quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Cobbler de pêssegos e um pedaço de saudade

Não me lembro nunca de me ter comprado um quilo de fruta, fosse qual fosse. Não me lembro de algum dia me ter oferecido algo que não fosse criteriosamente escolhido, preparado com antecedência e guardo no coração o último presente de Natal que ele escolheu, juntamente com a minha mãe. O meu pai era homem de datas. Jamais deixaria passar um aniversário em branco, um Natal, uma data comemorativa. Com um tempo de avanço chamava-me à parte, longe da presença da minha mãe, e relembrava-me que lhe comprasse um ‘atavio’. Era liminarmente contra electrodomésticos ou gadgets para casa como presentes. Contra batedeiras, máquinas de isto e de aquilo que servissem o propósito de amarrar a minha mãe a tarefas domésticas maçadoras. Queria sempre algo pessoal que ela  pudesse usar e que lhe desse prazer. Ainda hoje cumpro religiosamente este seu gosto e não há aniversário da minha mãe, Natal ou outra ocasião em que também em seu respeito não presenteie a minha mãe com algo pessoal.
Esta sua generosidade estendia-se a outras alturas. Alturas inesperadas em que se lembrava de nos presentear e agradar. Podiam ser coisas pequenas, diz-se por aí que ‘as melhores coisas da vida não são coisas’, e sei que o meu pai concordaria sem reservas e que me terá passado essa forma de vida. Um dos presentes que ele me ‘oferecia’ eram pêssegos. Sabia que eu gostava, adoro pêssegos, e sabia que tinha e ainda tenho o vício de comer com os olhos. Atravessava a estrada e, em tempo deles, escolhia com todo o carinho um ou dois pêssegos que me oferecia quando chegava a casa à hora do almoço. Lindos, grandes, perfumados, polpudos, estendia-mos, dizendo, ‘toma, escolhi para ti’. Nunca mais os pêssegos me souberam tão bem.

Cobbler de pêssegos

Para a cobertura
125 g de farinha com fermento
75 g de manteiga à temperatura ambiente
75 g de açúcar
60 ml de buttermilk
1 ovo
1 pitada de sal fino
Raspa de ½ limão

Pêssegos a gosto (terei usado uns quatro grandes)
3 colheres de sopa de açúcar.



Preparação
Pré-aquecer o forno a 180º. Untar com margarina um recipiente refractário.
Descascar e cortar os pêssegos em oitavos. Envolver com o açúcar e deitar no recipiente untado.
Misturar a farinha com o açúcar e a raspa de limão, juntar a manteiga cortada em cubos e amassar tudo, pode ser esfarelar com as mãos ou utilizar um amassador manual. Misturar o ovo e o buttermilk, bater com uma vara de arames e juntar à farinha e ao açúcar. Mexer muito bem até ficar homogéneo.
Com uma colher colocar colheradas desta massa por cima dos pêssegos e levar ao forno entre 30 e 40 minutos até que a cobertura fique dourada e cozinhada.


Pode substituir-se o buttermilk por leite. O buttermilk torna a massa mais leve e saborosa. A escolha da fruta fica ao critério de cada um.



sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Crumble de marmelos caramelizados e o elogio da imperfeição

Dos defeitos que me caracterizam um deles é ‘comer com os olhos’. Se for a uma banca de fruta ou de legumes, os olhos saltam-me sempre para os maiores, os mais lustrosos, os mais polpudos, os que saltam ao olhar. A única coisa que me demove de escolher sempre a fruta grande e lustrosa, a mais bonita, é o aroma. Penso a espaços que quem me vir às compras pensará que sou cão de duas patas porque farejo tudo. Sou incapaz de comprar fruta sem a cheirar, pelo menos a mais aromática e a cujo sabor se deixa adivinhar pelo aroma: pêssegos, maçãs, pêras, abacaxis e meloas têm de passar pelo teste do aroma. Se o aroma não acompanhar o aspecto atraente nada feito. Obviamente sou contra o desperdício, completamente contra, e contra a eugenia na fruta, compreendo muito bem este movimento e apoio, mas o aspecto, ai o aspecto. Nem é tanto ter uma mancha aqui e outra ali, é mais um ar enfezado e engelhado de quem teve melhores dias.
Cada vez mais compro fruta aqui na aldeia em vez daquela sensaborona do supermercado, não tem passado no teste do aroma, e recorro com frequência aos vendedores que aos fins-de-semana vendem os produtos das suas hortas. É neles que compro batatas e cebolas e tomates também. Nada pior do que tomate a saber a fénico e nada melhor do que tomate polpudo e adocicado, a saber a natureza e a sol, com cebola ‘verdadeira’ e manjericão do vaso que me decora a janela da cozinha.
Hoje fui à procura de marmelos. Não havia na primeira vendedora, indicou-me uma outra. Quando lá cheguei, vi uns marmelos, como as pessoas: uns pequenos e com sardas, uns mais gorduchos, uns com uns sinais, mas nenhum, nem unzinho, sem mácula. Como as pessoas. Dizia-me a vendedora que eram da safra dela, bons e docinhos, davam para assar, fazer marmelada, cozer. Dei-lhes uma volta, meti-lhes o nariz e trouxe um quilo e meio. Eram mesmo bons. Macios e aromáticos e o resultado foi melhor do que o esperado. Nunca se deve julgar um livro pela capa. Nunca se deve julgar a fruta pela cara. Estou quase convencida.

Crumble de marmelos caramelizados

Para a cobertura:
150 g de farinha
75 g de manteiga gelada cortada em cubos
3 colheres de sopa de açúcar mascavado
3 colheres de sopa de flocos de aveia
1/2 colher de chá de canela

6 marmelos (5 em pedaços e um ralado)
6 colheres de açúcar
Pimenta da Jamaica
Canela a gosto
Sumo de uma laranja
Vinho do Porto branco



Preparação
Pré-aquecer o forno a 200º
Para fazer a cobertura, juntar num recipiente a farinha, o açúcar e a canela. Adicionar a manteiga e misturar com as mãos, criando uma mistura semelhante a migalhas. Juntar por fim os flocos de aveia e reservar no frigorífico.
Descascar cinco marmelos e cortar em pedaços grosseiros não muito grandes. Ralar um marmelo.

