quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

A noite e o insubstituível bacalhau

Eu gosto da noite. Sou noctívaga desde a barriga da minha mãe e se pudesse deitar-me-ia tarde todas as noites, a noite não me dá sonos calmos, dormiria até às dez e faria a vidinha depois. Mas não é assim.
Gosto da noite porque tudo apazigua. A primeira vez que fui a África cheguei à noite. Brindou-me o aroma inebriante e o calor húmido que adoro mal pus pé fora da porta daquele avião gélido que me transportara até aquelas paragens equatoriais. E esperava-me uma noite de breu que como um véu cobria e encobria a realidade lá fora.
Era noite quando entrei em Havana pela segunda vez. Noite quente de Junho e a Praça da Revolução pareceu-me o mais impressionante local, iluminado e apaziguado pela noite. Não é verdade mas a noite assim a tornou.
É à noite que mais gosto do Palácio à sombra do qual cresci. É maior, mais belo, imponente. Tudo por causa da noite.
Conheci o homem com quem trilho caminhos à noite. Era uma noite gélida de Novembro húmido como só Mafra conhece e com ele fiquei até hoje. Noite abençoada.
Há noites, como dias, em que as ementas são fixas cumprindo rituais ancestrais de hábitos culturais e religiosos. E há noites em que podemos dar a volta à ementa, vesti-la de gala para a ocasião, perfumá-la e polvilhá-la com outros aromas. 
O único problema da noite é quando se tem uma modesta máquina fotográfica, a ceia é aguardada com expectativa e as fotografias não saem como eu gostaria. Há sombras. Há o brilho dos pratos. Há a falta de luz que é fundamental para quem anda nestas lides, muito modestas as minhas, de fotografar comida. Aqui ficam as possíveis mas posso garantir que o sabor é muito mais intenso do que estas modestas fotografias. Às vezes a noite trai-nos.
Quando o Dia Um… Na Cozinha lançou o desafio deste mês com iguarias de Natal a escolha foi-me muito difícil, as possibilidades, embora imensas, acabavam por recair sempre nos mesmos doces. Decidi-me pelo fiel amigo. Depois de ter experimentado várias opções para a Ceia de Natal sem que nenhuma fosse o tradicional cozido com batatas, nada por que se morra de amores aqui por casa, este ano optámos por uma receita de confecção mais rápida e de sabores mais arrojados. Se havia 1001 maneiras de o preparar agora passa a haver mil e duas.

Lombo de bacalhau embrulhado em prosciutto com redução de vinho branco e coentros

Ingredientes
Lombos de bacalhau Usei congelados)
Presunto (usei Prosciutto por ser mais suave)
Sal e pimenta
Alho
Azeite

Para a redução:
Vinho branco
Coentros frescos a gosto

Preparação
Descongelar os lombos de bacalhau. Cortar ao meio pela espinha. Retirar a pele e as espinhas. Aquecer azeite com dois dentes de alho picados. Pincelar os lombos com o azeite e alho, deitar pimenta preta acabada de moer e reservar por umas horas.

Embrulhar os lombos de bacalhau nas fatias de presunto. Numa frigideira com um fio de azeite selar o bacalhau embrulhado no presunto. Baixar o lume e ir virando o bacalhau com uma pinça. Quanto ao tempo, usei a intuição, uso-a muito, e assim que vi que o bacalhau estava quase pronto transferi-o para uma travessa quente e levei ao forno pré-aquecido a uns 150º com uma folha de alumínio por cima. Entretanto, preparar a redução. Na frigideira onde se selou o bacalhau, adicionar vinho branco, usei Verdelho, quando o molho tiver reduzido, juntar os coentros cortados. Retirar o bacalhau do forno, regar com a redução e servir. Foi acompanhado com batatas salteadas avinagradas. Dispensámos as couves e nem os bróculos resolveram aparecer.  

Aqui fica mais uma participação no grupo Dia Um... Na Cozinha, um grupo ao qual gosto muito de pertencer e a quem desejo um 2014 bem opíparo. 


Desejo a todos um excelente 2014. Que seja sempre melhor do que o que esperamos. Que na noite haja aromas perfumados e luzes que nos iluminem o caminho.

Nota: mudei a foto e pus esta que de repente me apareceu no Google+ com estes efeitos sem eu saber como. Que a magia do Natal se mantenha ao longo dos outros dias do ano.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Várias maneiras de escrever um post num Hotpot de vinho tinto e cogumelos

Há sempre muitas maneiras de escrever um post, não só aqui nesta espécie de diário espaçado das minhas aventuras na cozinha mas em qualquer tipo de blogues. Desta feita não me conseguindo decidir por uma única, há sempre várias perspectivas sobre um mesmo acontecimento ou facto, conto-vos todas as que me levaram a experimentar esta receita:
  •  Recebi de presente de Natal dois livros de culinária e queria muito dar-lhes uso, fazendo uma receita de algum deles e homenagear quem mos ofereceu.
  • Apetecia-me muito experimentar uma receita diferente.
  •  Louvo quem inventou a Comfort food e o conceito de Comfort food.
  • Numa segunda-feira de Verão irlandês em que chovia e fazia frio e vento, depois de uma manhã de trabalho intelectual intenso e a caminho da estação para irmos a Cobh, entrámos num pub e comi o Irish Stew que não sendo o mais saboroso que já provei foi de certeza a confirmação do que é a Comfort food.
  • O Natal foi muito generoso comigo, quem me ama foi muito generoso mesmo. Depois de ter andado a namorar uns pratos, foram-me oferecidos e estava doida para os usar pela primeira vez e a primeira vez teria de ser também com uma receita feita pela primeira vez. Manias. Muitas.
  • Era Domingo e Domingo é dia de degustação aqui por casa, dia de calma e comunhão, de provar, petiscar, amar.
  • Precisava de mais razões?

E depois de tanto palavreado, apresento-vos a minha versão do Hot Pot, assim uma espécie de guisado, que retirei do livro Irish Family Food da Rachel Allen. Não há maneira de deixar de gostar da Irlanda e dos irlandeses. Experimentem enquanto dura o Inverno. 

