terça-feira, 1 de abril de 2014

Pontos cardeais numa sericaia com ameixas de Elvas

Descobri que era do Sul quando me apaixonei pela luz de Lisboa, luz como não há outra e li nas palavras de José Cardoso Pires um bálsamo para a alma, o conforto para estados de alma sombrios não compatíveis com o fulgor da cidade branca.
Descobri que era do Norte quando me senti bem-vinda sem provas ou provações, apenas a porta escancarada, uma extensão evidente da alma calorosa que só a Norte se deixa sentir.
Descobri que era do Sul quando me arremessaram Vocês lá de Lisboa.
Descobri que era do Norte quando a minha mãe me pediu um testo, afirmou que o gato manquejava, usa cruzetas e cozinha em sertãs.
Descobri que era do Sul quando na esplanada da Graça vi a cidade estender-se para o Tejo como um tapete debruado e me senti de Lisboa como de mais lado nenhum.
Descobri que era do Norte quando me faltaram os dióspiros e os míscaros envoltos na frontalidade dos falares nortenhos.
Descobri que era do Sul quando li num guia de viagem sobre Portugal o preconceito escarrapachado em alemão como se de lei se tratasse Braga reza, o Porto trabalha e Lisboa diverte-se
Descobri que era do Norte quando as portas a Sul se me fecharam e os olhares de soslaio se me cravaram nas costas que nem flechas de bisonhice.
Descobri que era do Sul quando chego a Portugal em dia de sol brilhante e vejo Lisboa a meus pés como nenhuma outra e o coração me cutuca na alma Cheguei.
Descobri que era do Norte quando senti as portas semicerradas, uma frecha apenas, da qual se vislumbram olhos desconfiados, da alma nem sinal.
Descobri que era do Sul quando as palavras que ouço em surdina me trazem o escritor de volta Logo a abrir apareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade de navegar.
Descobri que era do Norte quando se me solta o vernáculo em momentos de fúria e intempestividade e mais não significa do que o alívio incomensurável da carga pesada dos sentimentos nefastos.
Descobri que era do Sul quando abri a porta do carro em pleno Alentejo e sou abraçada por um calor perfumado, um aroma inebriante, uma felicidade efémera e intensa.
Descobri que era do Norte quando filho da puta surge apenas o praguejar furioso não uma ofensa à progenitora do visado.
Descobri que era do Sul quando me questionaram E vocês, lá em Lisboa, o que é fazem no Natal?
Descobri que era do Norte quando me assola a nostalgia da Páscoa, a saudade do Pão-de-Ló com queijo da Serra, os desejos de leite-creme queimado com a pá de ferro fundido aquecido em fogão de lenha, aromas que a memória agarra à alma com a recordação doce dos afectos. 
Descobri que era do Sul quando descobri que era do Norte quando descobri que era do Sul.

E como sou de muitos lados escolhi uma das minhas sobremesas preferidas do Alentejo para participar no Dia Um... Na cozinha, nesta edição dedicada à doçaria regional. Sou do Sul também, sou muitas vezes de Sul.

Sericaia

Ingredientes
6 dl de leite
1 pau de canela
Casca de limão
7 ovos
275g de açúcar
75g de farinha
Canela em pó para polvilhar
1 pitada de sal grosso


Preparação
Pré-aquecer o forno a 200º. Colocar o prato redondo de barro no forno para ir aquecendo à medida que o forno aquece.
Ferver o leite com o pau de canela e a casca de limão. Retirar do lume e deixar que fique morno.
Bater as gemas com o açúcar até ficar um creme fofo e esbranquiçado.
Dissolver a farinha no leite morno, com uma vara de arames. Envolver o preparado dos ovos e açúcar e levar ao lume mexendo sempre até que engrosse e se forme um creme liso e homogéneo. Deixar amornar.
Bater as claras em castelo firme e incorporar no creme, envolvendo, de cima para baixo, com cuidado. Não mexer. A massa deve ficar leve. Retirar o prato do forno e untar levemente com margarina. Pode usar-se um pincel com um pouco de margarina. Uma vez que o prato está quente, a margarina dissolver-se-á rapidamente. Dispor a massa às colheradas desencontradas no prato, polvilhar abundantemente com canela e levar ao forno pré-aquecido durante cerca de 35 minutos.
Deixar arrefecer e servir com ameixas de Elvas.


Nunca tinha feito sericaia, embora seja das minhas sobremesas preferidas do meu querido e delicioso Alentejo. Requer calma e precisão. Esta receita deu uma sericaia enorme. Para uma menos exuberante aconselha-se meia receita. Mais um desafio superado. 