Numa frigideira, deixar o açúcar em lume brando até começar a caramelizar. Adicionar o marmelo ralado e cozinhar 2 a 3 minutos. Juntar os restantes marmelos cortados em pedaços, canela a gosto, uma pitada de pimenta da Jamaica e o sumo de laranja. Envolver bem e deitar o Vinho do Porto. Deixar amolecer os marmelos e transferi-los para um recipiente refractário. Retirar a cobertura do frigorífico e espalhar por cima dos marmelos. Levar ao forno até ficar dourado. 


Este foi a minha escolha para mais um desafio do Dia Um... Na Cozinha. Gostei muito do resultado, tem o equilíbrio perfeito entre o doce do caramelo e a acidez dos marmelos. São servidos?



Receita inspirada no Apple Crumble do Ultimate Cookery Course do Gordon Ramsay.

domingo, 27 de outubro de 2013

Pilaf de arroz selvagem com camarão

Nos dias que correm gostava de ter mais tempo para tudo: tempo para descansar, tempo além da minha vida profissional, às vezes tempo para ser feliz, seja lá o que isso for, e tempo para ter esperança. Não acredito que basta querer. Não basta querer. É preciso que haja oportunidade para querer, é preciso também que façamos para tal mas, tal como considero o direito à tristeza um direito inalienável, considero que o ‘basta querer’ é um sofisma e muitas vezes uma grande tontice prenhe de autoajudas e outras modas que por aí andam. Não basta querer. Nos dias que correm também gostava de mais tempo para alimentar este blogue, contar histórias, publicar mais receitas que vou amontoando e que vão ficando guardadas em ficheiros por aí na esperança vã de que me volte a vontade de bloggar e a escrita se solte como em tempos passados. Hoje, em dia de descanso, fui buscar esta receita. Tive tempo e paciência e como gostei muito do resultado resolvi partilhá-la. Chega um tempo para tudo.

Pilaf de arroz selvagem com camarão

Ingredientes
1 cebola roxa média
2 dentes de alho
Tomilho
Açafrão
Pimenta cayenne
Pimenta preta
1 pau de canela
1 baga de piri-piri
Raspa de duas limas
Sumo de uma lima
Coentros
Arroz selvagem (usei dois copos pequenos)
Caldo de peixe
400 gr de camarão médio
Azeite

Preparação

Deixar descongelar o camarão, descascar e arranjar. Temperar com um pouco de sal, pimenta preta acabada de moer e sumo de uma lima. Reservar.
Pré-aquecer o forno a 200º.
Picar a cebola e o alho. Aquecer uma frigideira larga que possa ir ao forno. Deitar a cebola e o alho e o azeite. Juntar de seguida o tomilho, o açafrão, a raspa das limas, a pimenta cayenne, e a baga de piri-piri. Cozinhar uns cinco minutos até que a cebola amoleça, mexendo sempre, e juntar o pau de canela. Adicionar o arroz selvagem, mexer bem, e deixar fritar por uns minutos até que o arroz comece a ficar translúcido. Deitar então o dobro da quantidade de arroz em caldo de peixe e levar ao forno pré-aquecido cerca de 10-15 minutos até a água ter sumido. Retirar do forno, misturar os camarões cuidadosamente com um garfo para ficarem distribuídos uniformemente e, por fim, juntar os coentros picados ou cortados com uma tesoura de ervas aromáticas. Rectificar o tempero. Levar ao forno até os camarões e o arroz estarem cozinhados. Servir polvilhado com os restantes coentros picados. 


Originalmente o pilaf não é feito com arroz selvagem, já o fiz com outro tipo de arroz, mas apeteceu-me, apetece-me muito, variar. O resultado foi óptimo. Gosto da multiplicidade de sabores e que, mais uma vez, nenhum se sobreponha ao outro. Não é aconselhável a quem prefira sabores brandos e comedidos.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Frittata de alcachofras e tomate seco e uma aventura em 'língua estrangeira'

Diz Chico Buarque no belíssimo Budapeste que “devia ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira.” Naquela luminosa manhã de Fevereiro, sentada numa das mais belas praças do mundo que conheço, não fiquei incomodada por terem ‘debochado’ do meu fraquíssimo italiano. Era Carnaval, Veneza cobria-se de turistas, a maior enchente dos últimos tempos, li depois, mas nem por isso deixou de ser mágica, misteriosa, encantadoramente decadente. Sentada na Praça de São Marcos a ver o mundo passar enquanto esperava um espresso matinal fui vendo desfilar ao meu lado aquilo que cá por casa se chamam fritas, uns bolos pequenos fritos polvilhados com açúcar, algures entre filhós e sonhos, que já tivera oportunidade de ver numa outra visita à cidade, menos bela dessa vez. Curiosa e foodie que se preze quer provar quase tudo e enquanto os ditos fritos iam sendo servidos à minha volta, fui apurando memória e ouvido: memória porque a palavra já se tinha cruzado comigo da outra vez em Burano, e ouvido, porque talvez pelo ouvido lá fosse. Começava por ‘f’, disso estava certa, e certa fiquei quando me surgiu a palavra. Era aquela. Quando o empregado chegou pedi-lhe lesta os cafés e acrescentei a palavra que tanto trabalho me havia dado a procurar: frittata. E é aqui que entra o Chico Buarque. Bem-disposto e sorridente o homem confirmou ironicamente se era mesmo uma frittata que eu queria àquela hora da manhã, "debochou da minha aventura em língua estrangeira", e corrigiu-me com uma gargalhada: frittelle! Frittelle di Carnevale. Eram bons, uma delícia, souberam-me pela vida mas algo me diz que aquele cenário inesquecível bem de frente para São Marcos deu um grande contributo. A frittata foi hoje. Hoje é que foi a frittata.

Frittata de alcachofras e tomates secos

Ingredientes
2 ovos grandes
Corações de alcachofra
Tomates secos
Queijo President Snack
Alecrim
Pimenta preta
Sal



Preparação
Pré-aquecer o forno a 200º. Bater os ovos muito bem com uma pitada de sal. Cortar os tomates secos ao meio, as alcachofras em metades. Cortar o queijo em fatias médias. Picar o alecrim.

Aquecer uma frigideira anti-aderente e deitar um fio de azeite. Retirar o excesso com papel de cozinha. Deitar os ovos batidos e dispor por cima os tomates secos, as alcachofras e o queijo em forma de estrela. Temperar com a pimenta preta acabada de moer e polvilhar com o alecrim. Quando começar a borbulhar e tiver uma base sólida, levar ao forno pré-aquecido uns dez minutos. Fácil e deliciosa.



