-lhe inteiramente dedicado. É o colo doce e maternal que embala o blogue e nele a declaração do amor incondicional aos seus filhotes.



sexta-feira, 12 de abril de 2013

O adeus ao Inverno num bolo de chocolate com Guinness

Este blogue é feito ao sabor dos humores e ao sabor da minha inspiração. Acontece portanto que cozinho bem mais do que posto e posto bem menos do que cozinho. Cozinho todos os dias aquilo que julgo que muitos de nós cozinham: comida dita normal, sem grandes inovações, pratos rápidos que não requerem grandes cuidados, o património gastronómico que forja a identidade. Nesta voracidade dos dias tenho também momentos de lazer e deleite puro na cozinha, ao contrário dos anteriores: experiências novas e outras repetidas que por pura preguiça e falta de palavras vão ficando para trás, as fotografias arquivadas numa pasta à espera de ver a luz dos dias com umas palavras a acompanhar. 
Ontem foi dia de inaugurar a época das saladas. Mais uma vez algo sem qualquer inovação, temperado com as réstias de sol poente de uma Primavera fugidia. Se ela não falhar adivinham-se muitos dias de saladas frescas, grelhados embalados no ritmo próprio, lento, saboreado com a calmaria de existências felizes, fruta perfumada de que tanto gosto: morangos bojudos, alperces carnudos, pêssegos suculentos, ameixas sumarentas. E depois virão cerejas e uvas.E estes dias que me iluminaram e sacudiram a amargura dos dias cinzentos são dias de frugalidade e de arrumar receitas de Inverno como quem arruma roupa numa outra gaveta e que só voltará a ser usada quando os dias diminuírem, a aragem fresca soprará de novo no canavial que assiste incólume à passagem das estações e os melros recolher-se-ão até mais um estio. Este bolo é para mim bolo de dias mais frescos quando o zénite se esmorece e o ocaso se redobra em vermelhos decadentes. Ficaria pois resguardado à espera desses dias, se não o postasse agora. Muito tempo. Tempo de mais.

Bolo de chocolate com Guinness

Ingredientes
150 ml de Guinness (pode ser outra stout)
75 g de chocolate negro em barra (usei o que tinha mas quanto mais negro, melhor)
120 g de manteiga
275 g de açúcar amarelo
175 g de farinha com fermento
2 ovos médios

Preparação
Pré aquecer o forno a 180º.
Levar a lume brando a Guinness e o chocolate negro partido em pedaços pequenos. Assim que o chocolate estiver derretido, retirar do lume e deixar arrefecer.
Bater o açúcar com a manteiga até ficar um creme esbranquiçado e fofo. Adicionar os ovos um a um e bater entre cada adição. Juntar com cuidado a mistura de Guinness e chocolate e, por fim, envolver a farinha. Levar ao forno 30 a 35 minutos. Fazer o teste do palito antes de retirar do forno. 


Este bolo é indicado para quem gosta de sabores atrevidos e desafiadores. Há um toque tão diferente e tão encantatório que não sei explicar. As receitas que encontrei por aí têm todas uma cobertura de queijo creme ou similar mas porquê atafulhar sabores e texturas se a simplicidade já é tão intensa?


Receita inspirada  aqui

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Palavras intraduzíveis e um bolo de coco com limão


