quinta-feira, 26 de julho de 2012
domingo, 22 de julho de 2012
Muffins de azeitonas com cebolinho em boa companhia
Escrever num blogue de culinária não é escrever como em qualquer outro blogue. Não vive da actualidade, vive apenas parcialmente das nossas vidas, uma parte pequena que no meu caso tem sido devorada pelo dealbar de uma vida que se prevê muito diferente e uma série de alterações que mais parecem a montanha-russa. Felizmente nada de grave. Há alturas em que muito muda e esta parece ser uma delas.
Escrever num blogue de culinária só vale a pena se trouxer algo de novo, e requer um espírito diferente. Não me basta uma imagem ou uma frase ou um texto apenas. Tal como na cozinha, gosto de textos suculentos que nos deixem saborear substantivos e sentir o perfume dos adjectivos. Tal como na cozinha, eles nem sempre surgem e tenho-os visto recolherem-se atrás das hortênsias. Não adianta correr para os apanhar. São fugidios como os gatos e um gesto mais brusco resulta num repuxo de palavras que não consigo apanhar. Tem sido assim.
Neste últimos tempos tenho cozinhado, experimentado algumas coisas, mas tem-me faltado o momento em que depois de confeccionado, provado e aprovado me deixo vaguear entre as palavras.
Hoje foi, pois, o dia de quebrar o jejum e regressar aqui. Uma duplicação de uma receita já aqui publicada com algumas alterações: apostei nas azeitonas e cebolinho e iogurtes naturais magros em vez do buttermilk e não me arrependi. A textura melhorou significativamente e o sabor da farinha de milho ficou mais ténue. Fi-los para um almoço de amigos, tão chegados que são família e tenho a certeza de que a boa companhia me terá ajudado ao regresso a estas palavras. São uma dupla imbatível: amigos e comida. A vida é sempre melhor quando se tem alguém com quem a partilhar. Tal como a comida.
Muffins de azeitonas com cebolinho
Ingredientes
1 1/2 chávena de farinha de trigo com fermento
1/2 chávena de farinha de milho
1 colher de chá de bicarbonato de sódio
sal a gosto (refinado)
pimenta preta acabada de moer
2 iogurtes naturais magros (usei marca branca Continente)
5 colheres de sopa de azeite
1 ovo
azeitonas
cebolinho
Preparação
Pré-aquecer o forno a 190º. Numa tigela juntar os ingredientes sólidos e reservar. Numa outra tigela bater com uma vara de arames os iogurtes, o azeite e o ovo. Incorporar nos ingredientes sólidos com uma espátula de silicone. Adicionar cebolinho cortado em pedacinhos pequenos, usei uma tesoura de ervas aromáticas e, por fim, as azeitonas também em pedaços pequenos. Podem também usar-se azeitonas em rodelas. Envolver com cuidado mas sem bater.
Com um colher de gelado, deitar uma porção nas formas de silicone e levar ao forno cerca de 20 minutos. Ei-los:
Variações: fiz duas receitas e na primeira pus bacon e orégãos. No meu plano de intenções estão pedacinhos de salmão e talvez coentros. Numa outra altura.
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salgados
terça-feira, 12 de junho de 2012
Tarte tatin de alperces e o veredicto final
Os antigos explicaram muito bem essa pulsão, pulsão? Não deve ser pulsão, mas esse sentimento subliminar de os filhos quererem casar com as mães, as raparigas quererem casar com os pais. Não sei contudo se terão explicado o enlevo e protecção que se direcciona das mães para os filhos homens e dos pais para as filhas mulheres, se bem que estes últimos são mais fáceis de explicar, os anteriores carecem de explicação outra que não seja uma ciumeira desalmada daquela outra marmanja que vem roubar a atenção primeira e única que os meninos dedicam às suas mães, mesmo quando já são barbados e têm vidas independentes. E tudo isto é muito pior se a marmanja a quem o miúdo barbado entregou o coração e a gestão de meias e cuecas souber cozinhar. Foi o que me aconteceu. Não que o filho que não tenho se entregasse a uma galdéria com manias de chef. O filho da minha sogra é que se entregou a uma dessas com ar de quem não dá uma para a caixa mas que gosta de cozinhar. Custaram-me muitos anos, e quantos, e alguns cozinhados para que ela proferisse um Está bom! Devia ter assinalado esse dia no calendário e decretá-lo o meu próprio e pessoal feriado, uma verdadeira vitória que se não fosse por puro pudor teria pedido para repetir mais alto Como? Nos dias que correm lá vou conseguindo um sorriso e esporadicamente um elogio. Já o meu sogro é mais imediato e generoso nos comentários e tem um palato apurado. É um bom garfo e repara nos detalhes. Acontece portanto que sempre que cá vêm ou sempre que lá vamos não facilito nas iguarias e esta mania da perfeição que me assiste a espaços transforma-se no peso que, qual Atlas, transporto cozinha afora e cozinhados adentro. Desta vez e aproveitando a época dos alperces, provavelmente a melhor fruta do mundo, sou doida pela polpa carnuda, o sabor meio acre e a cor alaranjada, resolvi fazer uma tarte tatin de alperces. Éramos seis adultos à mesa e um adolescente. E esperei o veredicto. Três disseram que estava óptimo, três não disseram coisa nenhuma e outro não comeu. Quem terá dito o quê?
