segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Bolo de pêssegos e o dia sem dieta


Quando se juntam numa mesma criatura o prazer da mesa, a tendência para acumular por várias partes do corpo tudo o que se ingere, sim, ela existe, não é mito e não me venham com os conselhos sobre como comer que a minha prática daria uma equivalência em qualquer curso de nutricionismo, o deleite da cozinha e, para rematar, a idade, o resultado é não raras vezes um conflito bélico onde numa só e desesperada pessoa os quatro andam à estalada. Quando fui às compras de manhã precavi-me e forneci-me de uns belos pêssegos aromáticos dos que largam o caroço e uma base de massa folhada. Apetecia-me um doce e meti na cabeça repetir a tarte tatin mas desta vez de pêssego. Antes da hora do almoço e enquanto preparava o dito continuou a apetecer-me muito uma sobremesa. Acontece que o meu grilo falante deu-me mais uma preleção sobre os assuntos do costume: a idade, as ancas imensas, o peso, blá blá blá. Resisti a tudo o que tinha trazido do supermercado. À hora do almoço voltei a lembrar-me de que não havia nada para rematar a refeição tranquila de Domingo, dia por excelência de preguiças várias. No fim do almoço, senti-lhe a falta, declarei alto e bom som que Domingo passaria a ser o ‘no diet day’ doravante e umas horas depois abalancei-me na cozinha e derrotei este malvado conflito sem saber quem derrotei afinal. Vencida, deitei mãos à obra. Por aquela hora já não me apetecia a tarte tatin e resolvi-me por uma invenção: em vez da folha de massa folhada, fiz um bolo, inspirada no opíparo bolo de bananas da minha mãe e que é o meu bolo de aniversário há uma década bem medida e derramei a massa sobre a mistura do caramelo e dos pêssegos. O resultado é o que se vê. Ficou muito bom, com o equilíbrio perfeito entre os vários sabores: o doce do caramelo e o ácido dos pêssegos rematado com a textura suave do bolo, no ponto exacto. Não devia ter experimentado, fiquei com vontade repetir. Xô, grilo falante! Vade retro, bicho malvado!

Bolo de pêssegos e caramelo

Ingredientes

Para o caramelo:
150 g de açucar
50 g de margarina

Para o bolo:
250 g de açúcar
200 g de farinha
150 g de margarina
5 ovos

Pêssegos a gosto
Vinho do Porto branco

Preparação
Começar por descascar os pêssegos e cortá-los em oitavos. Dispor numa frigideira de 28 cm com o açúcar e a margarina. Reservar. Entretanto preparar a massa do bolo: amolecer a margarina, juntar o açúcar e bater até ficar um creme. Adicionar os ovos um a um continuado a bater com a batedeira e, por fim, acrescentar a farinha. Reservar.
Levar a frigideira com os pêssegos ao lume e deixar o açúcar caramelizar. O processo é lento, contudo, a caramelização é rápida. Quando estiver caramelizado, borrifar com Vinho do Porto branco e retirar do lume. Deitar a massa do bolo por cima e levar ao forno pré-aquecido a 190º cerca de vinte minutos. Deixar arrefecer e servir. Esta é a técnica da tarte tatin mas desta vez apeteceu-me variar com massa de bolo. Podem usar-se outras frutas, maçãs, alperces, ananás ou banana, assim. mandem o gosto e a imaginação.


Depois de tanto tempo ausente, eis-me de volta.

domingo, 22 de julho de 2012

Muffins de azeitonas com cebolinho em boa companhia

Escrever num blogue de culinária não é escrever como em qualquer outro blogue. Não vive da actualidade, vive apenas parcialmente das nossas vidas, uma parte pequena que no meu caso tem sido devorada pelo dealbar de uma vida que se prevê muito diferente e uma série de alterações que mais parecem a montanha-russa. Felizmente nada de grave. Há alturas em que muito muda e esta parece ser uma delas.
Escrever num blogue de culinária só vale a pena se trouxer algo de novo, e requer um espírito diferente. Não me basta uma imagem ou uma frase ou um texto apenas. Tal como na cozinha, gosto de textos suculentos que nos deixem saborear substantivos e sentir o perfume dos adjectivos. Tal como na cozinha, eles nem sempre surgem e tenho-os visto recolherem-se atrás das hortênsias. Não adianta correr para os apanhar. São fugidios como os gatos e um gesto mais brusco resulta num repuxo de palavras que não consigo apanhar. Tem sido assim.
Neste últimos tempos tenho cozinhado, experimentado algumas coisas, mas tem-me faltado o momento em que depois de confeccionado, provado e aprovado me deixo vaguear entre as palavras.
Hoje foi, pois, o dia de quebrar o jejum e regressar aqui. Uma duplicação de uma receita já aqui publicada com algumas alterações: apostei nas azeitonas e cebolinho e iogurtes naturais magros em vez do buttermilk e não me arrependi. A textura melhorou significativamente e o sabor da farinha de milho ficou mais ténue. Fi-los para um almoço de amigos, tão chegados que são família e tenho a certeza de que a boa companhia me terá ajudado ao regresso a estas palavras. São uma dupla imbatível: amigos e comida. A vida é sempre melhor quando se tem alguém com quem a partilhar. Tal como a comida.