Hot pot de vinho tinto e cogumelos

Ingredientes
500 g de carne de vaca para guisar cortada em cubos (usei carne dos Açores)
200g de cogumelos brancos, inteiros em metades ou em quartos dependendo do tamanho
1 cebola média
2 dentes de alho
Batatas cortadas em rodelas médias
2 dl de vinho tinto (usei um tinto de Borba encorpado)
Whisky (apenas o suficiente para regar)
Molho Worcestershire (1 colher de sopa)
Azeite
Tomilho fresco a gosto
Flor de sal
Sal e pimenta

Preparação
Pré-aquecer o forno a 150º. 
Deitar um fio de azeite numa frigideira e saltear os cogumelos até ficarem levemente dourados. Temperar com sal e pimenta preta. Retirar para um outro recipiente e reservar.
Na mesma frigideira, juntar a cebola às rodelas finas e o alho. Se não houver azeite suficiente deitar mais um pouco. Quando começarem a caramelizar, adicionar a carne, temperar com sal e pimenta e selá-la levemente. Juntar o vinho tinto, o tomilho, e deixar levantar fervura. Transferir para um recipiente refractário, deitar o molho Worcestershire e levar ao forno tapado cerca de hora e meia.
Findo esse tempo, adicionar os cogumelos, rectificar o tempero e regar com um pouco de whisky. Aumentar a temperatura para 220 graus e levar ao forno mais um quarto de hora. Retirar do forno e adicionar as batatas cortadas em rodelas em camadas. Temperar cada camada com flor de sal e tomilho. Levar ao forno sem tampa cerca de 30 minutos até as batatas estarem cozidas e começarem a dourar. Não tem bom aspecto?




sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Rosquilhas de Inverno e a liberdade anunciada

Odeio obrigações. Odeio datas para comemorar apenas porque sim. Detesto que me obriguem a tarefas sem sentido, incompatíveis com o espírito racional que me acompanha sempre, e sempre tão lesto como o coração que amolece a um sorriso e um gesto carinhoso. Contudo, gosto de efemérides, das minhas efemérides. Gosto de celebrar passagens na vida, gosto da vitória conseguida e do prazer comemorado e sou incapaz de passar uma data significativa sem uma comemoração. Pode até ser discreta, será certamente, mas não passarão em vão os momentos, dias, épocas. A memória de elefante que me assiste obriga-me de igual forma a lembrar-me de datas que preferia esquecer mas que, tal como a inauguração de épocas e celebração de dias, são a minha matriz, a mulher em que me transformei ao longo dos anos.
Hora do almoço tardia. Saí aliviada. O passo mais leve e acelerado, o sorriso aberto que me deu as boas-vindas e o dossier arrumado para o banco de trás do carro. O fim.
Duas semanas serão. Duas semanas em que tenciono nada fazer a não ser aquilo que me apetecer. Pode ser ler, esticar-me no sofá, ver filmes, ou aquilo que muito bem me apetecer. Há dias em que a minha profissão me faz a mais feliz das criaturas, pequenas conquistas que não constam em lado nenhum se não entre as quatro paredes da minha sala de aula, gestos de carinho inesperados, esforços recompensados nos números do canto superior direito de uma simples folha de teste, um sorriso no pátio. Há dias em que a minha profissão me mata, dias em que sei que não aguentarei tudo o que me querem impor, dias em que me faltará a vitalidade, a presença de espírito, a rapidez na resposta, dias em que acho que mereço mais, mereço melhor sorte e que quero sair, quero ir-me embora, alimentando sonhos de adolescente.
Hoje foi dia de pausa. Recolhi-me na sala desarrumada, encontrei o livro de receitas antigo que me foi oferecido pelo meu pai, antes de computadores, tablets, telemóveis, e procurei uma receita, antiga também ela e que me andava a apetecer. Há efemérides que se devem comemorar. O descanso é um deles. O Natal é outro. Bem-vindo a esta casa.

Rosquilhas fritas com laranja

Ingredientes
250 g de farinha
100 g de açúcar
1 colher de chá de fermento
½ colher de chá de sal refinado
Raspa de uma laranja
1 ovo
2 colheres de sopa de óleo de girassol
Buttermilk (leite em alternativa)

Óleo para a fritura
Açúcar e canela para envolver


Preparação
Juntar os ingredientes secos. Adicionar a raspa de laranja. Fazer uma cova no meio e deitar o ovo, o óleo, e buttermilk apenas em quantidade suficiente para ligar a massa. Bater com a batedeira. Numa superfície com farinha tender a massa com o rolo da massa, se ficar demasiado mole, acrescentar mais farinha, e cortar com um corta biscoitos. Fazer um orifício no meio com um dedal. Fritar em óleo quente, deixar absorver o óleo com papel absorvente e envolver em açúcar e canela. Tão fáceis e tão bons. 


domingo, 1 de dezembro de 2013

Strudel de cogumelos e presunto ou o Wellington sem beef

Embora não venere ninguém, tenho, como o comum dos mortais, um fraquinho por algumas figuras públicas na área da culinária internacional e, sendo eu rapariga de humores e de rompantes, sou fã confessa do Gordon Ramsay. A minha vida e experiência culinária pode dividir-se em dois momentos: antes e depois. Antes e depois do Gordon Ramsay. Antes e depois do Beef Wellington. Quando descobri há uns anos aquela criatura irada na cozinha a gritar desalmadamente por causa dos Beef Wellington, decidi deitar mãos à obra, eu mesma experimentar um Beef Wellington, o pomo da discórdia no "Hell’s Kitchen", e oferecê-lo com carinho ao carnívoro-mor cá de casa. Nesse dia e em todos os que regressei à receita morosa, aprimorando-me cada vez que a repetia, estabelecia-se uma contenda à mesa: todos e cada um de nós queriam ficar com o ‘rabo’ do Beef Wellington. O rabo do dito cujo situava-se nas extremidades e continha não a carne, mas o recheio: uma camada fininha de presunto com uma mistura de cogumelos moídos envolvido na massa folhada e com os sucos de todos os elementos em harmonia. As extremidades eram divididas pelos três e sempre muito concorridas. Meti na cabeça, depois da nossa preferência, que um dia faria um folhado apenas com o recheio de cogumelos.
Quando o Dia Um… Na cozinha lançou o desafio dos Strudel salgados ficou logo bem claro na minha cabeça que esta seria a oportunidade de pôr em prática a ideia que acalentei durante um tempo. Um Strudel seria e o recheio, o eleito cá de casa: cogumelos e presunto com um toque de mostarda, o 'rabo' do Beef Wellington. Acrescentei uns cubinhos de feta temperado com orégãos e a receita foi aclamada por unanimidade e com louvor. Pena é que as fotografias não façam justiça à delícia que foi hoje o nosso almoço. Estava sol, era Domingo e nada me pode fazer mais feliz do que amar cozinhando.