Tarte tatin de alperces
Ingredientes
125 g de açúcar
50 g de margarina
1 embalagem de massa folhada
refrigerada
Alperces (deitei a olho, mas
foram muitos)
Preparação
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terça-feira, 5 de junho de 2012
Cookies de chocolate e a festa derradeira
Era baixo, louro, adorava futebol, era tímido e discreto, provavelmente o mais velho da turma mas terá sido ele que algures perto do Natal sugeriu que se fizesse uma festa. Aproveitei a ocasião para os apresentar aos costumes gatronómicos alemães em tempo de Natal e não correu mal. Nessa festa houve Lebkuchen, Spekulatius de canela e umas Stollen pequenas, a única iguaria alemã que cá chega. Trouxe para a casa os Lebkuchen. Ainda os havia por cá quase um ano depois mas dos Spekulatius nem migalha. Aprovados.
Depois desse dia de Dezembro tardio e frio, em que, desconfiada, achei que não haveria festa nenhuma e que os alunos presentemente não ligavam a festas que envolvessem aulas e professores, instituiu-se, para meu grande espanto, na minha turma de Alemão, a festa de final de período. E assim foi durante estes dois últimos anos.
Uns dias antes, às vezes na véspera, surge a pergunta sacramental, uma semi afirmação à espera da minha confirmação Então e a nossa festa? Stora, temos de fazer a nossa festa! Chegado o dia, cada um traz o que tem ou o que se lembrou, às vezes quotizam-se para comprar bebidas e outras trazem bolos caseiros feitos por elas. Acontece que este ano em vez de ir a correr comprar tudo pronto a comer, abalancei-me a fazer-lhes uns cookies de chocolate. A primeira vez adoraram, a segunda idem e hoje quando lhes perguntei Então e amanhã, querem outros biscoitos ou faço os de chocolate? A resposta não podia ser mais convicta: Não, stora, os de chocolate! Sorrisos largos com a leveza de quem tem o mundo pela frente. Largaram uns comentários elogiosos aos pequenos rochedos de chocolate e foram-se com a urgência de quem tem o mundo à espera. Num bocado de tarde entre uma e outra tarefa profissional, adentrei a cozinha e fiz os tão desejados cookies de chocolate para mais uma festa, desta vez a derradeira. Amanhã é a última aula. Terão sido por isso os últimos que lhes fiz e amanhã estarei forte como sempre me conheceram: de aparência robusta como os meus cookies de chocolate e no meio suave e frágil, como eles também. Também somos o que cozinhamos. Quando tiverem saído apanharei silenciosa as minhas próprias migalhas.
Uns dias antes, às vezes na véspera, surge a pergunta sacramental, uma semi afirmação à espera da minha confirmação Então e a nossa festa? Stora, temos de fazer a nossa festa! Chegado o dia, cada um traz o que tem ou o que se lembrou, às vezes quotizam-se para comprar bebidas e outras trazem bolos caseiros feitos por elas. Acontece que este ano em vez de ir a correr comprar tudo pronto a comer, abalancei-me a fazer-lhes uns cookies de chocolate. A primeira vez adoraram, a segunda idem e hoje quando lhes perguntei Então e amanhã, querem outros biscoitos ou faço os de chocolate? A resposta não podia ser mais convicta: Não, stora, os de chocolate! Sorrisos largos com a leveza de quem tem o mundo pela frente. Largaram uns comentários elogiosos aos pequenos rochedos de chocolate e foram-se com a urgência de quem tem o mundo à espera. Num bocado de tarde entre uma e outra tarefa profissional, adentrei a cozinha e fiz os tão desejados cookies de chocolate para mais uma festa, desta vez a derradeira. Amanhã é a última aula. Terão sido por isso os últimos que lhes fiz e amanhã estarei forte como sempre me conheceram: de aparência robusta como os meus cookies de chocolate e no meio suave e frágil, como eles também. Também somos o que cozinhamos. Quando tiverem saído apanharei silenciosa as minhas próprias migalhas.
Cookies de chocolate
Ingredientes
250 g de farinha com fermento
90 g de chocolate em pó
1 colher de sopa de fermento
100 g de açúcar
100 g de flocos de aveia.