Muffins de azeitonas com cebolinho

Ingredientes
1 1/2 chávena de farinha de trigo com fermento
1/2 chávena de farinha de milho
1 colher de chá de bicarbonato de sódio
sal a gosto (refinado)
pimenta preta acabada de moer
2 iogurtes naturais magros (usei marca branca Continente)
5 colheres de sopa de azeite
1 ovo
azeitonas
cebolinho

Preparação
Pré-aquecer o forno a 190º. Numa tigela juntar os ingredientes sólidos e reservar. Numa outra tigela bater com uma vara de arames os iogurtes, o azeite e o ovo. Incorporar nos ingredientes sólidos com uma espátula de silicone. Adicionar cebolinho cortado em pedacinhos pequenos, usei uma tesoura de ervas aromáticas e, por fim, as azeitonas também em pedaços pequenos. Podem também usar-se azeitonas em rodelas. Envolver com cuidado mas sem bater. 
Com um colher de gelado, deitar uma porção nas formas de silicone e levar ao forno cerca de 20 minutos. Ei-los:



Variações: fiz duas receitas e na primeira pus bacon e orégãos. No meu plano de intenções estão pedacinhos de salmão e talvez coentros. Numa outra altura.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Tarte tatin de alperces e o veredicto final



Os antigos explicaram muito bem essa pulsão, pulsão? Não deve ser pulsão, mas esse sentimento subliminar de os filhos quererem casar com as mães, as raparigas quererem casar com os pais. Não sei contudo se terão explicado o enlevo e protecção que se direcciona das mães para os filhos homens e dos pais para as filhas mulheres, se bem que estes últimos são mais fáceis de explicar, os anteriores carecem de explicação outra que não seja uma ciumeira desalmada daquela outra marmanja que vem roubar a atenção primeira e única que os meninos dedicam às suas mães, mesmo quando já são barbados e têm vidas independentes. E tudo isto é muito pior se a marmanja a quem o miúdo barbado entregou o coração e a gestão de meias e cuecas souber cozinhar. Foi o que me aconteceu. Não que o filho que não tenho se entregasse a uma galdéria com manias de chef. O filho da minha sogra é que se entregou a uma dessas com ar de quem não dá uma para a caixa mas que gosta de cozinhar. Custaram-me muitos anos, e quantos, e alguns cozinhados para que ela proferisse um Está bom! Devia ter assinalado esse dia no calendário e decretá-lo o meu próprio e pessoal feriado, uma verdadeira vitória que se não fosse por puro pudor teria pedido para repetir mais alto Como? Nos dias que correm lá vou conseguindo um sorriso e esporadicamente um elogio. Já o meu sogro é mais imediato e generoso nos comentários e tem um palato apurado. É um bom garfo e repara nos detalhes. Acontece portanto que sempre que cá vêm ou sempre que lá vamos não facilito nas iguarias e esta mania da perfeição que me assiste a espaços transforma-se no peso que, qual Atlas, transporto cozinha afora e cozinhados adentro. Desta vez e aproveitando a época dos alperces, provavelmente a melhor fruta do mundo, sou doida pela polpa carnuda, o sabor meio acre e a cor alaranjada, resolvi fazer uma tarte tatin de alperces. Éramos seis adultos à mesa e um adolescente. E esperei o veredicto. Três disseram que estava óptimo, três não disseram coisa nenhuma e outro não comeu. Quem terá dito o quê?