Mais um desafio do Dia Um... Na Cozinha. 


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Bolo de chocolate e frutos vermelhos para a festa da Maria

Agora que Setembro nos brinda com dias menos longos e ocasos em jeito de despedida o regresso a dias mais recatados anuncia-se sem cerimónia. Chama-me lentamente o conforto de uma tarde em casa tranquila com uma passagem breve pela cozinha e um prazer perfumado no forno, mais tarde acompanhado com uma chávena de chá. De maternidade entendo pouco, mas sinto que pouco nos faz mais feliz do que um bolo acabado de fazer pela nossa mãe. E sei que se tivesse filhos os acarinharia com o que destas mãos sai, um colo doce e carinhoso, o momento em que tudo pára e se relativiza.

Bolo de chocolate com frutos vermelhos

Ingredientes
200g de açúcar
200g de farinha
150 g de manteiga
4 ovos inteiros
2 colheres de sopa de iogurte grego (iogurte natural sem açúcar em alternativa)
2 colheres de sopa de cacau em pó
1 colher de sopa de chocolate em pó
Frutos vermelhos a gosto (usei mistura de frutos vermelhos congelados)

Preparação
Pré-aquecer o forno a 180º. Untar com margarina uma forma refratária baixa e larga. Bater a manteiga à temperatura ambiente com o açúcar até ficar um creme fofo e esbranquiçado. Adicionar os ovos inteiros um a um, batendo a cada adição e, por fim, o iogurte. Envolver a farinha cuidadosamente com uma espátula. Peneirar o cacau e o chocolate e envolver de novo sem nunca bater a massa.

Deitar na forma, pôr por cima os frutos vermelhos e levar ao forno uns vinte minutos. Depois de frio polvilhar com açúcar de confeiteiro. 

Este bolo é de fácil confecção e resulta muito bem. Ideal para quem tem preguiça ou falta de tempo para bolos de chocolate elaborados mas a quem apetece muito de repente uma fatia de bolo de chocolate fofo e saboroso. Os frutos vermelhos proporcionam o toque meio ácido para quebrar a monotonia.


Este é o meu contributo para a festa da minha querida Maria Papitas, cujo blogue comemora o segundo aniversário. O texto é-lhe inteiramente dedicado. É o colo doce e maternal que embala o blogue e nele a declaração do amor incondicional aos seus filhotes.



domingo, 15 de setembro de 2013

Salada de frango tandoori com alcachofras para quebrar a monotonia

Para uma alma geminiana como esta que vos escreve há poucas coisas tão enfadonhas, cansativas e desinteressantes como a monotonia. Dias que se arrastam sem novidades nem emoção como se fossem um enorme e longo inverno reduzem a energia geminiana a níveis mínimos, desanimados com a falta de diversidade, um bocejo rotundo à espera de melhores dias. Pode ser um livro novo para ler, um pequeno desafio profissional ou uma viagem em vista, podem também ser coisas pequenas e quase insignificantes, um je ne c'est quoi que me apimente o dia-a-dia. Na cozinha acontece o mesmo, embora a rotina e a falta de tempo ditem por vezes exactamente aquilo que me enfada: refeições de preparação rápida e sem grandes novidades. Acontece contudo que quando o consumo de saladas surgiu quase como uma imposição tive de dar largas à imaginação para evitar a enfadonha base de alface com mais uns ingredientes a coroá-la. Embora a imaginação seja ilimitada, a verdade é que salada é salada e mais ingrediente menos ingrediente, se não tiver, lá está, esse tal je ne c'est quoi, arrasta-se numa terrível maçada. Esta salada que vos trago surgiu pela necessidade de variar saladas e variar uma salada de frango. Chega de frango cozido e grelhado sensaborão. Não é aconselhável para quem não gosta de sabores com carácter mas traz-lhe um toque especial, o mesmo que necessitamos para sorrir para a vida.

Salada de frango tandoori com alcachofras

Ingredientes
1 peito de frango
1 iogurte natural sem ser açucarado
2 dentes de alho
1 colher de chá de cominhos
1 colher de chá de colorau
1 colher de chá de piri-piri
1 pitada de pimenta preta acabada de moer
1 colher de chá de açafrão
cebolinho
sumo de meio limão

Alface
Orégãos
Corações de alcachofra (opcional)

Preparação
Cortar o peito de frango em tiras, temperar com sal e reservar. Num recipiente, misturar as especiarias com o iogurte e o alho esmagado, o sumo de limão e o cebolinho picado, usei uma tesoura de ervas aromáticas, até ficar uma pasta.  Envolver o frango nesta pasta e deixar a marinar no frigorífico pelo menos duas horas.

Depois de lavada e preparada a alface, polvilhar com os orégãos e cozinhar o frango. Retirar o excesso do molho de iogurte. Aquecer uma frigideira antiaderente com um fio de azeite. Retirar o excesso com papel de cozinha. Deitar o frango e grelhar, virando cuidadosamente até ficar dourado. Deixar arrefecer um pouco, pôr em cima da alface, dispor as alcachofras e degustar. 



domingo, 1 de setembro de 2013

Galette de Zwetschgen que afinal são abrunhos

Zwetschgen. Ainda sou do tempo em que não havia grandes superfícies, centros comerciais e se vivia ao ritmo das estações, bem marcadas então. Comia-se também o que a terra e o tempo dava, a fruta da época era ainda um conceito e não havia uvas fora do seu tempo ou fruta grande e lustrosa mas sem sabor. Nesse mesmo tempo, vivia-se também na ignorância de muito do que a globalização veio trazer depois, a profusão de diferentes frutos e legumes, exóticos ou apenas desconhecidos. Quem me ouvir falar pode julgar que vivia deslocada algures num lugar ermo e sem acesso ao mundo dito civilizado, mas não. Vivia onde sempre vivi: uns meros 30 quilómetros a noroeste de Lisboa. A vida era tão diferente que muitas vezes me pergunto como eu e tantos como eu sobreviveram à pasmaceira que era ser, por exemplo, adolescente nesse tempo. Havia pouco que fazer e pouco que fosse tão estimulante como alguns dos desafios actuais. Bem, mas ao que venho prende-se com a primeira palavra deste post: Zwetschgen. Quando vejo os frutos é a primeira palavra que me vem à cabeça. Essa mesma. Em alemão. E isto porque a primeira vez que me cruzei com um fruto daqueles, afinal tão comum, foi a primeira vez que pus pé fora deste país a sério e digo a sério porque Espanha já aqui ao lado não conta, faz parte da minha matriz, faz parte da nossa, a proverbial viagem a Espanha para comprar caramelos que na verdade servia para muito mais do que isso. Foi também nessa viagem à Alemanha bem no início dos anos oitenta que terei provado pela primeira vez mirtilos, cresciam desalmados no jardim da casa onde passei duas semanas, e eram preferencialmente comidos em panquecas. Zwetschgen são afinal abrunhos verdes. Maravilharam-me naquele tempo em pequenas fatias rectangulares vendidos nas padarias e pastelarias, com Streusel, também não sei traduzir, e eram a prova de um outro mundo que fui descobrindo lentamente ao longo da vida. Foi nos abrunhos que recaiu a minha escolha para uma deliciosa galette e só não lhe chamo galette de Zwetschgen porque há limites para o desvario das palavras. Vejam se gostam.