200 g de margarina
1 ovo
100 g de chocolate culinário
Preparação
Pré-aquecer o forno a 180º. Derreter a margarina e deixar arrefecer um pouco. Misturar os ingredientes secos numa tigela larga. Adicionar a margarina derretida e envolver bem. Juntar por fim o ovo inteiro e o chocolate cortado em pedaços pequenos. Fazer bolinhas pequenas e levá-las o forno num tabuleiro forrado com papel vegetal cerca de 15 minutos.
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sábado, 2 de junho de 2012
Biscotti de avelãs e limão e os caminhos do amor
Se há coisa que faço mal é cortar
pão. Por muito que me esforce, tal como confessado aqui, sou incapaz de cortar
uma fatia de pão como deve ser. Sai sempre mais grossa no final do que no início
ou vice-versa, às vezes com um recortado que nem sei muito bem como consegui e
outras com um pedaço a mais ou a menos. Peçam-me outras coisas que serão feitas
com mais perfeição mas caso ousem pedir-me essa tarefa tão mundana e
aparentemente tão simples saibam que correm o risco de sair algo parecido com
uma fatia de pão mas jamais uma fatia de pão direita e perfeita. Na verdade
esta falta de jeito também me assiste no que ao pão-de-ló diz respeito e a
outros bolos assim fofos. Nada a fazer
portanto. Nem eu sei explicar o que corre mal mas se puder correr mal certamente
correrá, a lei de Murphy aplicada à minha total incompetência em cortar uma
simples fatia de pão.
Quando esta semana a proposta do
grupo Dorie às Sextas me surpreendeu com uns Biscotti de Amêndoa, e depois de
lido e escalpelizado o modo de confecção, eis que se me colocava o desafio dos
desafios: os danados dos biscotti,
além de irem duas vezes ao forno, daí o nome biscotti e de engordarem, já se sabe, tinham de ser cortados,
valha-me Zeus e Gargântua, cortados como se corta pão, com faca de serrilha e o
rigor que se deve dar a tudo o que se quer belo para ser apetitoso. Os olhos
comem, ó se comem.
E enquanto estava aqui nesta conversa, sinto o
alerta das gatas, de orelhas perfiladas e olhar concentrado, e ouço a chave na
porta. Era ele. Só podia. Só podia ser o meu consorte. Estou safa, pensei. Nada disto teria interesse caso não fosse ele,
ao contrário de mim, um mestre na arte de bem cortar pão. Disse-lhe Preciso da tua ajuda. Ele entra na
cozinha, olha para os dois troncos que haviam de se de transformar em biscotti com desconfiança. Ninguém diria
que daqueles pedaços de massa informe e de tonalidades esbranquiçadas sairia
algo agradável. Explico-lhe o procedimento e ele supervisiona a tarefa,
dando-me conselhos e dicas. Eu sabia que estava safa. O amor faz milagres, já
se sabe. Até nos meus biscotti de
avelãs e limão.
Biscotti de avelãs e limão
Ingredientes
A escolha dos ingredientes obedeceu
ao critério único do que havia disponível cá em casa. Não havia farinha de
milho, mas havia farinha de trigo. Não havia amêndoas, mas havia avelãs. Não
havia essências de coisa nenhuma, nunca há cá em casa, mas havia uns enormes e
voluptuosos limões vindos directamente com todo o carinho do limoeiro dos vizinhos
e que esperavam o momento certo para mostrar do que são feitos limões saloios,
região por excelência de limoeiros frondosos e exuberantes, orgânicos e
tratados com a calmaria do campo.
1 chávena de açúcar
2 chávenas de farinha de trigo
com fermento
1 chávena mal cheia de gérmen de
trigo
100 g de margarina
3 ovos
¾ de chávena de avelãs
Raspa de dois limões.
Preparação
Ligar o forno a 175º. Derreter levemente
a margarina. Numa tigela larga deitar o açúcar e a raspa de dois limões. Com
uma espátula misturar o açúcar e a raspa de limão. Juntar a margarina morna e
bater com a batedeira até ficar um creme esbranquiçado. Adicionar os ovos um a
um e, por fim, deitar a farinha de trigo, depois o gérmen de trigo. O gérmen de
trigo foi uma solução de recurso porque a massa estava demasiado mole para ser
moldada. Com uma espátula envolver as avelãs.
Num tabuleiro de forno e sobre
uma folha de papel vegetal dividir a massa em dois rectângulos longos mas
estreitos. Levar ao forno durante cerca de 15 minutos. O tempo de cozedura é
muito importante. A massa não deve ficar demasiado cozida. Retirar do forno,
colocar sobre uma outra superfície, usei uma simples tábua de cozinha, e
esperar uns vinte minutos, até ficar quase frio. Cortar em fatias e levar ao
forno mais 15 minutos.