Tarte tatin de alperces

Ingredientes
125 g de açúcar
50 g de margarina
1 embalagem de massa folhada refrigerada
Alperces (deitei a olho, mas foram muitos)

Preparação
Pré-aquecer o forno a 180º. Retirar a massa folhada do frigorífico. Lavar os alperces, cortá-los a meio e retirar o caroço. Reservar. Numa frigideira ou forma redonda derreter a margarina com o açúcar quase até começar a caramelizar. Atenção que a partir de certo momento carameliza muito rápido e o caramelo pode ficar muito forte e amargo. Juntar os alperces e deixar cozinhar um pouco, mas não demasiado para não se desfazerem. Barrar ou pincelar os lados da frigideira ou da forma com margarina. Colocar a massa folhada por cima dos alperces e aconchegá-la na forma. Levar ao forno cerca de 20 minutos até a massa folhada ficar dourada. Retirar do forno e desenformar com firmeza. Se necessário reajustar os alperces na tarte.
A acidez dos alperces torna-se mais perceptível e contrasta na perfeição com a doçura do caramelo, indicado para quem gosta de sabores fortes e pouco recomendado para crianças. Não me desiludiu. Ver se não me esqueço de uma bela bola de gelado de baunilha para a próxima.



terça-feira, 5 de junho de 2012

Cookies de chocolate e a festa derradeira

Era baixo, louro, adorava futebol, era tímido e discreto, provavelmente o mais velho da turma mas terá sido ele que algures perto do Natal sugeriu que se fizesse uma festa. Aproveitei a ocasião para os apresentar aos costumes gatronómicos alemães em tempo de Natal e não correu mal. Nessa festa houve Lebkuchen, Spekulatius de canela e umas Stollen pequenas, a única iguaria alemã que cá chega. Trouxe para a casa os Lebkuchen. Ainda os havia por cá quase um ano depois mas dos Spekulatius nem migalha. Aprovados. 
Depois desse dia de Dezembro tardio e frio, em que, desconfiada, achei que não haveria festa nenhuma e que os alunos presentemente não ligavam a festas que envolvessem aulas e professores, instituiu-se, para meu grande espanto, na minha turma de Alemão, a festa de final de período. E assim foi durante estes dois últimos anos.
Uns dias antes, às vezes na véspera, surge a pergunta sacramental, uma semi afirmação à espera da minha confirmação Então e a nossa festa? Stora, temos de fazer a nossa festa! Chegado o dia, cada um traz o que tem ou o que se lembrou, às vezes quotizam-se para comprar bebidas e outras trazem bolos caseiros feitos por elas. Acontece que este ano em vez de ir a correr comprar tudo pronto a comer, abalancei-me a fazer-lhes uns cookies de chocolate. A primeira vez adoraram, a segunda idem e hoje quando lhes perguntei Então e amanhã, querem outros biscoitos ou faço os de chocolate? A resposta não podia ser mais convicta: Não, stora, os de chocolate! Sorrisos largos com a leveza de quem tem o mundo pela frente. Largaram uns comentários elogiosos aos pequenos rochedos de chocolate e foram-se com a urgência de quem tem o mundo à espera. Num bocado de tarde entre uma e outra tarefa profissional, adentrei a cozinha e fiz os tão desejados cookies de chocolate para mais uma festa, desta vez a derradeira. Amanhã é a última aula. Terão sido por isso os últimos que lhes fiz e amanhã estarei forte como sempre me conheceram: de aparência robusta como os meus cookies de chocolate e no meio suave e frágil, como eles também. Também somos o que cozinhamos. Quando tiverem saído apanharei silenciosa as minhas próprias migalhas.

Cookies de chocolate

Ingredientes
250 g de farinha com fermento
90 g de chocolate em pó
1 colher de sopa de fermento
100 g de açúcar
100 g de flocos de aveia.
200 g de margarina
1 ovo
100 g de chocolate culinário

Preparação
Pré-aquecer o forno a 180º. Derreter a margarina e deixar arrefecer um pouco. Misturar os ingredientes secos numa tigela larga. Adicionar a margarina derretida e envolver bem. Juntar por fim o ovo inteiro e o chocolate cortado em pedaços pequenos. Fazer bolinhas pequenas e levá-las o forno num tabuleiro forrado com papel vegetal cerca de 15 minutos.