As palavras contam. Contam sempre e contam muito, mesmo que digamos que uma fotografia vale mais que mil palavras ou que o silêncio é de ouro. Nada contra e também é verdade, a vida nunca é a preto e branco e há sempre várias versões para a mesma história. E agora chega de frases feitas. Os portugueses ligam às palavras e gostam de alardear e apregoar que são detentores da única palavra que não tem tradução. Acontece que eu tenho muito orgulho da palavra ‘saudade’ mas não acho que seja a única sem equivalente noutras línguas. Consigo encontrar em inglês uma ou outra cuja tradução fica aquém do significado. Quem já pôs pé nas ilhas britânicas e na ilha esmeralda terá sido invadido por uma panóplia de sensações contraditórias. Primeiro, a certeza de que jamais seriam capazes de viver num lugar com a invernia a assombrar-lhe os dias, o nevoeiro e a bruma como companheiros presentes e diários, o frio a açoitar-lhes os corpos e o vento a sacudir-lhes os cabelos como quem varre furiosamente as folhas de outono. A segunda, e muito falada, é a ‘frieza’ dos povos ali acima de França. Diz que são pouco dados a contactos amistosos, metem-se em casa como se fossem tocas e não vão em comboiadas, a menos que sejam bem regadas e num ambiente de festança desvairada. O português é rapaz a quem faz falta a ladainha da desgraça e para quem a pergunta/cumprimento ‘tudo bem?’ terá como resposta certa o desfilar de misérias, joanetes, bicos de papagaio e maleitas diversas, um certo recolhimento na exibição das dores privadas é encarado como sinal de frieza. ‘Lá em cima’ não querem saber de joanetes e catarros. Ponto. E vinha isto a propósito do que não se traduz. Uma das sensações contraditórias naquelas ilhas plantadas no meio do mar fustigadas por vento e circundadas por mares alterados é contraposta por uma das minhas sensações e sentimentos preferidos consubstanciados em Inglês pela palavra ‘cozy’. Alguém porventura terá encontrado um equivalente justo àquela sensação de se entrar numa casa cuidada, aquecida e confortável onde tudo parece cuidadosamente colocado e delicado, coroada por uma chávena de chá bem quente e uns scones e uma fatia de bolo caseiro? Ou a sensação de lareira acesa, fogo a crepitar mansinho e olhos brilhantes entretidos em palavras doces e momentos tranquilos? E ainda assim faltam-me as descrições. É isto mas é mais.  Por agora fiquemo-nos por uma fatia de bolo caseiro feito com ingredientes a sério e uma chávena de chá perfumado.

Bolo de coco e limão

Ingredientes
2 chávenas de farinha
2 chávenas de açúcar
1 colher de chá de fermento
200 ml de leite de coco
50 g de margarina ou manteiga
4 ovos
2 colheres de sopa de whisky (opcional)
¾ de chávena de coco ralado
Sumo de meio limão grande ou de um pequeno
Raspa de um limão grande

Preparação
Pré-aquecer o forno a 190º.
Numa caçarola pequena levar o leite de coco ao lume com o sumo de limão. Juntar a margarina e aquecer até a margarina derreter. Tirar do lume e deixar arrefecer até ficar morno.
Juntar raspa de um limão ao açúcar e mexer bem para libertar o aroma e o sabor. Bater os ovos com o açúcar cerca de três minutos em velocidade média/alta até ficar uma mistura fofa e esbranquiçada. Juntar o whisky, baixar a velocidade e adicionar a farinha com o fermento e o coco ralado, mexendo sempre mas sem bater. Juntar o leite de coco com o sumo de limão e a margarina, misturando apenas até estar tudo bem incorporado. Levar 55 a 60 minutos ao forno pré-aquecido. Verificar com um palito antes de retirar do forno. Deixar arrefecer cerca de 10 minutos e desenformar.

Gostei muito deste bolo. É despretensioso e simples e nenhum dos sabores se sobrepõe ao outro. Fica denso e húmido e repeti-lo-ei em dias de Outono, quando me apetecem momentos ‘cozy’ à volta de uma chávena de chá.



Aqui fica a minha participação na festa da Maria. Espero que ela goste e que os filhos, a quem dedica o seu blogue, também. Cozinhar é quase sempre um acto de amor. A Maria tem-no provado todos os dias. Bem-hajas.


Esta receita foi mais uma vez inspirada no livro Baking da Dorie Greenspan.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Bolo de ameixas com laivos de traição