Galette de abrunhos verdes

Massa:
300 g de farinha de trigo
200 g de manteiga gelada
3 colheres de sopa de açúcar
1 colher de chá de sal
1/2 chávena de água bem fria

Recheio:
Abrunhos verdes
Framboesas
Açúcar amarelo
Raspa de lima
Pimenta da Jamaica acabada de moer
1 colher de chá de amido de milho

Preparação
Numa tigela larga, juntar a farinha, o açúcar e o sal. Cortar a manteiga bem fria em pedaços pequenos, juntar à farinha e com um amassador manual ir conjugando todos os ingredientes até se assemelhar a uma areia irregular com pedaços de tamanhos diferentes. Juntar a água em pequenas porções e amassar apenas o suficiente para ficar mais regular. Pode usar-se uma espátula mas não as mãos. Transferir para uma superfície enfarinhada, amassar levemente com as mãos e formar um disco. Levar ao frigorífico uma hora para descansar. 
Entretanto, preparar a fruta. Lavar e cortar os abrunhos em oitavos. Misturar o açúcar e a raspa de lima para libertar o aroma e adicionar a pimenta da Jamaica. Adicionar por fim o amido de milho. Juntar os abrunhos e as framboesas, envolver, e reservar.


Passado o tempo de descanso, pré-aquecer o forno a 180º. Retirar a massa do frigorífico e, em papel vegetal anti-aderente, tender uma circunferência grande. Pegar no papel vegetal com a massa e pousar sobre uma forma de tarte. Dispor os abrunhos e as framboesas. Dobrar a parte excedentária da massa sobre a fruta e transferir a galette com o papel vegetal para um tabuleiro de forno. Pincelar com água, polvilhar com açúcar mascavado e levar ao forno cerca de 30 minutos.



Notas:
  • A massa deve ser pouco manuseada, já que o manuseamento excessivo irá comprometer a textura e consistência.
  • Os procedimentos finais devem ser firmes e rápidos, sem grandes hesitações, o calor ambiente irá provocar amolecimento da massa e tornar impossível o manuseamento.
  • Optei por esta técnica de usar uma forma de tarte para moldar para ficar mais uniforme, mas pode ser feito marcando uma circunferência na massa onde se deve deitar a fruta e dobrar a massa sobejante para dentro.



Com esta galette inicio a minha participação no grupo Dia Um... na Cozinha! O desafio deste mês de Setembro era fazer uma galette de fruta. 


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Despretensões numa simples focaccia

Na cozinha como na vida gosto de gente despretensiosa e odeio pessoas com manias e presunções e que, muitas vezes, se coloca acima dos demais. Em várias áreas da minha vida mantenho o mesmo gosto pela despretensão, e não digo pela simplicidade porque, na verdade, e no que toca a gostos, tenho dias em que a máxima ‘less is more’ não se aplica e me sinto barroca, excessiva como o barroco, apetece-me cores e arrebiques. Na cozinha, raramente me sinto barroca, arriscaria a dizer que nunca tal me acontece e se não o faço é porque nunca é sempre demasiado definitivo, demasiado drástico. Agora que os canais de cozinha vão fazendo parte das rotinas televisivas, a minha escolha recai sobre chefs que falam com o comum dos mortais e tornam a culinária uma arte acessível a todos, simples e tranquila, assim o tempo o permita, e exequível. Os Hairy Bikers incluem-se nesta categoria, embora, confesso, fossem tão despretensiosos que quase duvidei da sua eficácia culinária. Rendi-me com o Bakeation. Gosto do trocadilho do título e, amante de viagens como sou, esta ideia peregrina e mitificada de andar de mota pela Europa cabelos ao vento, parando aqui e ali para cozinhar e falar com os locais preenche sonhos antigos de adolescente, nesse tempo sem a parte da culinária. Quando um destes dias os apanhei em Itália e degustar uma focaccia em Veneza rendi-me e, mesmo sem Veneza no horizonte, meti na cabeça que havia de fazer uma ‘coisa’ daquelas. Foi hoje. Começou ontem com a compra dos ingredientes, continuou com uma ida à loja mais próxima para comprar a forma, seguiu-se uma longa e sofrida espera com os tempos de levedação e sucedeu-se uma admiração de Pigmalião perante o produto final. Depois foi tirar do forno, esperar que arrefecesse um pouco e partilhar com a alegria da novidade no mais simples dos prazeres repartidos. Um bocadinho com a vida.

Focaccia

Ingredientes

Para a massa:
500 g de farinha Pão Caseiro da Nacional
7 g de fermento de padeiro em pó
1 colher de chá de açúcar
1 colher de chá de sal refinado
2 colheres de sopa de azeite
300 ml de água morna

Para a cobertura:
3 colheres de sopa de azeite
Sal grosso
Pimenta preta acabada de moer
1 colher de sopa de rosmaninho picado grosseiramente
Azeitonas a gosto
Presunto da Baviera

Preparação
Numa tigela larga deitar a farinha, o fermento, o açúcar e o sal e envolver. Misturar o azeite com a água. Abrir uma cova na mistura da farinha e juntar a água e o azeite. Mexer com um garfo e depois unir com as mãos até formar uma bola.
Numa superfície com farinha amassar 5 minutos até a massa ficar suave e macia. Transferir para uma tigela larga untada com azeite e cobrir com uma película aderente também untada com azeite, em alternativa, untar levemente a superfície da massa com azeite e cobrir com a película. A quantidade de azeite deve ser mínima. Deixar levedar durante uma hora num local ameno até ter dobrado de tamanho.  Findo esse tempo, transferir para uma superfície com farinha, amassar com os nós dos dedos e formar um rectângulo grosseiro. Transferir para uma forma anti-aderente previamente untada com azeite e empurrar suavemente até a massa cobrir os cantos. Tapar com um pano e deixar descansar mais meia hora num local quente. Neste momento, pré-aquecer o forno a 220º.
Depois dos 30 minutos, fazer covas na massa com os dedos, cobrir com o azeite, polvilhar com sal e pimenta preta acabada de moer e o rosmaninho. Colocar as azeitonas e o presunto da Baviera. Levar ao forno 15 a 20 minutos.