48 comentários:

Masterchef de Algibeira disse...

Hummmm que bom aspecto.... Este desafio deste mês vai-me matar de tanto babar... :))))))
Bjs

São Ribeiro disse...

Fiz apenas uma vez e gostei muito,
A tua ficou tão tentadora que quase babo o teclado...
BJ

Paula Vieira disse...

Nunca fiz, tenho de arranjar um prato de barro grande, para experimentar essa delicia.

Uma deliciosa fatia, gostei.

Beijinho
Paula

Tertúlia da Susy disse...

Que maravilha, eu e o meu marido gostamos muito.
Bjs

Coisas e Coisinhas disse...

Parece incrível mas acho que nunca provei sericaia...mas depois de ver estas fotografias deliciosas, fiquei cheia de vontade de o fazer ;)
Beijinhos
Vânia

Joana disse...

E que linda sericaia!
Ficou com um aspecto fantástico!
Comi uma vez e adorei embora nunca tenha feito!
Um beijinho

cook simple disse...

Já tenho feito algumas vezes e posso dizer que esta ficou com um ar delicioso. Adoro e com a ameixa então...
Beijinhos, Paula
http://cookit-simple.blogspot.pt

Isabel Patrício disse...

Leonor, eu vivo na beira alta mas adoro todos os doces alentejanos e sericaia é um docinhho delicioso que como sem culpa dando largas à minha gula :) adorei a tua participação.
Aquela fatia está a chamar por mim :)
Bjns
Isabel

Leonor disse...

Este desafio vai-nos matar às duas :) Tantas receitas tão deliciosas. Vou engordar só de olhar.
Beijinhos e obrigada pela visita.

Leonor disse...

Estava com pressa quando fiz a sericaia, porque já comecei tarde, São, e para arrefecer o creme fui batendo sempre com a vara de arames. Acho que ficou mais fofa por causa disso.
Obrigada :)

Leonor disse...

Olá Paula,
Eu agora vou ter de arranjar um prato mais pequeno ;) Esta ficou tipo roda, enorme. Para a próxima faço só meia receita.
Beijinhos

Leonor disse...

É tão bom, não é Susy?
Beijinho

Leonor disse...

Tens de provar, Vânia :) Não é difícil e é uma delícia.
Beijinhos

Leonor disse...

Obrigada, Joana :)
Beijinhos

Leonor disse...

A ameixa é fundamental, Paula :) Como já disse no grupo, tive de ir à cidade para comprar as ameixas, aqui na província não encontrei.
Beijinhos

Leonor disse...

Olá Isabel,
Eu sou beirã de genes mas, como digo no texto, um bocadinho de outros sítios :) Adoro o Alentejo e a gastronomia alentejana.
A fatia é tua, querida :)
Beijinhos

Comida de conforto disse...

Testo maravilhoso, Leonor! faço minhas as tuas palavras, também eu me descubro sucessivamente do Norte e do Sul,quando o Norte me abraça e o sul me aquece, e as origens me chamam e as terras que adopto como minhas me disputam e,e...
E maravilhosa sericá esta! Duma região riquissima em doçaria, a minha favorita! Adoro, com ou sem ameixa de Elvas. Aceito de bom grado um raio desse sol!
Beijinhos

Leonor disse...

Oh, muito obrigada :) Sinto-me um bocadinho de cada lado. Também adoro as sobremesas e o resto da comida do Alentejo, um belo cação de coentrada ou uns pezinhos. Que maravilha.
Senta-te à minha mesa, não é preciso convite, és sempre bem-vinda :)
Beijinhos

Gori disse...

Adorei o teu texto, deixou-me com um sorriso na cara, particularmente nas partes referentes ao Norte :)
É que apesar de estar casada com um lisboeta, a alma dele é tão nortenha quanto a minha, pelo que o meu ponto cardeal que me indica casa será sempre para Norte!
Mas confesso que é uma paixão vaguear por todos os outros pontos cardeais, principalmente no que toca ao nosso país, que é lindo de uma ponta à outra.
Adorei conhecer a sericaia, que infelizmente nunca tive o prazer de provar, mas que me deu vontade de voltar a visitar o Alentejo, para corrigir essa falha em primeira mão!
Beijinhos

Célio Cruz | Sweet Gula disse...

Olá Leonor!
Adorei este teu post. O texto está magnífico, assim como foi muito bem escolhido o doce que nos apresentas neste dia 1. Eu adoro e não consigo resistir à Sericaia, é o meu doce alentejano preferido. ADORO, ADORO, ADORO! Chego a ir de propósito almoçar a um restaurante aqui perto, cuja cozinheira é alentejana e faz uma sericaia daquelas! Assim como a tua, de cortar a respiração e deixar qualquer comum mortal a salivar! Parabéns pela tua participação. ;)
Beijinho.