Eram lindas de consistência bem firme e levavam tempo até à maturação óptima. Olhei-as várias vezes mas em momento algum lhes tinha vaticinado outro destino que não fosse ferrar-lhes o dente e ir saboreá-las com os pés na relva a ouvir o som do campo: chilreios vários e ranger de pinheiros e canas aqui mesmo ao lado. Este destino contudo havia de não ser cumprido. Era tão cedo naquele domingo que achei que o podia ainda ocupar com uma sobremesa para o almoço. Sem tempo para algo mais fresco que pudesse solidificar no frigorífico, optei pela receita que me tinha chamado os sentidos. Verifiquei tudo: ovos, açúcar, margarina, farinha, mas faltavam as ditas. Telefono Olha traz-me ameixas do supermercado, daquelas que gosto. ‘As que gosto’ são umas escuras por fora de polpa meio esverdeada, abrem-se ao meio, extrai-se facilmente o caroço e são de longe as minhas preferidas. Cruzei-me com elas pela primeira vez ainda em adolescente na minha viagem matricial a território teutónico e perdi-me de amores. Demorou algumas décadas até que começassem a aparecer por cá, mas foi com grande felicidade que as recebi.
Lancei-me à massa do bolo. E esperei. De ameixas nem rasto ou cheiro. Foi aí que as olhei, as ditas, amarelas e rotundas de sorriso saudável. Não há nada pior do que uma mulher enrascada, como tal, a substituição foi imediata e em vez das ameixas escuras, o bolo havia de ser coroado com metades sorridentes, piscando-me o olho como sois. Quando o bolo saiu do forno estava apetitoso, qual Pigmalião fiquei intimamente orgulhosa com mais este meu feito, até ter metido o dente nas ameixas e ter sentido o sabor ácido, tão ácido, com um teor mínimo de açúcar, mínimo além do aceitável. Traidoras!

Bolo de ameixas

Ingredientes
3 ovos
75 g de margarina
4 colheres de sopa de óleo alimentar (usei de girassol)
200g de açúcar amarelo
250 g de farinha
Raspa de limão (1 pequeno ou meio se for muito grande)
½ colher de sobremesa de bicarbonato de sódio.
Ameixas

Preparação
Pré-aquecer o forno a 180º. Barrar uma forma redonda e polvilhar com farinha.
Bater a margarina à temperatura ambiente até ficar cremosa mas não demasiado. Juntar o açúcar, bater três minutos. Juntar os ovos um a um e bater entre as adições. Adicionar a raspa de limão e o óleo e por fim a farinha sem bater muito. Deitar na forma e por cima dispor as ameixas cortadas ao meio com o interior para cima. Levar ao forno cerca de 45 minutos. Deixar arrefecer um pouco e desenformar. Virar outra vez o bolo para que fique com a fruta para cima.


Gostei imenso da massa, um misto entre bolo e massa areada de tarte. O bolo permite variações. No Inverno com raspa de laranja e uma pitada de canela e maçãs em vez das ameixas vai ser uma das experiências cá em casa. Para os mais ousados, uma bola de gelado de baunilha não deve ficar nada bem.

Esta receita foi uma adaptação do Dimply Plum Cake da Dorie Greenspan no seu  Baking.

domingo, 9 de setembro de 2012

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Bolo de pêssegos e o dia sem dieta


Quando se juntam numa mesma criatura o prazer da mesa, a tendência para acumular por várias partes do corpo tudo o que se ingere, sim, ela existe, não é mito e não me venham com os conselhos sobre como comer que a minha prática daria uma equivalência em qualquer curso de nutricionismo, o deleite da cozinha e, para rematar, a idade, o resultado é não raras vezes um conflito bélico onde numa só e desesperada pessoa os quatro andam à estalada. Quando fui às compras de manhã precavi-me e forneci-me de uns belos pêssegos aromáticos dos que largam o caroço e uma base de massa folhada. Apetecia-me um doce e meti na cabeça repetir a tarte tatin mas desta vez de pêssego. Antes da hora do almoço e enquanto preparava o dito continuou a apetecer-me muito uma sobremesa. Acontece que o meu grilo falante deu-me mais uma preleção sobre os assuntos do costume: a idade, as ancas imensas, o peso, blá blá blá. Resisti a tudo o que tinha trazido do supermercado. À hora do almoço voltei a lembrar-me de que não havia nada para rematar a refeição tranquila de Domingo, dia por excelência de preguiças várias. No fim do almoço, senti-lhe a falta, declarei alto e bom som que Domingo passaria a ser o ‘no diet day’ doravante e umas horas depois abalancei-me na cozinha e derrotei este malvado conflito sem saber quem derrotei afinal. Vencida, deitei mãos à obra. Por aquela hora já não me apetecia a tarte tatin e resolvi-me por uma invenção: em vez da folha de massa folhada, fiz um bolo, inspirada no opíparo bolo de bananas da minha mãe e que é o meu bolo de aniversário há uma década bem medida e derramei a massa sobre a mistura do caramelo e dos pêssegos. O resultado é o que se vê. Ficou muito bom, com o equilíbrio perfeito entre os vários sabores: o doce do caramelo e o ácido dos pêssegos rematado com a textura suave do bolo, no ponto exacto. Não devia ter experimentado, fiquei com vontade repetir. Xô, grilo falante! Vade retro, bicho malvado!