Notas:
  • Na receita original a farinha usada é farinha branca.
  • A cobertura pode ser diversificada e ao gosto de cada um. Usei presunto da Baviera porque tinha em casa e achei que casaria bem com o resto. Não me enganei. 

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Uma espécie de blinis que também podem ser pikelets

Quando se decide dar uma saltadinha a uma das cidades mais caras do mundo, o local de pernoita é muito importante e obedece aos critérios impostos pelo orçamento disponível. A escolha recaiu sobre um dos edifícios históricos, construído para as Olimpíadas de 1980. De construção imponente como todas as que vêm daquele lado do mundo, o complexo hoteleiro dividia-se por três enormes torres construídas para impressionar o mundo capitalista em plena guerra fria. O primeiro embate, que isto de choque cultural está em todo o lado, foi quando na recepção fomos recebidos com a proverbial antipatia moscovita e uma dificuldade imensa em comunicarmos em inglês, obstáculo que se estenderia ao longo dos dias em Moscovo e que seria também acompanhada por uma rudeza no trato que não encontrei em mais lado nenhum do mundo. Os pequenos-almoços eram povoados por muitos turistas nacionais e a mais importante refeição do dia era opípara e farta, composta de muitas saladas e legumes. Comiam, ó se comiam. E o que comiam? Pepino e pimentos às rodelas, todo o tipo de legumes crus e saladas. Nada contra a diversidade mas a ideia de comer pepino ao pequeno-almoço não colhe adeptos por estas paragens e a ideia do frio e peso do pepino logo pela fresca a ocupar-me o estômago causa-me alguns engulhos. Mas, como em todos os lugares, há sempre algo que nos deixa saudades: blinis. Eram comidos de várias maneiras, mas eu não os dispensava com um molho espesso de frutos vermelhos e natas ácidas a acompanhar. Uma delícia.
E esta conversa toda surgiu porque a ideia dos blinis voltou quando precisei de uma alternativa para as tostas. Eu explico: tostas com queijo creme e salmão fumado são uma das minhas entradas preferidas. Contudo, passada uma hora as tostas ficavam moles e empapadas e não gosto de nada que seja mole, raramente como açorda e ensopados também não fazem parte das minhas preferências. Para obstar a esta pecha fui dando voltas pelos livros de culinária e descobri esta receita num deles. Na minha cabeça são blinis e cá em casa conhecidos como tal, embora os ingredientes não sejam os mesmos, não de todo, mas a forma lembra-me sempre uma das delícias da cozinha russa. As variações são ao sabor da imaginação. Gosto deles de várias maneiras: com paté de atum, paté de delícias do mar, com presunto da Baviera em substituição do salmão. E gosto deles com uma boa companhia, iniciando o almoço de Domingo ou ao pôr de sol de Verão enquanto as brasas se acalentam para o grelhado de Estio.

Pikelets de cebolinho com salmão fumado

Ingredientes

Para os pikelets:
125 g de farinha com fermento
2 ovos
125 ml de leite
1 colher de sopa de natas ácidas
1 pitada de sal refinado
Cebolinho a gosto

Salmão fumado
Queijo creme com ervas aromáticas
Sumo e raspa de lima ou limão

Preparação
Juntar a farinha e o sal num recipiente e envolver. Fazer uma cova no centro e adicionar os ovos levemente batidos, o leite e as natas. Mexer tudo muito bem com uma vara de arames até ficar uma massa homogénea e sem grumos, mas não bater demasiado Por fim, juntar o cebolinho cortado com uma tesoura de ervas aromáticas e deixar descansar 15 minutos.
Aquecer uma frigideira, de preferência uma de crepes. Deitar um fio de óleo de girassol e retirar o excesso e enxugar com papel de cozinha. Com uma colher de sopa deitar pequenas porções da massa. Virar quando começar a borbulhar. Repetir até acabar a massa. Deixar arrefecer.

Abrir a embalagem de salmão fumado e regar o salmão com sumo de lima ou de limão em alternativa. Barrar cada pikelet com queijo creme com ervas aromáticas e pôr o salmão por cima. Polvilhar com raspa de lima. 