sábado, 2 de junho de 2012

Biscotti de avelãs e limão e os caminhos do amor


Se há coisa que faço mal é cortar pão. Por muito que me esforce, tal como confessado aqui, sou incapaz de cortar uma fatia de pão como deve ser. Sai sempre mais grossa no final do que no início ou vice-versa, às vezes com um recortado que nem sei muito bem como consegui e outras com um pedaço a mais ou a menos. Peçam-me outras coisas que serão feitas com mais perfeição mas caso ousem pedir-me essa tarefa tão mundana e aparentemente tão simples saibam que correm o risco de sair algo parecido com uma fatia de pão mas jamais uma fatia de pão direita e perfeita. Na verdade esta falta de jeito também me assiste no que ao pão-de-ló diz respeito e a outros bolos assim fofos.  Nada a fazer portanto. Nem eu sei explicar o que corre mal mas se puder correr mal certamente correrá, a lei de Murphy aplicada à minha total incompetência em cortar uma simples fatia de pão.
Quando esta semana a proposta do grupo Dorie às Sextas me surpreendeu com uns Biscotti de Amêndoa, e depois de lido e escalpelizado o modo de confecção, eis que se me colocava o desafio dos desafios: os danados dos biscotti, além de irem duas vezes ao forno, daí o nome biscotti e de engordarem, já se sabe, tinham de ser cortados, valha-me Zeus e Gargântua, cortados como se corta pão, com faca de serrilha e o rigor que se deve dar a tudo o que se quer belo para ser apetitoso. Os olhos comem, ó se comem.
 E enquanto estava aqui nesta conversa, sinto o alerta das gatas, de orelhas perfiladas e olhar concentrado, e ouço a chave na porta. Era ele. Só podia. Só podia ser o meu consorte. Estou safa, pensei. Nada disto teria interesse caso não fosse ele, ao contrário de mim, um mestre na arte de bem cortar pão. Disse-lhe Preciso da tua ajuda. Ele entra na cozinha, olha para os dois troncos que haviam de se de transformar em biscotti com desconfiança. Ninguém diria que daqueles pedaços de massa informe e de tonalidades esbranquiçadas sairia algo agradável. Explico-lhe o procedimento e ele supervisiona a tarefa, dando-me conselhos e dicas. Eu sabia que estava safa. O amor faz milagres, já se sabe. Até nos meus biscotti de avelãs e limão. 

Biscotti de avelãs e limão

Ingredientes
A escolha dos ingredientes obedeceu ao critério único do que havia disponível cá em casa. Não havia farinha de milho, mas havia farinha de trigo. Não havia amêndoas, mas havia avelãs. Não havia essências de coisa nenhuma, nunca há cá em casa, mas havia uns enormes e voluptuosos limões vindos directamente com todo o carinho do limoeiro dos vizinhos e que esperavam o momento certo para mostrar do que são feitos limões saloios, região por excelência de limoeiros frondosos e exuberantes, orgânicos e tratados com a calmaria do campo.

1 chávena de açúcar
2 chávenas de farinha de trigo com fermento
1 chávena mal cheia de gérmen de trigo
100 g de margarina
3 ovos
¾ de chávena de avelãs
Raspa de dois limões.

Preparação
Ligar o forno a 175º. Derreter levemente a margarina. Numa tigela larga deitar o açúcar e a raspa de dois limões. Com uma espátula misturar o açúcar e a raspa de limão. Juntar a margarina morna e bater com a batedeira até ficar um creme esbranquiçado. Adicionar os ovos um a um e, por fim, deitar a farinha de trigo, depois o gérmen de trigo. O gérmen de trigo foi uma solução de recurso porque a massa estava demasiado mole para ser moldada. Com uma espátula envolver as avelãs.
Num tabuleiro de forno e sobre uma folha de papel vegetal dividir a massa em dois rectângulos longos mas estreitos. Levar ao forno durante cerca de 15 minutos. O tempo de cozedura é muito importante. A massa não deve ficar demasiado cozida. Retirar do forno, colocar sobre uma outra superfície, usei uma simples tábua de cozinha, e esperar uns vinte minutos, até ficar quase frio. Cortar em fatias e levar ao forno mais 15 minutos. 


sexta-feira, 1 de junho de 2012

Biscotti Teaser


Mais um desafio do Dorie às Sextas. Não estão tão lindinhos? Receita e texto seguem amanhã.