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sexta-feira, 1 de junho de 2012
Biscotti Teaser
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sábado, 26 de maio de 2012
Prazeres da vida e uns brigadeiros de coco
Chegada a minha vez esperava-me o
médico que já vira várias vezes, de sorriso e braços abertos, é bom ter médicos
que nos tratam bem, e a quem confiei várias vezes a tarefa de supervisionar o
meu peso. De todas as confissões anteriores havia uma que se me tinha escapado,
talvez porque nunca a considerei muito importante ou apenas porque a tenha
sentido uma parte de mim, tão intrínseca como o cabelo selvagem ou os modos
abruptos quando o humor se me enche como maré alta e rebenta em vagas furiosas.
E sem saber por quê acabei por lhe dizer Sabe,
doutor, é que eu gosto muito de cozinhar. Ele riu-se e respondeu Mas pode, cozinhar pode… ao que concluí Pois, não posso é comer. Ora acontece, como já terei confessado por aí, que cozinhar e o prazer da mesa andam de mãos dadas
para mim, e admito que tenho uma certa desconfiança por quem depenica comida e
a olha o prato à sua frente com ar de enfado ou náusea. Gente estranha.
Associo sempre o prazer de comer aos prazeres da vida. Acontece ainda que se
tiver convidados cá em casa tenho um medo incontrolável de que a comida não
chegue e que os comensais se entreolhem com o estômago a reclamar e mentalmente
me dirijam impropérios por tamanha frugalidade ou avareza ou incapacidade de
calcular quantidades. Outras vezes não é apenas a quantidade que se me ataca, é
a diversidade. Detesto refeições monótonas em dias de festa, refeições onde não
há escolha e não se pode saltitar entre os folhadinhos de farinheira e os
triângulos de chouriço ou entre a mousse de abacate e o bolo de chocolate. Foi
exactamente por isto que depois de ter decidido a ementa de aniversário da
minha mãe, atendendo aos seus pedidos e gostos e que cumpriria escrupulosamente, achei que faltaria algo doce para
mesclar com o sabor meio acre do café no fim da refeição. Deitei mãos à obra e depois de umas
voltas pela net para inspiração, nada, nos dias que correm, é totalmente
inovador, lembrei-me de fazer brigadeiros de coco. O prazer de cozinhar que me
cutucou outra vez e a necessidade vital da escolha e da diversidade. E
provei-os evidentemente. Eu avisei que estava tudo ligado.
Brigadeiros de coco
Ingredientes
1 ½ lata de leite condensado
2 colheres de sopa de margarina
200 g de coco + coco para envolver os
brigadeiros.
1 cálice pequeno de whisky
Preparação
Num tacho deitar o leite condensado,
o coco e a margarina. Levar a lume brando mexendo sempre para não deixar
queimar e envolver bem os ingredientes. Juntar o whisky e continuar a mexer até
fazer estrada no tacho.
Deitar de seguida num recipiente e deixar
arrefecer. Depois de morno ou frio enrolar bolinhas e envolvê-las no coco ralado. Levar
ao frigorífico. Uma meia hora antes de servir retirar do frigorífico para reganhar sabor e melhorar a textura.
Todos comeram e ninguém se queixou.
Todos comeram e ninguém se queixou.
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quarta-feira, 23 de maio de 2012
sábado, 19 de maio de 2012
Fruta da época e uma mousse de morangos
Gosto de me ver como uma não nostálgica com a mania de que o passado deve ficar arrumado lá onde acomodamos com carinho o que já nos serviu, o que fez de nós quem somos mas que deve repousar no berço das coisas adormecidas, embalado por memórias felizes de tempos que não voltam. Gosto de olhar para mim como alguém que olha para a frente, mais para a frente e muito pouco para trás. Acontece que entre o que achamos que somos e o que somos na realidade existe um hiato. Dias há em que pensamos que o conseguimos resolver e outros em que o sentimos como um rio intransponível e a outra margem, a margem que achamos que somos, incapaz de ser alcançada. Acontece muito.
Fui chamada ao passado pelos morangos quando um destes dias me cruzei com eles nos meus afazares domésticos. Carnudos, vermelhos e aromáticos são um festim para esta que come com os olhos e tem faro de perdigueira, uma falta a que não sei fugir, e fiquei incrivelmente nostálgica dos tempos em que havia fruta da época anunciada nos menus dos restaurantes, porque na verdade a única fruta disponível era a da época.