Strudel de cogumelos e presunto com feta

Ingredientes
1 base de massa folhada rectangular
200 g de cogumelos brancos
400 g de cogumelos Portobello
Presunto serrano em fatias finas
Queijo feta
Mostarda com grãos
Vinho branco
Tomilho fresco
Sal
Pimenta preta acabada de moer
Flor de sal
Margarina com alho
Azeite


Preparação
Lavar os cogumelos e triturar numa picadora ou robot de cozinha até ficarem em pedacinhos muito pequenos, quase em pasta. Reservar. Numa frigideira larga deitar um fio de azeite e uma noz de margarina com alho. Deitar os cogumelos e deixar cozinhar até desaparecer a água. Temperar com sal, pimenta acabada de moer, tomilho a gosto, e adicionar vinho branco. Deixar evaporar o vinho mexendo sempre, até ficar uma pasta uniforme húmida, sem deixar secar totalmente mas sem haver vestígios do vinho branco. Retirar do lume e deixar arrefecer.

Pré-aquecer o forno a 200º. Tirar a massa folhada do frigorífico, deixar descansar à temperatura ambiente uns dez minutos e estender numa folha de papel vegetal. Colocar as fatias de presunto sobre a massa folhada, deixando uma margem e pincelar generosamente o presunto com a mostarda com grãos. Dispor o queijo feta e a mistura de cogumelos por cima. Pincelar as extremidades da massa folhada e dobrar, ‘fechando’ muito bem a massa folhada. Refrigerar dez minutos no frigorífico. Retirar do frigorífico, pincelar levemente com o ovo batido, fazer uns traços na massa folhada com uma faca sem cortar. Salpicar com flor de sal e levar ao forno até a massa estar dourada.



E esta foi a minha resposta a mais um desafio do Dia Um... Na Cozinha. Que venha o próximo! 



quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Cobbler de pêssegos e um pedaço de saudade

Não me lembro nunca de me ter comprado um quilo de fruta, fosse qual fosse. Não me lembro de algum dia me ter oferecido algo que não fosse criteriosamente escolhido, preparado com antecedência e guardo no coração o último presente de Natal que ele escolheu, juntamente com a minha mãe. O meu pai era homem de datas. Jamais deixaria passar um aniversário em branco, um Natal, uma data comemorativa. Com um tempo de avanço chamava-me à parte, longe da presença da minha mãe, e relembrava-me que lhe comprasse um ‘atavio’. Era liminarmente contra electrodomésticos ou gadgets para casa como presentes. Contra batedeiras, máquinas de isto e de aquilo que servissem o propósito de amarrar a minha mãe a tarefas domésticas maçadoras. Queria sempre algo pessoal que ela  pudesse usar e que lhe desse prazer. Ainda hoje cumpro religiosamente este seu gosto e não há aniversário da minha mãe, Natal ou outra ocasião em que também em seu respeito não presenteie a minha mãe com algo pessoal.
Esta sua generosidade estendia-se a outras alturas. Alturas inesperadas em que se lembrava de nos presentear e agradar. Podiam ser coisas pequenas, diz-se por aí que ‘as melhores coisas da vida não são coisas’, e sei que o meu pai concordaria sem reservas e que me terá passado essa forma de vida. Um dos presentes que ele me ‘oferecia’ eram pêssegos. Sabia que eu gostava, adoro pêssegos, e sabia que tinha e ainda tenho o vício de comer com os olhos. Atravessava a estrada e, em tempo deles, escolhia com todo o carinho um ou dois pêssegos que me oferecia quando chegava a casa à hora do almoço. Lindos, grandes, perfumados, polpudos, estendia-mos, dizendo, ‘toma, escolhi para ti’. Nunca mais os pêssegos me souberam tão bem.

Cobbler de pêssegos

Para a cobertura
125 g de farinha com fermento
75 g de manteiga à temperatura ambiente
75 g de açúcar
60 ml de buttermilk
1 ovo
1 pitada de sal fino
Raspa de ½ limão

Pêssegos a gosto (terei usado uns quatro grandes)
3 colheres de sopa de açúcar.



Preparação
Pré-aquecer o forno a 180º. Untar com margarina um recipiente refractário.
Descascar e cortar os pêssegos em oitavos. Envolver com o açúcar e deitar no recipiente untado.
Misturar a farinha com o açúcar e a raspa de limão, juntar a manteiga cortada em cubos e amassar tudo, pode ser esfarelar com as mãos ou utilizar um amassador manual. Misturar o ovo e o buttermilk, bater com uma vara de arames e juntar à farinha e ao açúcar. Mexer muito bem até ficar homogéneo.
Com uma colher colocar colheradas desta massa por cima dos pêssegos e levar ao forno entre 30 e 40 minutos até que a cobertura fique dourada e cozinhada.


Pode substituir-se o buttermilk por leite. O buttermilk torna a massa mais leve e saborosa. A escolha da fruta fica ao critério de cada um.



sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Crumble de marmelos caramelizados e o elogio da imperfeição

Dos defeitos que me caracterizam um deles é ‘comer com os olhos’. Se for a uma banca de fruta ou de legumes, os olhos saltam-me sempre para os maiores, os mais lustrosos, os mais polpudos, os que saltam ao olhar. A única coisa que me demove de escolher sempre a fruta grande e lustrosa, a mais bonita, é o aroma. Penso a espaços que quem me vir às compras pensará que sou cão de duas patas porque farejo tudo. Sou incapaz de comprar fruta sem a cheirar, pelo menos a mais aromática e a cujo sabor se deixa adivinhar pelo aroma: pêssegos, maçãs, pêras, abacaxis e meloas têm de passar pelo teste do aroma. Se o aroma não acompanhar o aspecto atraente nada feito. Obviamente sou contra o desperdício, completamente contra, e contra a eugenia na fruta, compreendo muito bem este movimento e apoio, mas o aspecto, ai o aspecto. Nem é tanto ter uma mancha aqui e outra ali, é mais um ar enfezado e engelhado de quem teve melhores dias.
Cada vez mais compro fruta aqui na aldeia em vez daquela sensaborona do supermercado, não tem passado no teste do aroma, e recorro com frequência aos vendedores que aos fins-de-semana vendem os produtos das suas hortas. É neles que compro batatas e cebolas e tomates também. Nada pior do que tomate a saber a fénico e nada melhor do que tomate polpudo e adocicado, a saber a natureza e a sol, com cebola ‘verdadeira’ e manjericão do vaso que me decora a janela da cozinha.
Hoje fui à procura de marmelos. Não havia na primeira vendedora, indicou-me uma outra. Quando lá cheguei, vi uns marmelos, como as pessoas: uns pequenos e com sardas, uns mais gorduchos, uns com uns sinais, mas nenhum, nem unzinho, sem mácula. Como as pessoas. Dizia-me a vendedora que eram da safra dela, bons e docinhos, davam para assar, fazer marmelada, cozer. Dei-lhes uma volta, meti-lhes o nariz e trouxe um quilo e meio. Eram mesmo bons. Macios e aromáticos e o resultado foi melhor do que o esperado. Nunca se deve julgar um livro pela capa. Nunca se deve julgar a fruta pela cara. Estou quase convencida.