sábado, 26 de maio de 2012

Prazeres da vida e uns brigadeiros de coco


Chegada a minha vez esperava-me o médico que já vira várias vezes, de sorriso e braços abertos, é bom ter médicos que nos tratam bem, e a quem confiei várias vezes a tarefa de supervisionar o meu peso. De todas as confissões anteriores havia uma que se me tinha escapado, talvez porque nunca a considerei muito importante ou apenas porque a tenha sentido uma parte de mim, tão intrínseca como o cabelo selvagem ou os modos abruptos quando o humor se me enche como maré alta e rebenta em vagas furiosas. E sem saber por quê acabei por lhe dizer Sabe, doutor, é que eu gosto muito de cozinhar. Ele riu-se e respondeu Mas pode, cozinhar pode… ao que concluí Pois, não posso é comer. Ora acontece, como já terei confessado por aí, que cozinhar e o prazer da mesa andam de mãos dadas para mim, e admito que tenho uma certa desconfiança por quem depenica comida e a olha o prato à sua frente com ar de enfado ou náusea. Gente estranha. Associo sempre o prazer de comer aos prazeres da vida. Acontece ainda que se tiver convidados cá em casa tenho um medo incontrolável de que a comida não chegue e que os comensais se entreolhem com o estômago a reclamar e mentalmente me dirijam impropérios por tamanha frugalidade ou avareza ou incapacidade de calcular quantidades. Outras vezes não é apenas a quantidade que se me ataca, é a diversidade. Detesto refeições monótonas em dias de festa, refeições onde não há escolha e não se pode saltitar entre os folhadinhos de farinheira e os triângulos de chouriço ou entre a mousse de abacate e o bolo de chocolate. Foi exactamente por isto que depois de ter decidido a ementa de aniversário da minha mãe, atendendo aos seus pedidos e gostos e que cumpriria escrupulosamente, achei que faltaria algo doce para mesclar com o sabor meio acre do café no fim da refeição. Deitei mãos à obra e depois de umas voltas pela net para inspiração, nada, nos dias que correm, é totalmente inovador, lembrei-me de fazer brigadeiros de coco. O prazer de cozinhar que me cutucou outra vez e a necessidade vital da escolha e da diversidade. E provei-os evidentemente. Eu avisei que estava tudo ligado.

Brigadeiros de coco

Ingredientes
1 ½ lata de leite condensado
2 colheres de sopa de margarina
200 g de coco + coco para envolver os brigadeiros.
1 cálice pequeno de whisky

Preparação
Num tacho deitar o leite condensado, o coco e a margarina. Levar a lume brando mexendo sempre para não deixar queimar e envolver bem os ingredientes. Juntar o whisky e continuar a mexer até fazer estrada no tacho.
Deitar de seguida num recipiente e deixar arrefecer. Depois de morno ou frio enrolar bolinhas e envolvê-las no coco ralado. Levar ao frigorífico. Uma meia hora antes de servir retirar do frigorífico para reganhar sabor e melhorar a textura.
Todos comeram e ninguém se queixou.



sábado, 19 de maio de 2012

Fruta da época e uma mousse de morangos

Gosto de me ver como uma não nostálgica com a mania de que o passado deve ficar arrumado lá onde acomodamos com carinho o que já nos serviu, o que fez de nós quem somos mas que deve repousar no berço das coisas adormecidas, embalado por memórias felizes de tempos que não voltam. Gosto de olhar para mim como alguém que olha para a frente, mais para a frente e muito pouco para trás. Acontece que entre o que achamos que somos e o que somos na realidade existe um hiato. Dias há em que pensamos que o conseguimos resolver e outros em que o sentimos como um rio intransponível e a outra margem, a margem que achamos que somos, incapaz de ser alcançada. Acontece muito.
 Fui chamada ao passado pelos morangos quando um destes dias me cruzei com eles nos meus afazares domésticos. Carnudos, vermelhos e aromáticos são um festim para esta que come com os olhos e tem faro de perdigueira, uma falta a que não sei fugir, e fiquei incrivelmente nostálgica dos tempos em que havia fruta da época anunciada nos menus dos restaurantes, porque na verdade a única fruta disponível era a da época.
Nesses tempos, a fruta da época abria sempre um novo ciclo e a espera por esses momentos era feita com labor e ansiedade, a felicidade suprema quando os primeiros frutos surgiam nas bancas da praça, sem formatações nem brilhos adicionados, com os defeitos com a que a natureza os tinha parido. Laranjas e maçãs eram sempre fruta de Inverno, de recolhimento, aquecedores e humidade, e manhãs de nevoeiro gótico por aqui onde o sol se enchia de caprichos de fêmea e fazia aparições esporádicas de diva dominadora. Uvas eram fruta de Outono, o indício de que um tempo acabara. O tempo das tardes e noites longas, de roupas leves e corpos soltos. Um ciclo de inconsequências e felicidades efémeras, a transitoriedade do que se quer eterno chegara ao fim. Antes das uvas e das laranjas e maçãs, havia morangos e depois dos morangos, os pêssegos e as ameixas coroadas com o zénite do Verão. Os morangos marcavam o início do tempo quente, como eu gosto, a alvorada do sonho e a promessa de levezas várias, despreocupações múltiplas de corpos ao sol, tisnados de salgadiço, perfumados de maresia  e beijados longamente pelo sol em tardes sem fim no areal imenso que me viu crescer. Que saudades do tempo dos morangos. Desse tempo de morangos. Do meu tempo de morangos.