Bolo de pêssegos e caramelo

Ingredientes

Para o caramelo:
150 g de açucar
50 g de margarina

Para o bolo:
250 g de açúcar
200 g de farinha
150 g de margarina
5 ovos

Pêssegos a gosto
Vinho do Porto branco

Preparação
Começar por descascar os pêssegos e cortá-los em oitavos. Dispor numa frigideira de 28 cm com o açúcar e a margarina. Reservar. Entretanto preparar a massa do bolo: amolecer a margarina, juntar o açúcar e bater até ficar um creme. Adicionar os ovos um a um continuado a bater com a batedeira e, por fim, acrescentar a farinha. Reservar.
Levar a frigideira com os pêssegos ao lume e deixar o açúcar caramelizar. O processo é lento, contudo, a caramelização é rápida. Quando estiver caramelizado, borrifar com Vinho do Porto branco e retirar do lume. Deitar a massa do bolo por cima e levar ao forno pré-aquecido a 190º cerca de vinte minutos. Deixar arrefecer e servir. Esta é a técnica da tarte tatin mas desta vez apeteceu-me variar com massa de bolo. Podem usar-se outras frutas, maçãs, alperces, ananás ou banana, assim. mandem o gosto e a imaginação.


Depois de tanto tempo ausente, eis-me de volta.

sábado, 14 de abril de 2012

A vida na aldeia e um bolo de morangos



Dizem-me que a cidade me falta e que bastarão uns fumos poluentes logo ali na Calçada de Carriche para que se me libertem os humores e os meus dias se encham de sol. A cidade falta-me, é verdade. Falta-me muitas vezes. Faltam-me os lugares-comuns da luz de Lisboa e falta-me o bulício de cidade, pessoas que se cruzam de um lado para o outro, correrias e idiossincrasias várias. Não que me sinta citadina ou urbana mas as grandes urbes são como ímans onde sonho sempre regressar.
A vida na aldeia não é como a vida na cidade. A vida na aldeia é comandada pelos passos lânguidos de um tempo muito próprio, de uma outra dimensão, como se as horas tivessem uma medida de tempo oculta vagarosa, uma clepsidra feita de vagares que se alternam noite e dia, e se alongam entre conversas várias no meio do largo ou em plena rua indiferentes a carros ou quaisquer outros veículos. Na aldeia reinam as pessoas e os vagares.
Na aldeia não reinam só os vagares. Na aldeia reina a alma de gente que tem o negócio no sangue. Se puderem vender nunca ficarão parados, jamais calados perante as qualidades indiscutíveis dos seus bens e irredutíveis na arte de convencer a freguesia. Não há como eles. A arte está-lhes nos genes. Na aldeia não há isso de trabalho infantil, há a necessidade de dar um jeito quando os adultos se ausentam para um qualquer propósito, uma responsabilidade que se incute sem que daí venha mal ao mundo. Desde tenra idade é vê-los diligentes nas demasias e a destrocar dinheiro enquanto elogiam as batatas ou bendizem os morangos e perguntam se queremos ovos caseiros, na cidade diz que são biológicos.
Foi hoje pela fresca. Um almoço de família ditaria uma sobremesa para a qual me faltava fruta. Rumei à mercearia que agora se acomodou no largo da igreja mas desta feita quase de frente para a igreja e isto porque, suspeito, o tempo em que estiveram de costas para a igreja o negócio murchou como grelos ao sol. Seguiu-se um breve período em que a venda tinha lugar numa carrinha. Uma vez aberta desvendavam-se cores e aromas, formas rotundas e longilíneas de legumes e frutos diversificados. Uma festa para os sentidos. Ainda estou para perceber porque aquele poema do Cesário Verde nunca me convenceu.
Estava lá o João. Tem uns nove anos, quem sabe, uns olhos azuis acinzentados encantadores e a ginga do negócio no corpo. Estava a jogar um jogo no computador literalmente virado de cangalhas, a noventa graus e com o ecrã apoiado em cima duns caixotes, enquanto atendia uma anciã insatisfeita com a cor tão desmaiada do açúcar amarelo. Os meus olhos saltaram para uns abacates bem rotundos, um regalo para os olhos, e quando murmurei algo sobre os ditos, o João saiu da caixa e ensinou-me, pegando num abacate Quer ver, disse, aproximando-o de mim, Se se ouvir o caroço lá dentro está maduro e pegando num outro exemplificou abanando-o levemente Está a ouvir? Sim, estava.
Comprei morangos para o bolo do almoço de família, não havia ameixas e as nêsperas não me convenceram. Voltei vagarosa. Perscrutei os patos e galinhas da vizinha a caminho de casa, a exuberância dos limoeiros e fui cumprimentada pela fragrância da glicínia à entrada do jardim.
Há dias em que tenho saudades da cidade. Hoje não foi um deles. 