Crumble de marmelos caramelizados

Para a cobertura:
150 g de farinha
75 g de manteiga gelada cortada em cubos
3 colheres de sopa de açúcar mascavado
3 colheres de sopa de flocos de aveia
1/2 colher de chá de canela

6 marmelos (5 em pedaços e um ralado)
6 colheres de açúcar
Pimenta da Jamaica
Canela a gosto
Sumo de uma laranja
Vinho do Porto branco



Preparação
Pré-aquecer o forno a 200º
Para fazer a cobertura, juntar num recipiente a farinha, o açúcar e a canela. Adicionar a manteiga e misturar com as mãos, criando uma mistura semelhante a migalhas. Juntar por fim os flocos de aveia e reservar no frigorífico.
Descascar cinco marmelos e cortar em pedaços grosseiros não muito grandes. Ralar um marmelo.

Numa frigideira, deixar o açúcar em lume brando até começar a caramelizar. Adicionar o marmelo ralado e cozinhar 2 a 3 minutos. Juntar os restantes marmelos cortados em pedaços, canela a gosto, uma pitada de pimenta da Jamaica e o sumo de laranja. Envolver bem e deitar o Vinho do Porto. Deixar amolecer os marmelos e transferi-los para um recipiente refractário. Retirar a cobertura do frigorífico e espalhar por cima dos marmelos. Levar ao forno até ficar dourado. 


Este foi a minha escolha para mais um desafio do Dia Um... Na Cozinha. Gostei muito do resultado, tem o equilíbrio perfeito entre o doce do caramelo e a acidez dos marmelos. São servidos?



Receita inspirada no Apple Crumble do Ultimate Cookery Course do Gordon Ramsay.

domingo, 27 de outubro de 2013

Pilaf de arroz selvagem com camarão

Nos dias que correm gostava de ter mais tempo para tudo: tempo para descansar, tempo além da minha vida profissional, às vezes tempo para ser feliz, seja lá o que isso for, e tempo para ter esperança. Não acredito que basta querer. Não basta querer. É preciso que haja oportunidade para querer, é preciso também que façamos para tal mas, tal como considero o direito à tristeza um direito inalienável, considero que o ‘basta querer’ é um sofisma e muitas vezes uma grande tontice prenhe de autoajudas e outras modas que por aí andam. Não basta querer. Nos dias que correm também gostava de mais tempo para alimentar este blogue, contar histórias, publicar mais receitas que vou amontoando e que vão ficando guardadas em ficheiros por aí na esperança vã de que me volte a vontade de bloggar e a escrita se solte como em tempos passados. Hoje, em dia de descanso, fui buscar esta receita. Tive tempo e paciência e como gostei muito do resultado resolvi partilhá-la. Chega um tempo para tudo.

Pilaf de arroz selvagem com camarão

Ingredientes
1 cebola roxa média
2 dentes de alho
Tomilho
Açafrão
Pimenta cayenne
Pimenta preta
1 pau de canela
1 baga de piri-piri
Raspa de duas limas
Sumo de uma lima
Coentros
Arroz selvagem (usei dois copos pequenos)
Caldo de peixe
400 gr de camarão médio
Azeite

Preparação

Deixar descongelar o camarão, descascar e arranjar. Temperar com um pouco de sal, pimenta preta acabada de moer e sumo de uma lima. Reservar.
Pré-aquecer o forno a 200º.
Picar a cebola e o alho. Aquecer uma frigideira larga que possa ir ao forno. Deitar a cebola e o alho e o azeite. Juntar de seguida o tomilho, o açafrão, a raspa das limas, a pimenta cayenne, e a baga de piri-piri. Cozinhar uns cinco minutos até que a cebola amoleça, mexendo sempre, e juntar o pau de canela. Adicionar o arroz selvagem, mexer bem, e deixar fritar por uns minutos até que o arroz comece a ficar translúcido. Deitar então o dobro da quantidade de arroz em caldo de peixe e levar ao forno pré-aquecido cerca de 10-15 minutos até a água ter sumido. Retirar do forno, misturar os camarões cuidadosamente com um garfo para ficarem distribuídos uniformemente e, por fim, juntar os coentros picados ou cortados com uma tesoura de ervas aromáticas. Rectificar o tempero. Levar ao forno até os camarões e o arroz estarem cozinhados. Servir polvilhado com os restantes coentros picados. 


Originalmente o pilaf não é feito com arroz selvagem, já o fiz com outro tipo de arroz, mas apeteceu-me, apetece-me muito, variar. O resultado foi óptimo. Gosto da multiplicidade de sabores e que, mais uma vez, nenhum se sobreponha ao outro. Não é aconselhável a quem prefira sabores brandos e comedidos.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Frittata de alcachofras e tomate seco e uma aventura em 'língua estrangeira'

Diz Chico Buarque no belíssimo Budapeste que “devia ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira.” Naquela luminosa manhã de Fevereiro, sentada numa das mais belas praças do mundo que conheço, não fiquei incomodada por terem ‘debochado’ do meu fraquíssimo italiano. Era Carnaval, Veneza cobria-se de turistas, a maior enchente dos últimos tempos, li depois, mas nem por isso deixou de ser mágica, misteriosa, encantadoramente decadente. Sentada na Praça de São Marcos a ver o mundo passar enquanto esperava um espresso matinal fui vendo desfilar ao meu lado aquilo que cá por casa se chamam fritas, uns bolos pequenos fritos polvilhados com açúcar, algures entre filhós e sonhos, que já tivera oportunidade de ver numa outra visita à cidade, menos bela dessa vez. Curiosa e foodie que se preze quer provar quase tudo e enquanto os ditos fritos iam sendo servidos à minha volta, fui apurando memória e ouvido: memória porque a palavra já se tinha cruzado comigo da outra vez em Burano, e ouvido, porque talvez pelo ouvido lá fosse. Começava por ‘f’, disso estava certa, e certa fiquei quando me surgiu a palavra. Era aquela. Quando o empregado chegou pedi-lhe lesta os cafés e acrescentei a palavra que tanto trabalho me havia dado a procurar: frittata. E é aqui que entra o Chico Buarque. Bem-disposto e sorridente o homem confirmou ironicamente se era mesmo uma frittata que eu queria àquela hora da manhã, "debochou da minha aventura em língua estrangeira", e corrigiu-me com uma gargalhada: frittelle! Frittelle di Carnevale. Eram bons, uma delícia, souberam-me pela vida mas algo me diz que aquele cenário inesquecível bem de frente para São Marcos deu um grande contributo. A frittata foi hoje. Hoje é que foi a frittata.