domingo, 23 de junho de 2013

Ode aos vizinhos nuns meltaways de lima-limão

No dealbar da primeira década do milénio a minha vida havia de sofrer uma transformação profunda. Nessa transformação esteve presente muita gente, gente que continua a povoar a minha vida e faz dela o bálsamo e o elixir que faz tudo valer a pena, gente que está ausente fisicamente e cuja falta me dói todos os dias, gente que anda por aí mas que deixou de ter importância e uma espécie de seres curiosos e caricatos. Ela fazia parte destes últimos.
Era rotunda, usava bata em dias de fazer, como dizia a minha avó, tinha pilosidades que fariam inveja à Frida Kahlo, mas que aparava no cabeleireiro da aldeia, e o rosto marcado por um sobrolho desconfiado, benza Deus, desconfiado e opaco por onde não passaria quem faz dos dias leveza e, muito importante, quem não lhe prestasse vassalagem, a espinha curva e sorriso obediente, calhando, a cauda a abanar. Sem qualquer ponta de heroísmo, eu havia de ser uma dessas criaturas e a relação que travámos tensa e sem qualquer salamaleque da minha parte. Perguntar-se-ão porque tinha eu de suportar uma espécie daquelas. Acontece que a simpaticamente epitetada cusca era dona da casa que habitei durante um ano bem medido e, assim sendo, não tinha como fugir-lhe. Quando um dia as paredes da sua mansão emareleceram por causa da mistura explosiva de humidade e fumo da lareira, a criatura espalhou pelo mundo que havíamos grelhado chouriços na lareira. No dia em que a vi matreira bater à minha porta, esfreguei-lhe no fácies desconfiado o boato chouriceiro e ainda lhe arrematei certeira e furiosa mas estamos na Idade Média para fazer fogueiras no meio da sala? O curioso ser encheu-se de fervores ofendidos. Quem ousaria viver na sua casa, e, pasme-se, confrontá-la com a sua própria maledicência? Um dia tudo acabaria e quando fechei a porta da mansão húmida e ventosa e o meu consorte lhe estendeu as chaves, fosse eu ter-lhas-ia esfregado no semblante tisnado, terá sido um momento a recordar.
Na minha nova vida, com a cusca para trás das costas e uma casa a que chamasse minha e onde pudesse assar até cabritos na lareira, ficou desde muito cedo bem claro que a rua a que chamo de minha, minha do coração, era povoada por gente boa. Dei-me conta disso, num dia de invernia em que, depois duma chuvada, todos os vizinhos se uniram para limpar a rua, havia saibro por aí que precisava de ser removido. Os dias que se seguiram, e já lá vai uma década, foram e são dias de boa vizinhança, uma verdadeira bênção. Há bons dias e boas tardes, conversas a que se vão juntando mais vizinhos na acalmia da tarde, há os animais de cada um que são de todos, há copos que se bebem, há entreajuda e solidariedade, há preocupação, há carinho. Ontem, ao sair de casa, tínhamos um saco de enormes e belos limões, um presente dos “senhores do treze”, assim os chamo em conversa com a minha mãe para os distinguir dos outros. Hoje pela tarde calma que a escola finalmente me permitiu ter abalancei-me nestes biscoitos de lima-limão aí em baixo para partilhar com os meus adorados vizinhos. Há lá coisa melhor?

Meltaways de lima-limão

Ingredientes
175 g de margarina
1 medida de açúcar de confeiteiro (250 ml)
1 ovo pequeno
Raspa de uma lima
Raspa de um limão pequeno
Sumo de uma lima
Sumo de meio limão
2 medidas de farinha com fermento
2 colheres de sopa de amido de milho
¼ de colher de chá de sal grosso

Preparação

Misturar a farinha, o amido de milho e o sal num recipiente. Bater a margarina à temperatura ambiente com o açúcar até ficar um creme fofo. Juntar a raspa e sumo da lima e do limão. Adicionar o ovo e bater. Incorporar a mistura das farinhas e do sal. Bater apenas o suficiente para que fique uma massa homogénea. Em papel vegetal formar dois troncos de massa. Levar ao frigorífico umas duas horas ou ao congelador. Findo esse tempo, pré-aquecer o forno a 180º. Retirar os troncos de massa e com uma faca cortar em fatias. Como não gosto do aspecto tão aparado, passei um garfo para ficar com marcas em quadrícula. Levar ao forno uns vinte minutos. Retirar, deixar arrefecer um pouco e envolver com açúcar de confeiteiro. Para ficar mais uniforme, deitei o açúcar num saco de refrigeração e pus lá dentro os biscoitos envolvendo tudo com cuidado.



Receita inspirada nesta.


sexta-feira, 12 de abril de 2013

O adeus ao Inverno num bolo de chocolate com Guinness

Este blogue é feito ao sabor dos humores e ao sabor da minha inspiração. Acontece portanto que cozinho bem mais do que posto e posto bem menos do que cozinho. Cozinho todos os dias aquilo que julgo que muitos de nós cozinham: comida dita normal, sem grandes inovações, pratos rápidos que não requerem grandes cuidados, o património gastronómico que forja a identidade. Nesta voracidade dos dias tenho também momentos de lazer e deleite puro na cozinha, ao contrário dos anteriores: experiências novas e outras repetidas que por pura preguiça e falta de palavras vão ficando para trás, as fotografias arquivadas numa pasta à espera de ver a luz dos dias com umas palavras a acompanhar. 
Ontem foi dia de inaugurar a época das saladas. Mais uma vez algo sem qualquer inovação, temperado com as réstias de sol poente de uma Primavera fugidia. Se ela não falhar adivinham-se muitos dias de saladas frescas, grelhados embalados no ritmo próprio, lento, saboreado com a calmaria de existências felizes, fruta perfumada de que tanto gosto: morangos bojudos, alperces carnudos, pêssegos suculentos, ameixas sumarentas. E depois virão cerejas e uvas.E estes dias que me iluminaram e sacudiram a amargura dos dias cinzentos são dias de frugalidade e de arrumar receitas de Inverno como quem arruma roupa numa outra gaveta e que só voltará a ser usada quando os dias diminuírem, a aragem fresca soprará de novo no canavial que assiste incólume à passagem das estações e os melros recolher-se-ão até mais um estio. Este bolo é para mim bolo de dias mais frescos quando o zénite se esmorece e o ocaso se redobra em vermelhos decadentes. Ficaria pois resguardado à espera desses dias, se não o postasse agora. Muito tempo. Tempo de mais.

Bolo de chocolate com Guinness

Ingredientes
150 ml de Guinness (pode ser outra stout)
75 g de chocolate negro em barra (usei o que tinha mas quanto mais negro, melhor)
120 g de manteiga
275 g de açúcar amarelo
175 g de farinha com fermento
2 ovos médios

Preparação
Pré aquecer o forno a 180º.
Levar a lume brando a Guinness e o chocolate negro partido em pedaços pequenos. Assim que o chocolate estiver derretido, retirar do lume e deixar arrefecer.
Bater o açúcar com a manteiga até ficar um creme esbranquiçado e fofo. Adicionar os ovos um a um e bater entre cada adição. Juntar com cuidado a mistura de Guinness e chocolate e, por fim, envolver a farinha. Levar ao forno 30 a 35 minutos. Fazer o teste do palito antes de retirar do forno. 


Este bolo é indicado para quem gosta de sabores atrevidos e desafiadores. Há um toque tão diferente e tão encantatório que não sei explicar. As receitas que encontrei por aí têm todas uma cobertura de queijo creme ou similar mas porquê atafulhar sabores e texturas se a simplicidade já é tão intensa?