Bolo (desta vez ) de morangos 

Ingredientes
4 ovos
200g de farinha
200g de açúcar
200g de margarina
morangos ou outra fruta a gosto

Preparação
Untar uma forma de pirex baixa e pré-aquecer o forno a 190º. Bater a margarina com o açúcar. Juntar os ovos um a um e adicionar por fim a farinha continuando a bater mas em velocidade média. Deitar na forma e espalhar os morangos. Levar ao forno cerca de 20 minutos. 
Este bolo que fica quase uma tarte presta-se a muitas variações de acordo com a fruta que for adicionada. Já experimentei com framboesas, mistura de frutos silvestres congelada, pêssegos e maçã envolvida em açúcar e canela. Se se quiser fazer um bolo maior é só acrescentar 50 gramas de cada ingrediente por cada ovo a mais. Muito fácil de confeccionar não me tem desiludido. Hoje também não correu mal.


sexta-feira, 6 de abril de 2012

Em nome do Pai


A Páscoa é ter três ou quatro anos, um vestido azul-turquesa de fazenda vestido que me picava, era capaz de jurar que tinha a saia pregueada, e estar às cavalitas de um amigo dos meus pais. A Páscoa é tremer de medo com a procissão dos farricocos em Braga nesse mesmo dia do vestido azul-turquesa que me picava mas me aterrorizava menos que aquelas figuras tétricas sem rosto a fazer barulho cidade fora. A Páscoa era não haver politicamente correcto e poupar a criança do vestido azul-turquesa de fazenda àquele susto. A Páscoa é Beira-alta. A Páscoa é Tibaldinho e a festa da aldeia, o povo engalanado nas suas melhores farpelas. A Páscoa é esperar. A Páscoa é esperar pacientemente sem meter dedo ou dente perante uma mesa cheia de doces, bolos, folares pela hora do almoço, controlar o ímpeto de criança, obedecer aos meus pais e portar-me bem lá nessa casa dos doces, bolos e folares e dinheiro por baixo de uma laranja na mesa. A Páscoa é esse sacrifício. A Páscoa é o padre chegar e trazer uma imagem e dar-nos a beijá-la. Diz que era Cristo menino mas nunca entendi porque se havia de não comer bolos, haver dinheiro em cima da mesa e beijar uma imagem naquele tempo. A Páscoa é a procissão do enterro do Senhor pelas ruas de Viseu. A Páscoa é ter muitas dúvidas que dos mortos nunca ninguém voltou e não me consta que Jesus Cristo apreciasse tanto fausto, tanta celebração, alguma ostentação. A Páscoa é estar num qualquer sítio do mundo e pensar Olha, hoje é Domingo de Páscoa. A Páscoa é a esperança de dias longos, dias novos. A Páscoa é leite-creme queimado com a pá de ferro que vai passando de geração em geração. A Páscoa é e será sempre pão-de-ló com queijo da Serra. A Páscoa será sempre o pão-de-ló que fiz, que se fazia para o meu pai. A Páscoa é ele sorrir-me com os olhos amendoados e dizer-me Está uma maravilha, filhota. A Páscoa é comer o pão-de-ló em sua homenagem. Hoje e sempre.

