Dos defeitos que me caracterizam
um deles é ‘comer com os olhos’. Se for a uma banca de fruta ou de legumes, os
olhos saltam-me sempre para os maiores, os mais lustrosos, os mais polpudos, os
que saltam ao olhar. A única coisa que me demove de escolher sempre a fruta
grande e lustrosa, a mais bonita, é o aroma. Penso a espaços que quem me vir
às compras pensará que sou cão de duas patas porque farejo tudo. Sou incapaz de comprar
fruta sem a cheirar, pelo menos a mais aromática e a cujo sabor se deixa adivinhar pelo aroma: pêssegos, maçãs, pêras,
abacaxis e meloas têm de passar pelo teste do aroma. Se o aroma não acompanhar
o aspecto atraente nada feito. Obviamente sou contra o desperdício,
completamente contra, e contra a eugenia na fruta, compreendo muito bem este movimento e apoio, mas o aspecto, ai o aspecto. Nem é tanto ter uma mancha aqui
e outra ali, é mais um ar enfezado e engelhado de quem teve melhores dias.
Cada vez mais compro fruta aqui
na aldeia em vez daquela sensaborona do supermercado, não tem passado no teste do aroma, e recorro com frequência
aos vendedores que aos fins-de-semana vendem os produtos das suas hortas. É
neles que compro batatas e cebolas e tomates também. Nada pior do que tomate a
saber a fénico e nada melhor do que tomate polpudo e adocicado, a saber a
natureza e a sol, com cebola ‘verdadeira’ e manjericão do vaso que me decora a
janela da cozinha.
Hoje fui à procura de marmelos.
Não havia na primeira vendedora, indicou-me uma outra. Quando lá cheguei, vi
uns marmelos, como as pessoas: uns pequenos e com sardas, uns mais gorduchos,
uns com uns sinais, mas nenhum, nem unzinho, sem mácula. Como as pessoas. Dizia-me a vendedora que eram da safra dela, bons e docinhos, davam para assar, fazer marmelada,
cozer. Dei-lhes uma volta, meti-lhes o nariz e trouxe um quilo e meio. Eram
mesmo bons. Macios e aromáticos e o resultado foi melhor do que o esperado. Nunca se deve julgar um livro pela capa. Nunca se deve julgar a
fruta pela cara. Estou quase convencida.
Crumble de marmelos caramelizados
Para a cobertura:
150 g de farinha
75 g de manteiga gelada cortada
em cubos
3 colheres de sopa de açúcar
mascavado
3 colheres de sopa de flocos de
aveia
1/2 colher de chá de canela
6 marmelos (5 em pedaços e um
ralado)
6 colheres de açúcar
Pimenta da Jamaica
Canela a gosto
Sumo de uma laranja
Vinho do Porto branco
Preparação
Pré-aquecer o forno a 200º
Para fazer a cobertura, juntar
num recipiente a farinha, o açúcar e a canela. Adicionar a manteiga e misturar
com as mãos, criando uma mistura semelhante a migalhas. Juntar por fim os flocos
de aveia e reservar no frigorífico.
Descascar cinco marmelos e cortar
em pedaços grosseiros não muito grandes. Ralar um marmelo.
Numa frigideira, deixar o açúcar
em lume brando até começar a caramelizar. Adicionar o marmelo ralado e
cozinhar 2 a 3 minutos. Juntar os restantes marmelos cortados em pedaços,
canela a gosto, uma pitada de pimenta da Jamaica e o sumo de laranja. Envolver
bem e deitar o Vinho do Porto. Deixar amolecer os marmelos e transferi-los para
um recipiente refractário. Retirar a cobertura do frigorífico e espalhar por
cima dos marmelos. Levar ao forno até ficar dourado.
Este foi a minha escolha para mais um desafio do Dia Um... Na Cozinha. Gostei muito do resultado, tem o equilíbrio perfeito entre o doce do caramelo e a acidez dos marmelos. São servidos?
Receita inspirada no Apple Crumble do Ultimate Cookery Course do Gordon Ramsay.
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