Todos temos fases na vida e fases de vida. Estas
minhas fases não são períodos de transformação exterior, não correspondem a
mudanças de vida, não se podem balizar por acontecimentos extrínsecos casuais.
Todas elas confluem num único factor: viajar. Passei pela fase cubana, desde
Agosto último que ando na fase irlandesa, terei passado de forma mais breve
pela fase cabo-verdiana também e sei que me esperará mais uma destas fases assim eu possa pegar em
mim e dar uma volta fora de portas ou ter projecto para isso.
Estas fases caracterizam-se por
manias que se acumulam mas todas elas se resumem a: um, viajar; dois, ler
muitos autores das nacionalidades dos países eleitos; três, soar o alarme
sempre que me surgem palavras escritas ou faladas desses mesmos locais; quatro,
incessantes buscas online e quinto, ouvir
música dos mesmos países quase obsessivamente. Esta última aplica-se com muita
parcimónia à minha fase irlandesa mas cumpriu-se com uma disciplina reverenda
na fase cubana.
A minha fase cubana terá sido a
mais forte. Começou na passagem de ano em que voei pela primeira vez para a
pérola das Caraíbas, cumpriu-se no dia em que sozinha vi Buena Vista Social Club , e digo sozinha porque estava duplamente sozinha, desamparadamente só, estendeu-se até uns anos depois com uma semana em Havana e
foi-se perpetuando na música que ouvia sem parar, livros e livros de autores
cubanos que fui lendo avidamente e memórias daquela semana de Junho, mais
intensa que a de Dezembro porque os sítios nunca são apenas os sítios, os
sítios são o que nós somos naquele momento naqueles sítios e as pessoas que a
nosso lado calcorreiam os mesmos trilhos. Regresso muitas vezes a Cuba.
Regresso-lhe sempre que passo a mão pela hortelã que cresce desmedida, que a
fragrância do rum Havana Club Añejo Blanco se solta de um mojito e sempre que
da janela da alma ouço Ibrahim Ferrer a cantar 'Dos Gardenias' e ouço-o muitas vezes.
A minha fase mais duradoura não
sei se se deixará epitetar por fase. Começou desde que me conheço, foi-me dada
pelos hábitos gastronómicos da minha avó paterna, prolonga-se na deliciosa
feijoada à brasileira pela mão exímia da minha mãe e todos os dias me lembro
dela. É trunfa superlativa, as ancas largas e as coxas grossas. É o meu pai que me falta. É o António
Carlos Jobim a cantarolar Olha que coisa mais linda…, a Bethânia com o 'Reconvexo' e os olhos cristalinos de Chico Buarque passeando-se no Calçadão. São os livros que recebo por mão amiga e carinhosa daquele lado do mar. Imortalizou-se no dia de Março em
que sobrevoei o Rio de Janeiro e renasce em todos os momentos em que solto a alma e em que a
fragrância da lima se liberta. Cozinhar raramente é transformar ingredientes apenas. Viaja-se muito também. Encontramo-nos muito também.
Cheesecake de lima
Ingredientes
1 lata de leite condensado
2 pacotes de queijo-creme para barrar (usei Philadelphia)
1 iogurte grego natural sem ser açucarado
6 folhas de gelatina
Sumo e raspa de 3 limas médias + raspa para decorar
Base:
2 pacotes de bolacha de aveia
120 g de margarina
Preparação
Demolhar as folhas de gelatina em
água fria e reservar. Para a base: amolecer a margarina. Numa picadora ou robot
de cozinha picar as bolachas até ficar uma areia grossa. Juntar a margarina e
misturar tudo muito bem. Deitar numa forma de mola e com os dedos criar uma
camada uniforme. Reservar. Bater o leite condensado com a raspa das limas, o
queijo creme e o iogurte. Derreter as folhas de gelatina em água a ferver
(cerca de duas colheres de sopa), deixar arrefecer um pouco mexendo sempre,
adicionar o sumo das limas e juntar ao preparado de leite condensado, queijo
creme e iogurte. Deitar por cima da base de bolacha e polvilhar com raspa de lima a gosto. Levar ao frigorífico de um dia para o outro.
Para aumentar a receita, pôr mais
um iogurte e mais uma folha de gelatina.
Este cheesecake, além de me levar a viajar, está no meu top de doces preferidos. O contraste do sabor cítrico e perfumado da lima com a cremosidade da textura faz as minhas delícias. Gosto de diversidade. Exactamente como na vida.