Ingredientes
250 g de açúcar
125 g de farinha
8 gemas
4 ovos inteiros

Preparação
Forrar uma forma com um buraco no meio com papel vegetal. Pré-aquecer o forno a 190 º. Bater os ovos com o açúcar até ficar uma mistura fofa e aveludada cerca de oito minutos. Juntar a farinha e bater mais dois minutos. É muito importante que a massa fiquei bem batida para ficar leve. Deitar com cuidado na forma e levar ao forno com uma folha de papel vegetal por cima cerca de 45 minutos. O tempo de cozedura vai determinar se o pão-de-ló fica mais ou menos húmido, é uma questão de gosto. Não fica particularmente bonito mas é a receita que me foi dada por uma amiga dos meus pais, curiosamente presente naquele episódio matricial da Páscoa em Braga. Nunca me falhou até hoje. Ela também não.


sábado, 14 de janeiro de 2012

Intenso e apaixonado


Além da Mariana que me incluiu neste grupo, houve algo que me fez aderir de coração aberto. Lê-se assim nas regras do grupo “As receitas podem sofrer todas as alterações que o cozinheiro quiser. E encoraja-se a partilha dos casos de sucesso e de fracasso.” Cozinhar para mim é quase sempre transgredir, experimentar, e dar um cunho pessoal. Não que tenha em mim o heroísmo presunçoso de que eu vou além dos demais e erguer-me acima deles. Nada disso. Odeio, de resto, gente que profere que vai fazer a diferença seja em que área da vida for. Na minha, por exemplo, quando alguém se autoproclama agente de mudança é razão suficiente para que eu fique de pé atrás, soube-se-me a desconfiança que herdei de há tanto viver na região saloia e algo me retrai. A diferença faz-se, não se anuncia, é um caminho que se trilha e para mim os caminhos servem sempre propósitos de serviço ao próximo não de autopromoção. E isto tudo para dizer que não gosto de mudar para ser diferente, gosto de mudar porque gosto de alguma mudança, na vida também, e nas receitas a mudança é inevitável. Convenço-me que agriolhado a este corpo de mulher madura vive uma adolescente com a mania de contrariar e de transgredir. Na cozinha nota-se muito. Eu noto e eu sei.
A ideia era fazer este bolo de chocolate com ameixas e Armagnac. Armagnac não tinha e ameixas não são muito apreciadas por todos, portanto depois de dar voltas à cabeça e de o bolo ter assumido várias possibilidades como substituir as ameixas por tâmaras aos pedacinhos que era o que tinha cá em casa e em vez do Armagnac usar outra coisa ou pôr nozes e whisky, decidi-me por sabores que gosto muito de combinar: chocolate e laranja.
Levei-o há pouco para um almoço de família e esperei o veredicto. Ficou intenso e apaixonado, exactamente como gosto. Aconselhável a espíritos aventureiros e almas ousadas. O chocolate casa na perfeição com a laranja, a intuição não me falhou. Muito bom e recomenda-se, disseram-me, enquanto o bolo ia diminuído no prato entre risadas e conversa animada. A minha mesa é a minha comunhão. Às vezes acho que se me faltar a voz para declarar amores terei sempre a cozinha. Cada um fala como sabe e nem sempre me ocorrem e acorrem as palavras. Venha a próxima receita.


Bolo de chocolate com whisky e laranja

100g de chocolate culinário +100g de chocolate negro com laranja
150g de açúcar
100g de farinha
120g de manteiga
60ml de whisky
4 ovos

Deixei derreter os chocolates com a manteiga, enquanto fui metendo discretamente o nariz para sentir o aroma da laranja. Seria demasiado forte? Bati as gemas com o açúcar até ficar um creme branco e fofo. Depois há que envolver os chocolates na mistura de ovos e açúcar, com calma e sem pressas. A seguir a farinha e logo após o whisky. Bati então as claras em castelo e envolvi cuidadosamente na massa anterior com uma espátula de slicone. Levar ao forno pré-aquecido a 190º durante vinte e seis minutos.  Para a cobertura derreti 100 gr de chocolate com três colheres de sopa de açúcar e um pedacito de manteiga. Juntei depois meio pacote de natas light e derrubei com enlevo sobre o bolo. Tão fácil a vida numa manhã soalheira de Janeiro.