Frittata de alcachofras e tomates secos

Ingredientes
2 ovos grandes
Corações de alcachofra
Tomates secos
Queijo President Snack
Alecrim
Pimenta preta
Sal



Preparação
Pré-aquecer o forno a 200º. Bater os ovos muito bem com uma pitada de sal. Cortar os tomates secos ao meio, as alcachofras em metades. Cortar o queijo em fatias médias. Picar o alecrim.

Aquecer uma frigideira anti-aderente e deitar um fio de azeite. Retirar o excesso com papel de cozinha. Deitar os ovos batidos e dispor por cima os tomates secos, as alcachofras e o queijo em forma de estrela. Temperar com a pimenta preta acabada de moer e polvilhar com o alecrim. Quando começar a borbulhar e tiver uma base sólida, levar ao forno pré-aquecido uns dez minutos. Fácil e deliciosa.



Mais um desafio do Dia Um... Na Cozinha. 


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Bolo de chocolate e frutos vermelhos para a festa da Maria

Agora que Setembro nos brinda com dias menos longos e ocasos em jeito de despedida o regresso a dias mais recatados anuncia-se sem cerimónia. Chama-me lentamente o conforto de uma tarde em casa tranquila com uma passagem breve pela cozinha e um prazer perfumado no forno, mais tarde acompanhado com uma chávena de chá. De maternidade entendo pouco, mas sinto que pouco nos faz mais feliz do que um bolo acabado de fazer pela nossa mãe. E sei que se tivesse filhos os acarinharia com o que destas mãos sai, um colo doce e carinhoso, o momento em que tudo pára e se relativiza.

Bolo de chocolate com frutos vermelhos

Ingredientes
200g de açúcar
200g de farinha
150 g de manteiga
4 ovos inteiros
2 colheres de sopa de iogurte grego (iogurte natural sem açúcar em alternativa)
2 colheres de sopa de cacau em pó
1 colher de sopa de chocolate em pó
Frutos vermelhos a gosto (usei mistura de frutos vermelhos congelados)

Preparação
Pré-aquecer o forno a 180º. Untar com margarina uma forma refratária baixa e larga. Bater a manteiga à temperatura ambiente com o açúcar até ficar um creme fofo e esbranquiçado. Adicionar os ovos inteiros um a um, batendo a cada adição e, por fim, o iogurte. Envolver a farinha cuidadosamente com uma espátula. Peneirar o cacau e o chocolate e envolver de novo sem nunca bater a massa.

Deitar na forma, pôr por cima os frutos vermelhos e levar ao forno uns vinte minutos. Depois de frio polvilhar com açúcar de confeiteiro. 

Este bolo é de fácil confecção e resulta muito bem. Ideal para quem tem preguiça ou falta de tempo para bolos de chocolate elaborados mas a quem apetece muito de repente uma fatia de bolo de chocolate fofo e saboroso. Os frutos vermelhos proporcionam o toque meio ácido para quebrar a monotonia.


Este é o meu contributo para a festa da minha querida Maria Papitas, cujo blogue comemora o segundo aniversário. O texto é-lhe inteiramente dedicado. É o colo doce e maternal que embala o blogue e nele a declaração do amor incondicional aos seus filhotes.



domingo, 15 de setembro de 2013

Salada de frango tandoori com alcachofras para quebrar a monotonia

Para uma alma geminiana como esta que vos escreve há poucas coisas tão enfadonhas, cansativas e desinteressantes como a monotonia. Dias que se arrastam sem novidades nem emoção como se fossem um enorme e longo inverno reduzem a energia geminiana a níveis mínimos, desanimados com a falta de diversidade, um bocejo rotundo à espera de melhores dias. Pode ser um livro novo para ler, um pequeno desafio profissional ou uma viagem em vista, podem também ser coisas pequenas e quase insignificantes, um je ne c'est quoi que me apimente o dia-a-dia. Na cozinha acontece o mesmo, embora a rotina e a falta de tempo ditem por vezes exactamente aquilo que me enfada: refeições de preparação rápida e sem grandes novidades. Acontece contudo que quando o consumo de saladas surgiu quase como uma imposição tive de dar largas à imaginação para evitar a enfadonha base de alface com mais uns ingredientes a coroá-la. Embora a imaginação seja ilimitada, a verdade é que salada é salada e mais ingrediente menos ingrediente, se não tiver, lá está, esse tal je ne c'est quoi, arrasta-se numa terrível maçada. Esta salada que vos trago surgiu pela necessidade de variar saladas e variar uma salada de frango. Chega de frango cozido e grelhado sensaborão. Não é aconselhável para quem não gosta de sabores com carácter mas traz-lhe um toque especial, o mesmo que necessitamos para sorrir para a vida.

Salada de frango tandoori com alcachofras

Ingredientes
1 peito de frango
1 iogurte natural sem ser açucarado
2 dentes de alho
1 colher de chá de cominhos
1 colher de chá de colorau
1 colher de chá de piri-piri
1 pitada de pimenta preta acabada de moer
1 colher de chá de açafrão
cebolinho
sumo de meio limão

Alface
Orégãos
Corações de alcachofra (opcional)

Preparação
Cortar o peito de frango em tiras, temperar com sal e reservar. Num recipiente, misturar as especiarias com o iogurte e o alho esmagado, o sumo de limão e o cebolinho picado, usei uma tesoura de ervas aromáticas, até ficar uma pasta.  Envolver o frango nesta pasta e deixar a marinar no frigorífico pelo menos duas horas.