Nesses tempos, a fruta da época abria sempre um novo ciclo e a espera por esses momentos era feita com labor e ansiedade, a felicidade suprema quando os primeiros frutos surgiam nas bancas da praça, sem formatações nem brilhos adicionados, com os defeitos com a que a natureza os tinha parido. Laranjas e maçãs eram sempre fruta de Inverno, de recolhimento, aquecedores e humidade, e manhãs de nevoeiro gótico por aqui onde o sol se enchia de caprichos de fêmea e fazia aparições esporádicas de diva dominadora. Uvas eram fruta de Outono, o indício de que um tempo acabara. O tempo das tardes e noites longas, de roupas leves e corpos soltos. Um ciclo de inconsequências e felicidades efémeras, a transitoriedade do que se quer eterno chegara ao fim. Antes das uvas e das laranjas e maçãs, havia morangos e depois dos morangos, os pêssegos e as ameixas coroadas com o zénite do Verão. Os morangos marcavam o início do tempo quente, como eu gosto, a alvorada do sonho e a promessa de levezas várias, despreocupações múltiplas de corpos ao sol, tisnados de salgadiço, perfumados de maresia e beijados longamente pelo sol em tardes sem fim no areal imenso que me viu crescer. Que saudades do tempo dos morangos. Desse tempo de morangos. Do meu tempo de morangos.
Nesses tempos, a fruta da época abria sempre um novo ciclo e a espera por esses momentos era feita com labor e ansiedade, a felicidade suprema quando os primeiros frutos surgiam nas bancas da praça, sem formatações nem brilhos adicionados, com os defeitos com a que a natureza os tinha parido. Laranjas e maçãs eram sempre fruta de Inverno, de recolhimento, aquecedores e humidade, e manhãs de nevoeiro gótico por aqui onde o sol se enchia de caprichos de fêmea e fazia aparições esporádicas de diva dominadora. Uvas eram fruta de Outono, o indício de que um tempo acabara. O tempo das tardes e noites longas, de roupas leves e corpos soltos. Um ciclo de inconsequências e felicidades efémeras, a transitoriedade do que se quer eterno chegara ao fim. Antes das uvas e das laranjas e maçãs, havia morangos e depois dos morangos, os pêssegos e as ameixas coroadas com o zénite do Verão. Os morangos marcavam o início do tempo quente, como eu gosto, a alvorada do sonho e a promessa de levezas várias, despreocupações múltiplas de corpos ao sol, tisnados de salgadiço, perfumados de maresia e beijados longamente pelo sol em tardes sem fim no areal imenso que me viu crescer. Que saudades do tempo dos morangos. Desse tempo de morangos. Do meu tempo de morangos.
Mousse de morangos
Ingredientes
1 lata de leite condensado
1 lata de leite condensado
4 iogurtes gregos naturais sem açúcar (usei marca branca)
6 folhas de gelatina
500 g de morangos + morangos a gosto
Bolacha torrada
Preparação
Demolhar as folhas de gelatina em água fria. Lavar os morangos e reduzi-los a puré numa liquidificadora. Bater o leite condensado com os iogurtes. Juntar o puré de morangos. Derreter as folhas de gelatina em água a ferver e incorporá-las depois de bem diluídas no preparado anterior. Deitar tudo numa taça e adicionar por cima morangos cortados em cubos pequenos. Levar ao frigorífico de um dia para o outro. No momento de servir, moer bolacha torrada a gosto e espalhar por cima.
Demolhar as folhas de gelatina em água fria. Lavar os morangos e reduzi-los a puré numa liquidificadora. Bater o leite condensado com os iogurtes. Juntar o puré de morangos. Derreter as folhas de gelatina em água a ferver e incorporá-las depois de bem diluídas no preparado anterior. Deitar tudo numa taça e adicionar por cima morangos cortados em cubos pequenos. Levar ao frigorífico de um dia para o outro. No momento de servir, moer bolacha torrada a gosto e espalhar por cima.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Paella ou a felicidade da partilha
Uma mulher acabada de casar traz consigo
quase todos os sonhos do mundo. Desliza pelos dias fora com a leveza da
felicidade menina, a extensão de momentos indizíveis votados apenas às
mulheres. O casamento é das mulheres. São elas que se transfiguram num ritual iniciático
alimentados de esperanças e ilusões. E julgam nesse efémero momento transcendental
que a vida será não mais do que a poesia que se liberta do breve instante em
que de braço dado com o seu pai, o homem primeiro, desliza de sorriso tímido e
transbordante rumo a uma nova vida. O aroma indefinível da plenitude paira no
ar como um manto protector dos tontos felizes, ingénuos tolos, os que assumem que o resto das
suas vidas não será se não uma extensão dos sorrisos e afectos do dia primeiro.
Uma mulher acabada de casar usa o
sonho do amor como véu e cuida do bouquet de expectativas como o enleio das
flores belas e frágeis. Julga-o eterno.
Uma mulher acabada de casar é um cadinho de esperança de amores partilhados e românticos. E é feliz.