Mousse de morangos 

Ingredientes 
1 lata de leite condensado 
4 iogurtes gregos naturais sem açúcar (usei marca branca) 
6 folhas de gelatina 
500 g de morangos + morangos a gosto 
Bolacha torrada 

Preparação 
Demolhar as folhas de gelatina em água fria. Lavar os morangos e reduzi-los a puré numa liquidificadora. Bater o leite condensado com os iogurtes. Juntar o puré de morangos. Derreter as folhas de gelatina em água a ferver e incorporá-las depois de bem diluídas no preparado anterior. Deitar tudo numa taça e adicionar por cima morangos cortados em cubos pequenos. Levar ao frigorífico de um dia para o outro. No momento de servir, moer bolacha torrada a gosto e espalhar por cima.


quinta-feira, 19 de abril de 2012

Paella ou a felicidade da partilha


Uma mulher acabada de casar traz consigo quase todos os sonhos do mundo. Desliza pelos dias fora com a leveza da felicidade menina, a extensão de momentos indizíveis votados apenas às mulheres. O casamento é das mulheres. São elas que se transfiguram num ritual iniciático alimentados de esperanças e ilusões. E julgam nesse efémero momento transcendental que a vida será não mais do que a poesia que se liberta do breve instante em que de braço dado com o seu pai, o homem primeiro, desliza de sorriso tímido e transbordante rumo a uma nova vida. O aroma indefinível da plenitude paira no ar como um manto protector dos tontos felizes, ingénuos tolos, os que assumem que o resto das suas vidas não será se não uma extensão dos sorrisos e afectos do dia primeiro.
Uma mulher acabada de casar usa o sonho do amor como véu e cuida do bouquet de expectativas como o enleio das flores belas e frágeis. Julga-o eterno.
Uma mulher acabada de casar é um cadinho de esperança de amores partilhados e românticos. E é feliz.
Eu como todas as mulheres acabadas de casar tinha em mim todos os sonhos do mundo e o prazer de o partilhar com os amigos. Houve almoços e jantares para os mais íntimos, a total dedicação à cozinha.
Éramos todos à mesa e o dia estava cinzento. O almoço foi paella. A primeira que terei feito na minha vida e o primeiro prato que servi como mulher casada, anfitriã no meu castelo de sonhos. Todas as paellas são desde então a celebração desse ensejo. O amor deve ser partilhado. Só partilhado é amor.


Paella

Ingredientes
150 g de bacon cortados em pedaços pequenos
1/2  chouriço de carne (geralmente compro de Seia)
1 cebola grande
Alho picado
200 g de carne de porco cortada em cubos pequenos
200 g de carne de vaca cortada em cubos pequenos
Mexilhões (deito a gosto, sem fazer a menor ideia da quantidade)
Camarão (exactamente como os mexilhões)
 2 copos de arroz para risotto.
Azeite
Sal
Pimenta preta
1 colher de chá de açafrão.

Preparação
Cozer os camarões em bastante água com sal. Depois de cozidos, retirá-los para arrefecer e reservar a água em que foram cozidos. Num recipiente para paella ou numa frigideira funda com pegas redondas que possa ir ao forno, deitar um fio de azeite. Deixar aquecer e juntar o bacon e o chouriço cortados em pedaços. Quando começar a frigir, adicionar a cebola picada, o alho e meia folha de louro. Deixar que a cebola amoleça sem refogar e ganhe os aromas do bacon e do chouriço. Juntar depois as carnes temperadas levemente com sal, alho picado e pimenta preta e deixar fritar em lume brando mexendo de vez em quando.
Adicionar os camarões e os mexilhões congelados. Depois de cozinhados, acrescentar o arroz para risotto, deixar fritar e envolver muito bem com todos os ingredientes. Juntar a água de cozer os camarões e o açafrão diluído na água. Para os dois copos de água pus três de água. Continuar em lume brando mas deve ter-se cuidado e mexer levemente de vez em quando. Provar e rectificar os temperos. Quando o arroz estiver praticamente cozido, levar ao forno pré-aquecido a 200º. Servir quando estiver pronto, o arroz deve estar cozido mas um pouco húmido. 
Esta receita é o resultado de uma década de paellas. Já acrescentei outros ingredientes como frango, lulas ou ameijoas. Já experimentei com outros tipos de arroz, agulha ou carolino, mas com o de risotto fica infinitamente melhor.  Recomendo. Gosto de fazer mudanças, os ingredientes podem variar um pouco e as porções são muitas vezes a ‘olho’, a maneira como funciono melhor. Não acrescento nunca ervilhas, embora a paella original as tenha. Desta vez levou meia malagueta para lhe dar um toque atrevido.
É um dos meus pratos preferidos. É quente, retemperante, variado e colorido quer pela riqueza dos ingredientes quer pelo açafrão.  É a minha paella.