Depois de lavada e preparada a alface, polvilhar com os orégãos e cozinhar o frango. Retirar o excesso do molho de iogurte. Aquecer uma frigideira antiaderente com um fio de azeite. Retirar o excesso com papel de cozinha. Deitar o frango e grelhar, virando cuidadosamente até ficar dourado. Deixar arrefecer um pouco, pôr em cima da alface, dispor as alcachofras e degustar. 



domingo, 1 de setembro de 2013

Galette de Zwetschgen que afinal são abrunhos

Zwetschgen. Ainda sou do tempo em que não havia grandes superfícies, centros comerciais e se vivia ao ritmo das estações, bem marcadas então. Comia-se também o que a terra e o tempo dava, a fruta da época era ainda um conceito e não havia uvas fora do seu tempo ou fruta grande e lustrosa mas sem sabor. Nesse mesmo tempo, vivia-se também na ignorância de muito do que a globalização veio trazer depois, a profusão de diferentes frutos e legumes, exóticos ou apenas desconhecidos. Quem me ouvir falar pode julgar que vivia deslocada algures num lugar ermo e sem acesso ao mundo dito civilizado, mas não. Vivia onde sempre vivi: uns meros 30 quilómetros a noroeste de Lisboa. A vida era tão diferente que muitas vezes me pergunto como eu e tantos como eu sobreviveram à pasmaceira que era ser, por exemplo, adolescente nesse tempo. Havia pouco que fazer e pouco que fosse tão estimulante como alguns dos desafios actuais. Bem, mas ao que venho prende-se com a primeira palavra deste post: Zwetschgen. Quando vejo os frutos é a primeira palavra que me vem à cabeça. Essa mesma. Em alemão. E isto porque a primeira vez que me cruzei com um fruto daqueles, afinal tão comum, foi a primeira vez que pus pé fora deste país a sério e digo a sério porque Espanha já aqui ao lado não conta, faz parte da minha matriz, faz parte da nossa, a proverbial viagem a Espanha para comprar caramelos que na verdade servia para muito mais do que isso. Foi também nessa viagem à Alemanha bem no início dos anos oitenta que terei provado pela primeira vez mirtilos, cresciam desalmados no jardim da casa onde passei duas semanas, e eram preferencialmente comidos em panquecas. Zwetschgen são afinal abrunhos verdes. Maravilharam-me naquele tempo em pequenas fatias rectangulares vendidos nas padarias e pastelarias, com Streusel, também não sei traduzir, e eram a prova de um outro mundo que fui descobrindo lentamente ao longo da vida. Foi nos abrunhos que recaiu a minha escolha para uma deliciosa galette e só não lhe chamo galette de Zwetschgen porque há limites para o desvario das palavras. Vejam se gostam.


Galette de abrunhos verdes

Massa:
300 g de farinha de trigo
200 g de manteiga gelada
3 colheres de sopa de açúcar
1 colher de chá de sal
1/2 chávena de água bem fria

Recheio:
Abrunhos verdes
Framboesas
Açúcar amarelo
Raspa de lima
Pimenta da Jamaica acabada de moer
1 colher de chá de amido de milho

Preparação
Numa tigela larga, juntar a farinha, o açúcar e o sal. Cortar a manteiga bem fria em pedaços pequenos, juntar à farinha e com um amassador manual ir conjugando todos os ingredientes até se assemelhar a uma areia irregular com pedaços de tamanhos diferentes. Juntar a água em pequenas porções e amassar apenas o suficiente para ficar mais regular. Pode usar-se uma espátula mas não as mãos. Transferir para uma superfície enfarinhada, amassar levemente com as mãos e formar um disco. Levar ao frigorífico uma hora para descansar. 
Entretanto, preparar a fruta. Lavar e cortar os abrunhos em oitavos. Misturar o açúcar e a raspa de lima para libertar o aroma e adicionar a pimenta da Jamaica. Adicionar por fim o amido de milho. Juntar os abrunhos e as framboesas, envolver, e reservar.


Passado o tempo de descanso, pré-aquecer o forno a 180º. Retirar a massa do frigorífico e, em papel vegetal anti-aderente, tender uma circunferência grande. Pegar no papel vegetal com a massa e pousar sobre uma forma de tarte. Dispor os abrunhos e as framboesas. Dobrar a parte excedentária da massa sobre a fruta e transferir a galette com o papel vegetal para um tabuleiro de forno. Pincelar com água, polvilhar com açúcar mascavado e levar ao forno cerca de 30 minutos.



Notas:
  • A massa deve ser pouco manuseada, já que o manuseamento excessivo irá comprometer a textura e consistência.
  • Os procedimentos finais devem ser firmes e rápidos, sem grandes hesitações, o calor ambiente irá provocar amolecimento da massa e tornar impossível o manuseamento.
  • Optei por esta técnica de usar uma forma de tarte para moldar para ficar mais uniforme, mas pode ser feito marcando uma circunferência na massa onde se deve deitar a fruta e dobrar a massa sobejante para dentro.



Com esta galette inicio a minha participação no grupo Dia Um... na Cozinha! O desafio deste mês de Setembro era fazer uma galette de fruta. 


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Despretensões numa simples focaccia

Na cozinha como na vida gosto de gente despretensiosa e odeio pessoas com manias e presunções e que, muitas vezes, se coloca acima dos demais. Em várias áreas da minha vida mantenho o mesmo gosto pela despretensão, e não digo pela simplicidade porque, na verdade, e no que toca a gostos, tenho dias em que a máxima ‘less is more’ não se aplica e me sinto barroca, excessiva como o barroco, apetece-me cores e arrebiques. Na cozinha, raramente me sinto barroca, arriscaria a dizer que nunca tal me acontece e se não o faço é porque nunca é sempre demasiado definitivo, demasiado drástico. Agora que os canais de cozinha vão fazendo parte das rotinas televisivas, a minha escolha recai sobre chefs que falam com o comum dos mortais e tornam a culinária uma arte acessível a todos, simples e tranquila, assim o tempo o permita, e exequível. Os Hairy Bikers incluem-se nesta categoria, embora, confesso, fossem tão despretensiosos que quase duvidei da sua eficácia culinária. Rendi-me com o Bakeation. Gosto do trocadilho do título e, amante de viagens como sou, esta ideia peregrina e mitificada de andar de mota pela Europa cabelos ao vento, parando aqui e ali para cozinhar e falar com os locais preenche sonhos antigos de adolescente, nesse tempo sem a parte da culinária. Quando um destes dias os apanhei em Itália e degustar uma focaccia em Veneza rendi-me e, mesmo sem Veneza no horizonte, meti na cabeça que havia de fazer uma ‘coisa’ daquelas. Foi hoje. Começou ontem com a compra dos ingredientes, continuou com uma ida à loja mais próxima para comprar a forma, seguiu-se uma longa e sofrida espera com os tempos de levedação e sucedeu-se uma admiração de Pigmalião perante o produto final. Depois foi tirar do forno, esperar que arrefecesse um pouco e partilhar com a alegria da novidade no mais simples dos prazeres repartidos. Um bocadinho com a vida.