Belocas disse...

É uma verdadeira delícia.
Também pensei em fazer a sericaia.
Gostei do texto, e entre o Norte e o Sul, somos um País cheio de deliciosas iguarias regionais.
Quase irresistíveis ....
Bjs

Isabel Patrício disse...

Leonor, esqueci-me de dizer que como sempre adorei ler-te
É sempre um prazer visitar-te
Também me sinto assim, um pouco de todo o lado :)
parabéns mais uma vez e obrigada pela tua presença no desfile
Bjns
Isabel

sandra neiva disse...

Olá Leonor,

que texto fantástico, pois eu por mais volta que dê sem dúvida que sou do Norte, e do Norte bem minhoto daqueles locais em que conhecemos toda a gente, em que ainda é possivel pedir ao vizinho um litro de leite, este é o meu Norte.
Comi uma vez este doce tão bom mas nunca fiz embora tenha umas tigelas de barro alentejanas que seriam perfeitas, vou experimentar.
Ficou fantástica e se existe doces que eu gosto são os nossos.

beijinhos

Diana Cova de Almeida disse...

Está linda! E sei que está igualmente deliciosa ;) Parabéns e obrigada pela partilha :) beijinho

Cozinha Caseira disse...

Uma sugestão deliciosa para este dia 1.... Adorei!
Bjs
http://pratocaseiro.blogspot.pt/

Mª João - Ponto de Rebuçado Receitas disse...

Adorei ler o teu texto (gosto sempre de te ler, na verdade), também me sinto um pouco assim, de todos os pontos cardeais! E a sericaia está uma perdição...
Beijinhos!

Margarida Abreu disse...

Ola Leonor...

Antes de mais deixa me dizer te que fiquei perdida no teu texto... adorei simplesmente! E depois perdi me segunda vez na tua sericaia doce que nunca comi mas que vou ter de experimentar pelo excelente aspeto que apresenta so pode ser uma delicia!

Beijocas

Margarida

Rosa Santos disse...

Olá Leonor!
Perfeito e genuíno, o texto a a iguaria Alentejana. As fatias da Sericaia estão convidativas e eu não me faço de rogada, posso?
Beijinhos

Brisa Maritima disse...

Querida,

Vais formosa e segura trilhando Portugal de Norte a Sul… :)

Sou do Sul, dessa Lisboa que veneras e que me corre nas veias, Senhora Quinhentista de colinas sete e caminhos que percorro de olhos fechados enquanto escuto falares típicos e bairristas…
Rasgo sempre um sorriso ao percorrer calçadas ou quando apanho o velhinho 28 enquanto escuto quem melhor descreve a cidade: Carlos do Carmo !
As ruelas em silêncio onde espreita a cusquice da vizinhas que quase se cheiram quando abrem as janelas a um metro de distância no outro lado da rua.
O Tejo prateado em tardes soalheiras quando o Sol se põe impede-me a todo o momento de que me esqueça que sou do Sul, sou Alfacinha !
Mas não de gema !

Pois que também sou do Norte, onde Mãe e Pai se cruzaram um dia, onde todas as palavras que nos ensinaram ser “Asneiras” nada representam que não apenas
um reforço de uma postura ou situação, onde olhares são genuínos e palavras são sinceras.
Sou do Norte, onde nunca as portas se fecham, onde a chave está na fechadura sem medos, onde caminhar de madrugada é um prazer e não um receio… mais outrora do que agora, “it’s true” !
O Norte que sempre me impregna com a sua pronúncia quando visito a Mãe, o Norte que me traz cheiros, sentimentos distantes de tempos felizes, de namoros que
se ficaram por isso mesmo, de uma infância feliz que recordo com saudade.

Sou do Sul, sim sou de Lisboa, mas o Alentejo, o Algarve, a Madeira também me cantam na alma com os seus sabores, as suas cores, as suas gentes, os seus costumes…
Falta-me, imagina, os Açores que ainda não visitei !

Sou de Portugal !
E assim sendo, obviamente que ADOREI a tua Sericaia, senhora belíssima ostentando cores lindas e provocadoras.
Fartou-se de me piscar o olho no desfile, de soslaio para não se comprometer, mas comprometida já ela estava com todos quantos a puderam contemplar.

Leonor, minha querida, é um prazer enorme ter-te connosco em cada edição !
Foi um prazer ler-te, como sempre o é, como sei que sempre o será !

Um beijinho grande *

Susana Figueiredo disse...