Esta história e a receita foram escritas para  O Bolo da Tia Rosa que está a festejar o primeiro aniversário do blogue. Os meus parabéns para a Mané.

sábado, 14 de abril de 2012

A vida na aldeia e um bolo de morangos



Dizem-me que a cidade me falta e que bastarão uns fumos poluentes logo ali na Calçada de Carriche para que se me libertem os humores e os meus dias se encham de sol. A cidade falta-me, é verdade. Falta-me muitas vezes. Faltam-me os lugares-comuns da luz de Lisboa e falta-me o bulício de cidade, pessoas que se cruzam de um lado para o outro, correrias e idiossincrasias várias. Não que me sinta citadina ou urbana mas as grandes urbes são como ímans onde sonho sempre regressar.
A vida na aldeia não é como a vida na cidade. A vida na aldeia é comandada pelos passos lânguidos de um tempo muito próprio, de uma outra dimensão, como se as horas tivessem uma medida de tempo oculta vagarosa, uma clepsidra feita de vagares que se alternam noite e dia, e se alongam entre conversas várias no meio do largo ou em plena rua indiferentes a carros ou quaisquer outros veículos. Na aldeia reinam as pessoas e os vagares.
Na aldeia não reinam só os vagares. Na aldeia reina a alma de gente que tem o negócio no sangue. Se puderem vender nunca ficarão parados, jamais calados perante as qualidades indiscutíveis dos seus bens e irredutíveis na arte de convencer a freguesia. Não há como eles. A arte está-lhes nos genes. Na aldeia não há isso de trabalho infantil, há a necessidade de dar um jeito quando os adultos se ausentam para um qualquer propósito, uma responsabilidade que se incute sem que daí venha mal ao mundo. Desde tenra idade é vê-los diligentes nas demasias e a destrocar dinheiro enquanto elogiam as batatas ou bendizem os morangos e perguntam se queremos ovos caseiros, na cidade diz que são biológicos.
Foi hoje pela fresca. Um almoço de família ditaria uma sobremesa para a qual me faltava fruta. Rumei à mercearia que agora se acomodou no largo da igreja mas desta feita quase de frente para a igreja e isto porque, suspeito, o tempo em que estiveram de costas para a igreja o negócio murchou como grelos ao sol. Seguiu-se um breve período em que a venda tinha lugar numa carrinha. Uma vez aberta desvendavam-se cores e aromas, formas rotundas e longilíneas de legumes e frutos diversificados. Uma festa para os sentidos. Ainda estou para perceber porque aquele poema do Cesário Verde nunca me convenceu.
Estava lá o João. Tem uns nove anos, quem sabe, uns olhos azuis acinzentados encantadores e a ginga do negócio no corpo. Estava a jogar um jogo no computador literalmente virado de cangalhas, a noventa graus e com o ecrã apoiado em cima duns caixotes, enquanto atendia uma anciã insatisfeita com a cor tão desmaiada do açúcar amarelo. Os meus olhos saltaram para uns abacates bem rotundos, um regalo para os olhos, e quando murmurei algo sobre os ditos, o João saiu da caixa e ensinou-me, pegando num abacate Quer ver, disse, aproximando-o de mim, Se se ouvir o caroço lá dentro está maduro e pegando num outro exemplificou abanando-o levemente Está a ouvir? Sim, estava.
Comprei morangos para o bolo do almoço de família, não havia ameixas e as nêsperas não me convenceram. Voltei vagarosa. Perscrutei os patos e galinhas da vizinha a caminho de casa, a exuberância dos limoeiros e fui cumprimentada pela fragrância da glicínia à entrada do jardim.
Há dias em que tenho saudades da cidade. Hoje não foi um deles. 