Focaccia

Ingredientes

Para a massa:
500 g de farinha Pão Caseiro da Nacional
7 g de fermento de padeiro em pó
1 colher de chá de açúcar
1 colher de chá de sal refinado
2 colheres de sopa de azeite
300 ml de água morna

Para a cobertura:
3 colheres de sopa de azeite
Sal grosso
Pimenta preta acabada de moer
1 colher de sopa de rosmaninho picado grosseiramente
Azeitonas a gosto
Presunto da Baviera

Preparação
Numa tigela larga deitar a farinha, o fermento, o açúcar e o sal e envolver. Misturar o azeite com a água. Abrir uma cova na mistura da farinha e juntar a água e o azeite. Mexer com um garfo e depois unir com as mãos até formar uma bola.
Numa superfície com farinha amassar 5 minutos até a massa ficar suave e macia. Transferir para uma tigela larga untada com azeite e cobrir com uma película aderente também untada com azeite, em alternativa, untar levemente a superfície da massa com azeite e cobrir com a película. A quantidade de azeite deve ser mínima. Deixar levedar durante uma hora num local ameno até ter dobrado de tamanho.  Findo esse tempo, transferir para uma superfície com farinha, amassar com os nós dos dedos e formar um rectângulo grosseiro. Transferir para uma forma anti-aderente previamente untada com azeite e empurrar suavemente até a massa cobrir os cantos. Tapar com um pano e deixar descansar mais meia hora num local quente. Neste momento, pré-aquecer o forno a 220º.
Depois dos 30 minutos, fazer covas na massa com os dedos, cobrir com o azeite, polvilhar com sal e pimenta preta acabada de moer e o rosmaninho. Colocar as azeitonas e o presunto da Baviera. Levar ao forno 15 a 20 minutos.


Notas:
  • Na receita original a farinha usada é farinha branca.
  • A cobertura pode ser diversificada e ao gosto de cada um. Usei presunto da Baviera porque tinha em casa e achei que casaria bem com o resto. Não me enganei. 

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Uma espécie de blinis que também podem ser pikelets

Quando se decide dar uma saltadinha a uma das cidades mais caras do mundo, o local de pernoita é muito importante e obedece aos critérios impostos pelo orçamento disponível. A escolha recaiu sobre um dos edifícios históricos, construído para as Olimpíadas de 1980. De construção imponente como todas as que vêm daquele lado do mundo, o complexo hoteleiro dividia-se por três enormes torres construídas para impressionar o mundo capitalista em plena guerra fria. O primeiro embate, que isto de choque cultural está em todo o lado, foi quando na recepção fomos recebidos com a proverbial antipatia moscovita e uma dificuldade imensa em comunicarmos em inglês, obstáculo que se estenderia ao longo dos dias em Moscovo e que seria também acompanhada por uma rudeza no trato que não encontrei em mais lado nenhum do mundo. Os pequenos-almoços eram povoados por muitos turistas nacionais e a mais importante refeição do dia era opípara e farta, composta de muitas saladas e legumes. Comiam, ó se comiam. E o que comiam? Pepino e pimentos às rodelas, todo o tipo de legumes crus e saladas. Nada contra a diversidade mas a ideia de comer pepino ao pequeno-almoço não colhe adeptos por estas paragens e a ideia do frio e peso do pepino logo pela fresca a ocupar-me o estômago causa-me alguns engulhos. Mas, como em todos os lugares, há sempre algo que nos deixa saudades: blinis. Eram comidos de várias maneiras, mas eu não os dispensava com um molho espesso de frutos vermelhos e natas ácidas a acompanhar. Uma delícia.
E esta conversa toda surgiu porque a ideia dos blinis voltou quando precisei de uma alternativa para as tostas. Eu explico: tostas com queijo creme e salmão fumado são uma das minhas entradas preferidas. Contudo, passada uma hora as tostas ficavam moles e empapadas e não gosto de nada que seja mole, raramente como açorda e ensopados também não fazem parte das minhas preferências. Para obstar a esta pecha fui dando voltas pelos livros de culinária e descobri esta receita num deles. Na minha cabeça são blinis e cá em casa conhecidos como tal, embora os ingredientes não sejam os mesmos, não de todo, mas a forma lembra-me sempre uma das delícias da cozinha russa. As variações são ao sabor da imaginação. Gosto deles de várias maneiras: com paté de atum, paté de delícias do mar, com presunto da Baviera em substituição do salmão. E gosto deles com uma boa companhia, iniciando o almoço de Domingo ou ao pôr de sol de Verão enquanto as brasas se acalentam para o grelhado de Estio.

Pikelets de cebolinho com salmão fumado

Ingredientes

Para os pikelets:
125 g de farinha com fermento
2 ovos
125 ml de leite
1 colher de sopa de natas ácidas
1 pitada de sal refinado
Cebolinho a gosto

Salmão fumado
Queijo creme com ervas aromáticas
Sumo e raspa de lima ou limão

Preparação
Juntar a farinha e o sal num recipiente e envolver. Fazer uma cova no centro e adicionar os ovos levemente batidos, o leite e as natas. Mexer tudo muito bem com uma vara de arames até ficar uma massa homogénea e sem grumos, mas não bater demasiado Por fim, juntar o cebolinho cortado com uma tesoura de ervas aromáticas e deixar descansar 15 minutos.
Aquecer uma frigideira, de preferência uma de crepes. Deitar um fio de óleo de girassol e retirar o excesso e enxugar com papel de cozinha. Com uma colher de sopa deitar pequenas porções da massa. Virar quando começar a borbulhar. Repetir até acabar a massa. Deixar arrefecer.

Abrir a embalagem de salmão fumado e regar o salmão com sumo de lima ou de limão em alternativa. Barrar cada pikelet com queijo creme com ervas aromáticas e pôr o salmão por cima. Polvilhar com raspa de lima. 