Receita inspirada  aqui

quinta-feira, 28 de março de 2013

Biryani de camarão


A poesia e a literatura em geral são um problema. Agarram-se a nós e não largam. Estão a ver aquelas melodias, refrões de canções ou linhas soltas que ecoam sem fim nos ouvidos? Como tenho mau ouvido para a música e canto muito mas muito mal sofro dessa mesma maleita com o que vou apanhando dos livros. São linhas soltas que ficam, passagens ou apenas versos de poemas. Desde o post aqui em baixo e da senda do ‘meu’ poema ou de um dos meus poemas preferidos que tenho estes versos da Passagem das Horas de Álvaro de Campos, o eterno poeta da minha adolescência, a matraquear-me nos ouvidos: “Trago dentro do meu coração, /Como num cofre que se não pode fechar de cheio, / Todos os lugares onde estive, / Todos os portos a que cheguei, /Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,/ Ou de tombadilhos, sonhando, / E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.” A evocação de sítios longínquos, sonhos perdidos no tempo, imagens e sabores oníricos. Se um dia for, será, mesmo que a Ásia não conste nos meus planos imediatos. Por enquanto fico-me por um biryani de camarões. ”Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei... / Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos..” Viaja-se muito na cozinha.

Biryani de camarão

Ingredientes
500 g de camarão congelado
1 cebola
1 dente de alho picado
1 folha de louro
½ colher de chá de canela
½ colher de chá de gengibre
½ colher de chá de pimenta da Jamaica
1 colher de chá de açafrão
3 sementes de cardamomo
Raspa de uma lima
Pimenta preta acabada de moer
Sal
Caju a gosto
Coentros picados
Arroz basmati

Preparação
Descongelar e arranjar os camarões. Cozer o arroz basmati com muita água e um pouco de açafrão. Drenar muito bem depois de cozido e reservar. Picar a cebola e o alho e deixar murchar com um fio de azeite. Juntar a canela, o gengibre, a Pimenta da Jamaica, o açafrão, as sementes de cardamomo e a folha de louro. Misturar bem e adicionar de seguida o camarão com a raspa da lima. Temperar com uma pitada de sal e a pimenta preta. Deixar suar mas não cozinhar demasiado para que fiquem suculentos. Juntar os coentros picados e os cajus e envolver. Num recipiente refractário, pôr o arroz bem escorrido e os camarões em camadas. Com um garfo misturar levemente. Levar ao forno bem quente dez a quinze minutos e servir.


Receita adaptada desta.

A verdade é que a cara deste biryani não é muito diferente da do pilaf algures abaixo mas o aroma e o sabor marcam a diferença. Nada como experimentar os dois.

sábado, 16 de março de 2013

Com as mãos, a pavlova


Se me perguntarem o que reparo com frequência nas pessoas, responderei as mãos. Gosto de mãos de dedos longos, gosto de mãos equilibradas com unhas quase rectas a rematar, nem demasiado longas nem demasiado curtas. Gosto de pessoas que sabem usar as mãos. Usá-las para pegar em objectos, usá-las para escrever, usá-las para abraçar, dar, receber, acarinhar. Embirro com quem usa as mãos como garras, a ganância estampada na forma de se apoderar do mundo, a falta de elegância, de calma, de prazer diminuto em cada coisa que se faz. Gosto muito das mãos. Gosto de mãos que alcançam, as mãos como pontes entre mim e os outros, entre mim e o outro, entre nós. Gosto de mãos que falam quando as palavras são inúteis. As que tocam levemente. E eu que sou de letras e falas, de rompantes sonoros, sou mulher de toques suaves, os toques que uso para consolar vidas amargas impostas por sistemas absurdos que nos violentam humilham, dizimam. São as mesmas mãos que uso para limpar uma lágrima atrevida, e as mesmas que afagam a bicharada de quatro patas, as mesmas que acariciam o manjericão ou a alfazema para passear no olfacto e assim pela leveza de momentos de inexplicável, único, efémero prazer, um tremor tão intenso que poderia ser um orgasmo mas demasiado sumário para que o seja, êxtases breves com que os deuses me presentearam. Estas mãos são as mesmas mãos que me levam cozinha adentro, as que amassam, envolvem, misturam e vestidas de delicadeza se dedicam à alquimia de transformar. É isso cozinhar. Alquimia. Prazer. Êxtase. Transformação. Com as mãos.

As mãos

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas, mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor, cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

Manuel Alegre


Mini pavlovas de chocolate com frutos vermelhos

Ingredientes:
4 claras de ovos
170 gramas de açúcar de confeiteiro
1 colher de chá de vinagre
1 colher de chá de amido de milho
25 gramas de chocolate em pó
50 gramas de chocolate em barra

Frutos vermelhos a gosto
Iogurte grego natural não açucarado

Preparação:
Pré-aquecer o forno a 150º. Bater as claras em castelo. Quando estiverem firmes, adicionar o açúcar em doses pequenas batendo entre cada adição. Continuar a bater e quando ficarem bem firmes, juntar o vinagre, o amido de milho e o chocolate em pó, com uma espátula,e, por fim, o chocolate em pedaços. Num tabuleiro, deitar colheradas do preparado de claras e levar ao forno uma hora. Findo o tempo, desligar o forno sem abrir. Introduzir uma colher na porta para ficar apenas com uma nesga aberta e deixar arrefecer completamente. 
Servir com iogurte grego e frutos vermelhos frescos. Delicioso. Com as mãos tudo se faz.


Receita inspirada aqui.

Aqui fica a minha participação na iniciativa 'Convidei para jantar' iniciada pelo blogue Anasbageri e nesta 10ª edição a cargo da doce e talentosa CNS do inexcedível Come chocolates, pequena, come chocolates. Um convidado que muito me agradou.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Momento Masterchef numa torta de chocolate


A proliferação de programas e canais de culinária foi das piores e das melhores coisas que me podiam ter acontecido. Melhor porque enriqueceu substancialmente este meu gosto de misturar sabores, mostrou-me uma panóplia de chefs que desconhecia, contribuiu para corroborar algumas certezas sobre a cozinha e estimulou a variedade cá por casa. Não me tenho dado mal. Só vantagens. A parte menos boa é que as  experiências culinárias passaram a ser sujeitas a um veredicto certeiro depois da incursão em palatos alheios. Desconfio que o apuramento de olfacto e paladar que tanto me caracterizam terá passado por osmose para o meu consorte. Adquiriu os tiques todos, a linguagem adaptou-se ferozmente e ‘flavour’ passou a ser a palavra eleita. O momento Masterchef do dia é seguido de grande risada mas de vez em quando sou avisada de que teria sido ‘chopped’ ao que respondo que aqui a minha modesta cozinha não está a concorrer para nenhuma estrela Michelin e que Michelin cá em casa só mesmo uma protuberância que me envolve a cintura. A minha grande e enorme sorte é que, por via da minha profissão, estou habituada ao escrutínio implacável de trinta almas que mudam a cada noventa minutos. Se fosse rapariga fraca de nervos e comichosa nas opiniões alheias ter-me-ia já debulhado em amuos mas se fosse rapariga pródiga em amuos jamais este post veria a luz do dia. Esta receita que hoje publico passou coxa no crivo selectivo. A ganache. Dizem-me que ficaria melhor sem ela. Teimei. Não pode. Sem ganache fica sensaborão. Mas quem sabe se a tivesse substituído por doce de frutos vermelhos não ficasse pior. Há que ouvir a crítica. E seguir a intuição. Doce de frutos vermelhos na próxima. Serei ‘chopped’?