Leonor, tenho que ser sincera: não gosto de Sericaia. Tem tudo para eu gostar, mas não gosto. Não consigo explicar... como é possível não gostar de um doce tão bonito, sempre tão bem apresentado? Enfim. Em aspecto, o teu está maravilhoso. Como sempre, claro. Mas na verdade, o que eu gostei mesmo foi do texto. Um grande beijo!

Sílvia Martins disse...

Que texto bonito e tão bem escrito!
Que dizer da tua sericaia? Linda e certamente muito saborosa!
Fiquei com saudades...de me deliciar com uma generosa fatia...
Beijinhos

Sílvia
http://bocadinhosdeacucar.blogspot.pt/

Leonor disse...

Olá Gori :) Os meus pontos cardeais vão variando. Se me perguntarem de repente sou de Sul, de calor, do aroma do mato quando se abre a porta do carro em pleno Alentejo. Se pensar sou do cheiro do madeiro de Natal, o cheiro de lenha queimada pelo ar e do Norte. E depois de feitio e educação sou mais de Norte. Acresce que Norte para mim é acima de Coimbra ;) Os meus pais são de Viseu e esse é o meu Norte.
A sericaia é um dos meus doces preferidos.
Beijinhos e obrigada pela visita.

Leonor disse...

Olá Célio, muito orbigada :) escrevi este texto para um site onde escrevia semanalmente crónicas. Fui desencantá-lo e dei-lhe uns retoques porque tem tudo a ver com a dificuldade em escolher uma sobremesa.
Esta sericaia correu-me mesmo bem, mas enorme e, como tu, gosto mesmo muito. O problema agora foi descobrir que a sei fazer. Perdição!
Beijinhos

Leonor disse...

É verdade, Belocas, como vimos no desfile de sobremesas, variedade não falta ;)
Beijinhos

Leonor disse...

Muito obrigada, Isabel, obrigada por teres regressado :) É bom ser-se um bocadinho de todo o lado, é mais fácil adaptarmo-nos e apreciar a diferença.
Beijinhos

Leonor disse...

Olá Sandra :)
Sinto uma grande afinidade com o Norte mas adoro o Sul também :)
Os nossos doces são mesmo uma delícia.
Beijinhos e obrigada

Leonor disse...

Olá Diana :)
Que pena não ter cá estado. Fica para a próxima ;)
Muitos beijinhos

Leonor disse...

Muito obrigada :)

Leonor disse...

Muito obrigada, Maria João :) Gosto de fazer as duas coisas, escrever e cozinhar.
Beijinhos

Leonor disse...

Olá Margarida,
Muito obrigada :) Fico contente por ter contribuído para essa 'perdição'. Tens de provar sericaia mas com as ameixas.
Beijinhos

Leonor disse...

Que lindo texto, Isabel! Pega nele e publica-o no teu blogue, é uma pena ficar aqui escondido, embora me sinta muito honrada :)
Somos de vários sítios e temos muitos dentro de nós. Esta diversidade, como digo em cima, dá-nos alguma flexibilidade mas, para quem foi educado com beirões, a vida na região saloia não é fácil.
Gosto muito de fazer parte do grupo, do óptimo ambiente entre todos nós e da vossa simpatia e carinho como anfitriãs. Já estou à espera do dia 15.
Muitos beijinhos, minha querida.

Leonor disse...

Obrigada, Rosa, ainda bem que não te fazes rogada, é assim mesmo que eu gosto e esta casa é de todos nós :)
Beijinhos

Leonor disse...

Olá Susana,
E ainda bem que é assim. Se gostássemos todos do mesmo era uma grande monotonia :)
Beijinhos e obrigada pela visita.

Leonor disse...

Olá Sílvia :)
Obrigada, queres uma fatia para matares saudades?
Beijinhos

Blog do Chocolate disse...

Talvez siga a tua sugestão um dia quando publicar sobre Lisboa, ou talvez o deixe mesmo aqui, só para ti, já que foi para ti que o escrevi ! :)

Um beijinho

Leonor disse...

Muito obrigada, fico muito orgulhosa :) mas acho que o deves pôr a respirar :)
Beijoca

Raquel Raminhos disse...

Gosto muito de sericaia. Faço uma receita grande como essa e desaparece num instante, e se for com ameixa de Elvas então... Que delícia :) Beijinhos!

Raquel
http://amor-as-camadas.blogspot.pt

Leonor disse...

Olá Raquel,
Esta ficou mesmo grande. Partilhei com os meus adorados vizinhos mas como somos pouquinhos ainda demorou a desaparecer. As ameixas são um pecado, em todos os aspectos ;)
Beijinhos e obrigada pela visita