Uma mulher acabada de casar é um cadinho de esperança de amores partilhados e românticos. E é feliz.
Eu como todas as mulheres
acabadas de casar tinha em mim todos os sonhos do mundo e o prazer de o
partilhar com os amigos. Houve almoços e jantares para os mais íntimos, a total
dedicação à cozinha.
Éramos todos à mesa e o dia
estava cinzento. O almoço foi paella. A primeira que terei feito na minha vida
e o primeiro prato que servi como mulher casada, anfitriã no meu castelo de
sonhos. Todas as paellas são desde então a celebração desse ensejo. O amor deve
ser partilhado. Só partilhado é amor.
Paella
Ingredientes
150 g de bacon cortados em
pedaços pequenos
1/2 chouriço de carne (geralmente compro de Seia)
1 cebola grande
Alho picado
200 g de carne de porco cortada
em cubos pequenos
200 g de carne de vaca cortada em
cubos pequenos
Mexilhões (deito a gosto, sem
fazer a menor ideia da quantidade)
Camarão (exactamente como os
mexilhões)
2 copos de arroz para risotto.
Azeite
Sal
Pimenta preta
1 colher de chá de açafrão.
Preparação
Cozer os camarões em bastante
água com sal. Depois de cozidos, retirá-los para arrefecer e reservar a água em
que foram cozidos. Num recipiente para paella ou numa frigideira funda com
pegas redondas que possa ir ao forno, deitar um fio de azeite. Deixar aquecer e
juntar o bacon e o chouriço cortados em pedaços. Quando começar a frigir,
adicionar a cebola picada, o alho e meia folha de louro. Deixar que a cebola
amoleça sem refogar e ganhe os aromas do bacon e do chouriço. Juntar depois as
carnes temperadas levemente com sal, alho picado e pimenta preta e deixar fritar
em lume brando mexendo de vez em quando.
Adicionar os camarões e os
mexilhões congelados. Depois de cozinhados, acrescentar o arroz para risotto,
deixar fritar e envolver muito bem com todos os ingredientes. Juntar a água de
cozer os camarões e o açafrão diluído na água. Para os dois copos de água pus três de água. Continuar em lume brando mas
deve ter-se cuidado e mexer levemente de vez em quando. Provar e rectificar os temperos. Quando o arroz estiver
praticamente cozido, levar ao forno pré-aquecido a 200º. Servir quando estiver
pronto, o arroz deve estar cozido mas um pouco húmido.
Esta receita é o resultado de uma
década de paellas. Já acrescentei outros ingredientes como frango, lulas ou ameijoas.
Já experimentei com outros tipos de arroz, agulha ou carolino, mas com o de
risotto fica infinitamente melhor. Recomendo. Gosto
de fazer mudanças, os ingredientes podem variar um pouco e as porções são
muitas vezes a ‘olho’, a maneira como funciono melhor. Não acrescento nunca
ervilhas, embora a paella original as tenha. Desta vez levou meia malagueta para lhe dar um toque atrevido.
É um dos meus pratos preferidos.
É quente, retemperante, variado e colorido quer pela riqueza dos ingredientes
quer pelo açafrão. É a minha paella.
Esta história e a receita foram escritas para O Bolo da Tia Rosa que está a festejar o primeiro aniversário do blogue. Os meus parabéns para a Mané.
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sábado, 14 de abril de 2012
A vida na aldeia e um bolo de morangos
Dizem-me que a cidade me falta e
que bastarão uns fumos
poluentes logo ali na Calçada de Carriche para que se me libertem os humores e
os meus dias se encham de sol. A cidade falta-me, é verdade. Falta-me muitas
vezes. Faltam-me os lugares-comuns da luz de Lisboa e falta-me o bulício de
cidade, pessoas que se cruzam de um lado para o outro, correrias e idiossincrasias
várias. Não que me sinta citadina ou urbana mas as grandes urbes são como ímans
onde sonho sempre regressar.
A vida na aldeia não é como a vida na cidade. A vida na
aldeia é comandada pelos passos lânguidos de um tempo muito próprio, de uma outra
dimensão, como se as horas tivessem uma medida de tempo oculta vagarosa, uma
clepsidra feita de vagares que se alternam noite e dia, e se alongam entre conversas
várias no meio do largo ou em plena rua indiferentes a carros ou quaisquer
outros veículos. Na aldeia reinam as pessoas e os vagares.
Na aldeia não reinam só os vagares. Na aldeia reina a alma de
gente que tem o negócio no sangue. Se puderem vender nunca ficarão parados,
jamais calados perante as qualidades indiscutíveis dos seus bens e irredutíveis
na arte de convencer a freguesia. Não há como eles. A arte está-lhes nos genes.