Bolo (desta vez ) de morangos 

Ingredientes
4 ovos
200g de farinha
200g de açúcar
200g de margarina
morangos ou outra fruta a gosto

Preparação
Untar uma forma de pirex baixa e pré-aquecer o forno a 190º. Bater a margarina com o açúcar. Juntar os ovos um a um e adicionar por fim a farinha continuando a bater mas em velocidade média. Deitar na forma e espalhar os morangos. Levar ao forno cerca de 20 minutos. 
Este bolo que fica quase uma tarte presta-se a muitas variações de acordo com a fruta que for adicionada. Já experimentei com framboesas, mistura de frutos silvestres congelada, pêssegos e maçã envolvida em açúcar e canela. Se se quiser fazer um bolo maior é só acrescentar 50 gramas de cada ingrediente por cada ovo a mais. Muito fácil de confeccionar não me tem desiludido. Hoje também não correu mal.


segunda-feira, 9 de abril de 2012

Temperos de letras (3)

Esta é uma arte que me dá prazer. Existe uma espécie de feitiçaria em todo o trabalho culinário: na escolha dos ingredientes, no processo de misturar, raspar, derreter, macerar e aromatizar, nas receitas retiradas de livros antigos, nos utensílios tradicionais - o pilão, o almofariz, a mistura com que a minha mãe fazia o seu incenso convertidos a um propósito mais caseiro, as suas especiarias e ervas aromáticas cedendo as subtilezas a uma magia mais básica e sensual. E é em parte a efemeridade de tudo que me delicia: tanta preparação amorosa, tanta arte e experiência aplicada num prazer que dura não mais que um momento e que só uns poucos apreciarão plenamente.

Joanne Harris, Chocolate.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Em nome do Pai


A Páscoa é ter três ou quatro anos, um vestido azul-turquesa de fazenda vestido que me picava, era capaz de jurar que tinha a saia pregueada, e estar às cavalitas de um amigo dos meus pais. A Páscoa é tremer de medo com a procissão dos farricocos em Braga nesse mesmo dia do vestido azul-turquesa que me picava mas me aterrorizava menos que aquelas figuras tétricas sem rosto a fazer barulho cidade fora. A Páscoa era não haver politicamente correcto e poupar a criança do vestido azul-turquesa de fazenda àquele susto. A Páscoa é Beira-alta. A Páscoa é Tibaldinho e a festa da aldeia, o povo engalanado nas suas melhores farpelas. A Páscoa é esperar. A Páscoa é esperar pacientemente sem meter dedo ou dente perante uma mesa cheia de doces, bolos, folares pela hora do almoço, controlar o ímpeto de criança, obedecer aos meus pais e portar-me bem lá nessa casa dos doces, bolos e folares e dinheiro por baixo de uma laranja na mesa. A Páscoa é esse sacrifício. A Páscoa é o padre chegar e trazer uma imagem e dar-nos a beijá-la. Diz que era Cristo menino mas nunca entendi porque se havia de não comer bolos, haver dinheiro em cima da mesa e beijar uma imagem naquele tempo. A Páscoa é a procissão do enterro do Senhor pelas ruas de Viseu. A Páscoa é ter muitas dúvidas que dos mortos nunca ninguém voltou e não me consta que Jesus Cristo apreciasse tanto fausto, tanta celebração, alguma ostentação. A Páscoa é estar num qualquer sítio do mundo e pensar Olha, hoje é Domingo de Páscoa. A Páscoa é a esperança de dias longos, dias novos. A Páscoa é leite-creme queimado com a pá de ferro que vai passando de geração em geração. A Páscoa é e será sempre pão-de-ló com queijo da Serra. A Páscoa será sempre o pão-de-ló que fiz, que se fazia para o meu pai. A Páscoa é ele sorrir-me com os olhos amendoados e dizer-me Está uma maravilha, filhota. A Páscoa é comer o pão-de-ló em sua homenagem. Hoje e sempre.

Ingredientes
250 g de açúcar
125 g de farinha
8 gemas
4 ovos inteiros

Preparação
Forrar uma forma com um buraco no meio com papel vegetal. Pré-aquecer o forno a 190 º. Bater os ovos com o açúcar até ficar uma mistura fofa e aveludada cerca de oito minutos. Juntar a farinha e bater mais dois minutos. É muito importante que a massa fiquei bem batida para ficar leve. Deitar com cuidado na forma e levar ao forno com uma folha de papel vegetal por cima cerca de 45 minutos. O tempo de cozedura vai determinar se o pão-de-ló fica mais ou menos húmido, é uma questão de gosto. Não fica particularmente bonito mas é a receita que me foi dada por uma amiga dos meus pais, curiosamente presente naquele episódio matricial da Páscoa em Braga. Nunca me falhou até hoje. Ela também não.