domingo, 23 de junho de 2013

Ode aos vizinhos nuns meltaways de lima-limão

No dealbar da primeira década do milénio a minha vida havia de sofrer uma transformação profunda. Nessa transformação esteve presente muita gente, gente que continua a povoar a minha vida e faz dela o bálsamo e o elixir que faz tudo valer a pena, gente que está ausente fisicamente e cuja falta me dói todos os dias, gente que anda por aí mas que deixou de ter importância e uma espécie de seres curiosos e caricatos. Ela fazia parte destes últimos.
Era rotunda, usava bata em dias de fazer, como dizia a minha avó, tinha pilosidades que fariam inveja à Frida Kahlo, mas que aparava no cabeleireiro da aldeia, e o rosto marcado por um sobrolho desconfiado, benza Deus, desconfiado e opaco por onde não passaria quem faz dos dias leveza e, muito importante, quem não lhe prestasse vassalagem, a espinha curva e sorriso obediente, calhando, a cauda a abanar. Sem qualquer ponta de heroísmo, eu havia de ser uma dessas criaturas e a relação que travámos tensa e sem qualquer salamaleque da minha parte. Perguntar-se-ão porque tinha eu de suportar uma espécie daquelas. Acontece que a simpaticamente epitetada cusca era dona da casa que habitei durante um ano bem medido e, assim sendo, não tinha como fugir-lhe. Quando um dia as paredes da sua mansão emareleceram por causa da mistura explosiva de humidade e fumo da lareira, a criatura espalhou pelo mundo que havíamos grelhado chouriços na lareira. No dia em que a vi matreira bater à minha porta, esfreguei-lhe no fácies desconfiado o boato chouriceiro e ainda lhe arrematei certeira e furiosa mas estamos na Idade Média para fazer fogueiras no meio da sala? O curioso ser encheu-se de fervores ofendidos. Quem ousaria viver na sua casa, e, pasme-se, confrontá-la com a sua própria maledicência? Um dia tudo acabaria e quando fechei a porta da mansão húmida e ventosa e o meu consorte lhe estendeu as chaves, fosse eu ter-lhas-ia esfregado no semblante tisnado, terá sido um momento a recordar.
Na minha nova vida, com a cusca para trás das costas e uma casa a que chamasse minha e onde pudesse assar até cabritos na lareira, ficou desde muito cedo bem claro que a rua a que chamo de minha, minha do coração, era povoada por gente boa. Dei-me conta disso, num dia de invernia em que, depois duma chuvada, todos os vizinhos se uniram para limpar a rua, havia saibro por aí que precisava de ser removido. Os dias que se seguiram, e já lá vai uma década, foram e são dias de boa vizinhança, uma verdadeira bênção. Há bons dias e boas tardes, conversas a que se vão juntando mais vizinhos na acalmia da tarde, há os animais de cada um que são de todos, há copos que se bebem, há entreajuda e solidariedade, há preocupação, há carinho. Ontem, ao sair de casa, tínhamos um saco de enormes e belos limões, um presente dos “senhores do treze”, assim os chamo em conversa com a minha mãe para os distinguir dos outros. Hoje pela tarde calma que a escola finalmente me permitiu ter abalancei-me nestes biscoitos de lima-limão aí em baixo para partilhar com os meus adorados vizinhos. Há lá coisa melhor?

Meltaways de lima-limão

Ingredientes
175 g de margarina
1 medida de açúcar de confeiteiro (250 ml)
1 ovo pequeno
Raspa de uma lima
Raspa de um limão pequeno
Sumo de uma lima
Sumo de meio limão
2 medidas de farinha com fermento
2 colheres de sopa de amido de milho
¼ de colher de chá de sal grosso

Preparação

Misturar a farinha, o amido de milho e o sal num recipiente. Bater a margarina à temperatura ambiente com o açúcar até ficar um creme fofo. Juntar a raspa e sumo da lima e do limão. Adicionar o ovo e bater. Incorporar a mistura das farinhas e do sal. Bater apenas o suficiente para que fique uma massa homogénea. Em papel vegetal formar dois troncos de massa. Levar ao frigorífico umas duas horas ou ao congelador. Findo esse tempo, pré-aquecer o forno a 180º. Retirar os troncos de massa e com uma faca cortar em fatias. Como não gosto do aspecto tão aparado, passei um garfo para ficar com marcas em quadrícula. Levar ao forno uns vinte minutos. Retirar, deixar arrefecer um pouco e envolver com açúcar de confeiteiro. Para ficar mais uniforme, deitei o açúcar num saco de refrigeração e pus lá dentro os biscoitos envolvendo tudo com cuidado.



Receita inspirada nesta.


sexta-feira, 12 de abril de 2013

O adeus ao Inverno num bolo de chocolate com Guinness

Este blogue é feito ao sabor dos humores e ao sabor da minha inspiração. Acontece portanto que cozinho bem mais do que posto e posto bem menos do que cozinho. Cozinho todos os dias aquilo que julgo que muitos de nós cozinham: comida dita normal, sem grandes inovações, pratos rápidos que não requerem grandes cuidados, o património gastronómico que forja a identidade. Nesta voracidade dos dias tenho também momentos de lazer e deleite puro na cozinha, ao contrário dos anteriores: experiências novas e outras repetidas que por pura preguiça e falta de palavras vão ficando para trás, as fotografias arquivadas numa pasta à espera de ver a luz dos dias com umas palavras a acompanhar. 
Ontem foi dia de inaugurar a época das saladas. Mais uma vez algo sem qualquer inovação, temperado com as réstias de sol poente de uma Primavera fugidia. Se ela não falhar adivinham-se muitos dias de saladas frescas, grelhados embalados no ritmo próprio, lento, saboreado com a calmaria de existências felizes, fruta perfumada de que tanto gosto: morangos bojudos, alperces carnudos, pêssegos suculentos, ameixas sumarentas. E depois virão cerejas e uvas.E estes dias que me iluminaram e sacudiram a amargura dos dias cinzentos são dias de frugalidade e de arrumar receitas de Inverno como quem arruma roupa numa outra gaveta e que só voltará a ser usada quando os dias diminuírem, a aragem fresca soprará de novo no canavial que assiste incólume à passagem das estações e os melros recolher-se-ão até mais um estio. Este bolo é para mim bolo de dias mais frescos quando o zénite se esmorece e o ocaso se redobra em vermelhos decadentes. Ficaria pois resguardado à espera desses dias, se não o postasse agora. Muito tempo. Tempo de mais.

Bolo de chocolate com Guinness

Ingredientes
150 ml de Guinness (pode ser outra stout)
75 g de chocolate negro em barra (usei o que tinha mas quanto mais negro, melhor)
120 g de manteiga
275 g de açúcar amarelo
175 g de farinha com fermento
2 ovos médios

Preparação
Pré aquecer o forno a 180º.
Levar a lume brando a Guinness e o chocolate negro partido em pedaços pequenos. Assim que o chocolate estiver derretido, retirar do lume e deixar arrefecer.
Bater o açúcar com a manteiga até ficar um creme esbranquiçado e fofo. Adicionar os ovos um a um e bater entre cada adição. Juntar com cuidado a mistura de Guinness e chocolate e, por fim, envolver a farinha. Levar ao forno 30 a 35 minutos. Fazer o teste do palito antes de retirar do forno. 


Este bolo é indicado para quem gosta de sabores atrevidos e desafiadores. Há um toque tão diferente e tão encantatório que não sei explicar. As receitas que encontrei por aí têm todas uma cobertura de queijo creme ou similar mas porquê atafulhar sabores e texturas se a simplicidade já é tão intensa?


Receita inspirada  aqui