Na aldeia não há isso de trabalho infantil, há a necessidade de dar um jeito
quando os adultos se ausentam para um qualquer propósito, uma responsabilidade
que se incute sem que daí venha mal ao mundo. Desde tenra idade é vê-los
diligentes nas demasias e a destrocar dinheiro enquanto elogiam as
batatas ou bendizem os morangos e perguntam se queremos ovos caseiros, na cidade diz que são biológicos.
Foi hoje pela fresca. Um almoço de família ditaria uma
sobremesa para a qual me faltava fruta. Rumei à mercearia que agora se acomodou
no largo da igreja mas desta feita quase de frente para a igreja e isto porque,
suspeito, o tempo em que estiveram de costas para a igreja o negócio murchou
como grelos ao sol. Seguiu-se um breve período em que a venda tinha lugar numa
carrinha. Uma vez aberta desvendavam-se cores e aromas, formas rotundas e longilíneas
de legumes e frutos diversificados. Uma festa para os sentidos. Ainda estou
para perceber porque aquele poema do Cesário Verde nunca me convenceu.
Estava lá o João. Tem uns nove anos, quem sabe, uns olhos
azuis acinzentados encantadores e a ginga do negócio no corpo. Estava a jogar
um jogo no computador literalmente virado de cangalhas, a noventa graus e com o
ecrã apoiado em cima duns caixotes, enquanto atendia uma anciã insatisfeita com
a cor tão desmaiada do açúcar amarelo. Os meus olhos saltaram para uns abacates
bem rotundos, um regalo para os olhos, e quando murmurei algo sobre os ditos, o
João saiu da caixa e ensinou-me, pegando num abacate Quer ver, disse, aproximando-o de mim, Se se ouvir o caroço lá dentro está maduro e pegando num outro
exemplificou abanando-o levemente Está a ouvir? Sim, estava.
Comprei morangos para o bolo do almoço de família, não havia ameixas e
as nêsperas não me convenceram. Voltei vagarosa. Perscrutei os patos e galinhas
da vizinha a caminho de casa, a exuberância dos limoeiros e fui cumprimentada
pela fragrância da glicínia à entrada do jardim.
Há dias em que tenho saudades da cidade. Hoje não foi um
deles.
Bolo (desta vez ) de morangos
Ingredientes
4 ovos
200g de farinha
200g de açúcar
200g de margarina
morangos ou outra fruta a gosto
Preparação
Untar uma forma de pirex baixa e pré-aquecer o forno a 190º. Bater a margarina com o açúcar. Juntar os ovos um a um e adicionar por fim a farinha continuando a bater mas em velocidade média. Deitar na forma e espalhar os morangos. Levar ao forno cerca de 20 minutos.
Este bolo que fica quase uma tarte presta-se a muitas variações de acordo com a fruta que for adicionada. Já experimentei com framboesas, mistura de frutos silvestres congelada, pêssegos e maçã envolvida em açúcar e canela. Se se quiser fazer um bolo maior é só acrescentar 50 gramas de cada ingrediente por cada ovo a mais. Muito fácil de confeccionar não me tem desiludido. Hoje também não correu mal.
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segunda-feira, 9 de abril de 2012
Temperos de letras (3)
Esta é uma arte que me dá prazer. Existe uma espécie de feitiçaria em todo o trabalho culinário: na escolha dos ingredientes, no processo de misturar, raspar, derreter, macerar e aromatizar, nas receitas retiradas de livros antigos, nos utensílios tradicionais - o pilão, o almofariz, a mistura com que a minha mãe fazia o seu incenso convertidos a um propósito mais caseiro, as suas especiarias e ervas aromáticas cedendo as subtilezas a uma magia mais básica e sensual. E é em parte a efemeridade de tudo que me delicia: tanta preparação amorosa, tanta arte e experiência aplicada num prazer que dura não mais que um momento e que só uns poucos apreciarão plenamente.
Joanne Harris, Chocolate.
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sexta-feira, 6 de abril de 2012
Em nome do Pai
A Páscoa é ter três ou quatro
anos, um vestido azul-turquesa de fazenda vestido que me picava, era capaz de
jurar que tinha a saia pregueada, e estar às cavalitas de um amigo dos meus pais.