Torta de chocolate

Ingredientes
Para a torta:
250 g de farinha com fermento
2 ovos
2 dl de leite
6 colheres de sopa de açúcar
6 colheres de sopa de chocolate em pó
50 g de manteiga.

Para a ganache:
Meia tablete de chocolate culinário
2 colheres de sopa de açúcar
1 colher de sopa de manteiga
150 ml de natas

Confecção
Pré-aquecer o forno a 200º. Forrar um tabuleiro com papel vegetal anti-aderente.
Numa tigela misturar os ingredientes secos. Fazer uma cova no meio e deitar os líquidos. Com a batedeira em velocidade baixa, misturar todos os ingredientes até ficar uma massa homogénea. Não bater demasiado. Deitar no tabuleiro e levar ao forno cerca de doze minutos.
Enquanto a massa coze, partir o chocolate em pedaços pequenos e derreter com a manteiga e o açúcar. Juntar as natas e mexer até ficar um creme liso e brilhante.
Desenformar a torta sobre um pano ou rectângulo de papel vegetal polvilhado com açúcar. Barrar com uma parte da ganache e enrolar. Colocar na tarteira e regar com a restante ganache. Deixar arrefecer e nham nham.

Receita tirada de uma "Saberes e Sabores" do tempo em que eu ainda comprava revistas de culinária. Gosto muito desta torta. É pouco doce, meio húmida, fica ainda melhor no dia seguinte e é muito fácil de fazer. 

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Pilaf de frango com açafrão


Um manto cinzento e denso, sem réstia de sol e as letras que tantas vezes vira na época da Guerra Fria, ainda na televisão a preto e branco a quem o sr. Machado mudava as válvulas de vez em quando, não me deixavam dúvidas: Moscovo.  Na televisão a preto e branco, Moscovo era sempre o lugar inatingível lá num mundo distante que divida o presente entre a terra prometida onde todos os homens tinham as mesmas oportunidades, protegidos por um estado social forte empenhado em munir os seus cidadãos com uma educação exigente e os que ruborizavam só de ouvir a palavra ‘comunismo’ soar e eclodiam em iras primárias contra o estado providência. Conheci ambas as espécies. Em casa dos meus pais sempre se foi de várias cores. Ali estava agora, na cidade outrora proibida de um país de onde vinham testemunhos que nunca coincidiam.
À chegada esperava-nos um serviço de táxi representado por uma muralha de frio: algures nos seus quarenta anos de olhos transparentes, não articulou palavra sem que lhe tivesse dirigida antes e respondeu sempre de forma lacónica. Incapaz de ceder passagem a alguém que poderia ser sua mãe e indiferente a malas e a quem as carregava, este ser gélido poderia ter funcionado como uma antecipação dos dias que se seguiram. Esta experiência foi exponenciada por um outro factor: os russos além de não rirem nem sorrirem, não falam línguas estrangeiras e quem se quiser aventurar por aquelas terras terá também de lidar com o insondável alfabeto cirílico. Muitas aventuras numa viagem só. O alfabeto cirícilo era útil para muitas coisas preciosas à sobrevivência em terras de czares e sovietes entre as quais comer. Perto do hotel havia dois restaurantes que haviam de fazer parte da nossa rotina. Incapazes de decifrar grandes tratados em cirílico, restou-nos confiar nos parcos conhecimentos de inglês das empregadas no restaurante uzbeque. Ao contrário dos outros russos – seriam uzbeques?- eram simpáticas e esforçavam-se para que nos entendêssemos. A morena ainda arranhava um inglês exíguo, a loura nem exíguo nem coisa nenhuma e foi pela mão dela que comemos uma das refeições mais reconfortantes lá no alto do mundo: pilaf.  

Pilaf de frango com açafrão

Ingredientes
Peito de frango (cerca de 500g)
1 iogurte grego (125g)
Sumo de 1 limão
1 colher de café mal cheia de canela moída
1 colher de chá de açafrão
Pimenta preta
Sal
Pimenta Cayenne
Bacon cortado em bocados pequenos
Arroz basmati
Caldo de carne
Cardamomo (3 sementes)
2 colheres de sopa de cajus (usei uma mistura de cajus e amendoins picantes)
2 colheres de sopa de pistáchios
Salsa picada
Azeite


Preparação
Cortar o frango em pedaços pequenos. Temperar com um pouco de sal e pimenta preta acabada de moer. Juntar a canela, o açafrão ( ½ colher de chá) e a pimenta Cayenne. Adicionar o sumo de limão e o iogurte grego. Marinar uma hora no frigorífico.
Aquecer uma noz pequena de margarina com um fio de azeite e fritar o arroz até ficar translúcido. Juntar o dobro da medida do arroz em caldo de carne. Adicionar as sementes de cardamomo esmagadas, sumo de meio limão e o açafrão (1/2  colher de chá). Escorrer o frango num passador para retirar o excesso do iogurte.
Aquecer uma frigideira antiaderente e fritar o bacon até ficar dourado e crocante. Se for necessário, acrescentar um fio de azeite. Retirar da frigideira e reservar.
Na mesma frigideira fritar o frango em pequenas porções para que ganhe cor. Aquecer uma frigideira e sem qualquer gordura torrar os cajus.
Mexer o arroz com um garfo e envolver o frango, o bacon, a salsa e, por fim, os cajus. Salpicar com os pistáchios e servir. 


Fiquei fã. Gostei da complementaridade de sabores e texturas: o calor da canela, a frescura do limão, o travo cítrico do cardamomo, a textura muito tenra do frango, o crocante dos pistáchios e cajus.


Inspirado nesta receita da Nigella.