domingo, 23 de junho de 2013

Ode aos vizinhos nuns meltaways de lima-limão

No dealbar da primeira década do milénio a minha vida havia de sofrer uma transformação profunda. Nessa transformação esteve presente muita gente, gente que continua a povoar a minha vida e faz dela o bálsamo e o elixir que faz tudo valer a pena, gente que está ausente fisicamente e cuja falta me dói todos os dias, gente que anda por aí mas que deixou de ter importância e uma espécie de seres curiosos e caricatos. Ela fazia parte destes últimos.
Era rotunda, usava bata em dias de fazer, como dizia a minha avó, tinha pilosidades que fariam inveja à Frida Kahlo, mas que aparava no cabeleireiro da aldeia, e o rosto marcado por um sobrolho desconfiado, benza Deus, desconfiado e opaco por onde não passaria quem faz dos dias leveza e, muito importante, quem não lhe prestasse vassalagem, a espinha curva e sorriso obediente, calhando, a cauda a abanar. Sem qualquer ponta de heroísmo, eu havia de ser uma dessas criaturas e a relação que travámos tensa e sem qualquer salamaleque da minha parte. Perguntar-se-ão porque tinha eu de suportar uma espécie daquelas. Acontece que a simpaticamente epitetada cusca era dona da casa que habitei durante um ano bem medido e, assim sendo, não tinha como fugir-lhe. Quando um dia as paredes da sua mansão emareleceram por causa da mistura explosiva de humidade e fumo da lareira, a criatura espalhou pelo mundo que havíamos grelhado chouriços na lareira. No dia em que a vi matreira bater à minha porta, esfreguei-lhe no fácies desconfiado o boato chouriceiro e ainda lhe arrematei certeira e furiosa mas estamos na Idade Média para fazer fogueiras no meio da sala? O curioso ser encheu-se de fervores ofendidos. Quem ousaria viver na sua casa, e, pasme-se, confrontá-la com a sua própria maledicência? Um dia tudo acabaria e quando fechei a porta da mansão húmida e ventosa e o meu consorte lhe estendeu as chaves, fosse eu ter-lhas-ia esfregado no semblante tisnado, terá sido um momento a recordar.
Na minha nova vida, com a cusca para trás das costas e uma casa a que chamasse minha e onde pudesse assar até cabritos na lareira, ficou desde muito cedo bem claro que a rua a que chamo de minha, minha do coração, era povoada por gente boa. Dei-me conta disso, num dia de invernia em que, depois duma chuvada, todos os vizinhos se uniram para limpar a rua, havia saibro por aí que precisava de ser removido. Os dias que se seguiram, e já lá vai uma década, foram e são dias de boa vizinhança, uma verdadeira bênção. Há bons dias e boas tardes, conversas a que se vão juntando mais vizinhos na acalmia da tarde, há os animais de cada um que são de todos, há copos que se bebem, há entreajuda e solidariedade, há preocupação, há carinho. Ontem, ao sair de casa, tínhamos um saco de enormes e belos limões, um presente dos “senhores do treze”, assim os chamo em conversa com a minha mãe para os distinguir dos outros. Hoje pela tarde calma que a escola finalmente me permitiu ter abalancei-me nestes biscoitos de lima-limão aí em baixo para partilhar com os meus adorados vizinhos. Há lá coisa melhor?

Meltaways de lima-limão

Ingredientes
175 g de margarina
1 medida de açúcar de confeiteiro (250 ml)
1 ovo pequeno
Raspa de uma lima
Raspa de um limão pequeno
Sumo de uma lima
Sumo de meio limão
2 medidas de farinha com fermento
2 colheres de sopa de amido de milho
¼ de colher de chá de sal grosso

Preparação

Misturar a farinha, o amido de milho e o sal num recipiente. Bater a margarina à temperatura ambiente com o açúcar até ficar um creme fofo. Juntar a raspa e sumo da lima e do limão. Adicionar o ovo e bater. Incorporar a mistura das farinhas e do sal. Bater apenas o suficiente para que fique uma massa homogénea. Em papel vegetal formar dois troncos de massa. Levar ao frigorífico umas duas horas ou ao congelador. Findo esse tempo, pré-aquecer o forno a 180º. Retirar os troncos de massa e com uma faca cortar em fatias. Como não gosto do aspecto tão aparado, passei um garfo para ficar com marcas em quadrícula. Levar ao forno uns vinte minutos. Retirar, deixar arrefecer um pouco e envolver com açúcar de confeiteiro. Para ficar mais uniforme, deitei o açúcar num saco de refrigeração e pus lá dentro os biscoitos envolvendo tudo com cuidado.



Receita inspirada nesta.


8 comentários:

Maria disse...

Minha querida amiga assadora de chouriços no meio da sala, já tinha mesmo saudades de te ler. Que belo presente para a noite de domingo.
Gostei, gostei, gostei! Dos biscoitos também, pois claro.
Beijinho
Maria

Leonor disse...

Imagina só, Maria, eu a assar chouriços na lareira. O raio da mulher :)
Obrigada. Os biscoitos são uma maravilha.
Muitos beijinhos

Filipa Dourado Ribeiro disse...

Amiga isso não se faz. Sinsceramente assar chouriços na lareira da sala :P
Realmente ha vizinhos muito bons. Eu aind atenho essa sorte e eu propria sou uma dessas vizinhas. Adoro partilhar e conviver.
Enato aqui que moro na casa que foi dos meus pais e ja aqui habito desde que nasci. Ainda tenho vizinhos que me viram crescer. É tão bom :)
Ah e adorei os biscoitos :D
Mas adorei vir aqui e como a Maria ja tinha saudades de te ler :*
Um bjo muito doce e uma boa semana

São Ribeiro disse...

Uns biscoitos e com sabores citricos gradam-me
bjs

Leonor disse...

É verdade, Filipa, queres a receita dos chouriços? :P
O que é diferente nestes biscoitos é a textura. São muito macios, desfazem-se mesmo.
Beijinhos e boa semana também :)

Leonor disse...

Também devem ficar bem com laranja, São.
Beijinhos

nobady's listen disse...

saudades te ler estes posts ... e estes bolinhos?? nhamyyyyy :)

Leonor disse...

Está quase :)
Obrigada