A Páscoa é tremer de medo com a procissão dos farricocos em Braga nesse mesmo
dia do vestido azul-turquesa que me picava mas me aterrorizava menos que
aquelas figuras tétricas sem rosto a fazer barulho cidade fora. A Páscoa era
não haver politicamente correcto e poupar a criança do vestido azul-turquesa de
fazenda àquele susto. A Páscoa é Beira-alta. A Páscoa é Tibaldinho e a festa da
aldeia, o povo engalanado nas suas melhores farpelas. A Páscoa é esperar. A
Páscoa é esperar pacientemente sem meter dedo ou dente perante uma mesa cheia
de doces, bolos, folares pela hora do almoço, controlar o ímpeto de criança,
obedecer aos meus pais e portar-me bem lá nessa casa dos doces, bolos e folares
e dinheiro por baixo de uma laranja na mesa. A Páscoa é esse sacrifício. A
Páscoa é o padre chegar e trazer uma imagem e dar-nos a beijá-la. Diz que era
Cristo menino mas nunca entendi porque se havia de não comer bolos, haver dinheiro
em cima da mesa e beijar uma imagem naquele tempo. A Páscoa é a procissão do
enterro do Senhor pelas ruas de Viseu. A Páscoa é ter muitas dúvidas que dos
mortos nunca ninguém voltou e não me consta que Jesus Cristo apreciasse tanto
fausto, tanta celebração, alguma ostentação. A Páscoa é estar num qualquer
sítio do mundo e pensar Olha, hoje é
Domingo de Páscoa. A Páscoa é a esperança de dias longos, dias novos. A Páscoa é leite-creme queimado com a pá de ferro que
vai passando de geração em geração. A Páscoa é e será sempre pão-de-ló com
queijo da Serra. A Páscoa será sempre o pão-de-ló que fiz, que se fazia para o meu pai. A Páscoa é ele sorrir-me com os olhos amendoados e dizer-me Está uma maravilha, filhota. A Páscoa é
comer o pão-de-ló em sua homenagem. Hoje e sempre.
Ingredientes
250 g de açúcar
125 g de farinha
8 gemas
4 ovos inteiros
Preparação
Forrar uma forma com um buraco no
meio com papel vegetal. Pré-aquecer o forno a 190 º. Bater os ovos com o açúcar até ficar uma mistura fofa e
aveludada cerca de oito minutos. Juntar a farinha e bater mais dois minutos. É muito importante que a massa fiquei bem batida para ficar leve. Deitar com cuidado na forma e levar ao forno com uma folha de papel vegetal por
cima cerca de 45 minutos. O tempo de cozedura vai determinar se o pão-de-ló
fica mais ou menos húmido, é uma questão de gosto. Não fica particularmente
bonito mas é a receita que me foi dada por uma amiga dos meus pais,
curiosamente presente naquele episódio matricial da Páscoa em Braga. Nunca me
falhou até hoje. Ela também não.
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domingo, 1 de abril de 2012
Frugalidades pecaminosas ou clafoutis de morango
A primeira explicação encontra-se
na fotografia de casamento dos meus pais. Da esquerda para a direita estão os
meus avós paternos, o meu avô garboso e a fazer pose, a minha avó muito
sorridente, um momento raro, de vestido escuro, colar de pérolas e chapéu, ambos
sorridentes, parecem felizes ambos, o meu pai, muito direito a fazer-se
indecentemente para a fotografia, atitude que o acompanhou durante todos os
seus dias, a minha mãe, radiosa, como todas as noivas, embevecida a olhar para
o seu recente marido e a minha avó materna, pequenina e fofa, já de cabelo
branco e com o ar doce de sempre. E vem tudo isto, porque o pedaço de perna e
de pantorrilha que sobra dos vestidos de ambas as minhas avós deixa à mostra a pernoca
gorducha e o tornozelo grosso. A da minha mãe, igualmente gorducha e de tornozelo
grosso não se vê evidentemente. Penso nesta fotografia quando me travo de
razões com as pernas encorpadas e tornozelos grossos e maldigo a genética.
A segunda explicação é que de
todos os pecados mortais aquele a que mais sucumbo é a gula. Não preciso de
comer muito, às vezes como, é verdade, mas sabem os deuses e Baco também, como
gosto de uma refeição opípara, preparada com carinho e partilhada com a
generosidade de dividir amores e deixar misturar-se no ar o aroma volúvel da
amizade. Se estiver sozinha, como algo rápido e frugal, passam-se anos sem que
coma um bolo de pastelaria, prescindo de cremes, natas e bolos superlativos de
cores e decorações, torço o nariz aos fritos que me olham de soslaio, miseráveis na sua existência entre vitrinas, se não comer pão não morro e batatas fritas e massas, como legumes, como fruta, como iogurtes magros, bebo muita água, mas não resisto a uma boa mesa entre amigos, um jantar de sexta-feira caprichado e um almoço de Domingo retemperador e prenhe de sabores novos e velhos na calmaria de nada fazer.
A terceira explicação é que gosto
de cozinhar. Gosto de experimentar coisas novas, acrescentar ao que já sei
fazer, modificar o faço, modifico muito e raramente sigo uma receita à risca e
gosto das cores, das fragrâncias, da expectativa, de cozinhar para os
outros. E gosto de bebericar um copo de
vinho enquanto cozinho, ou enquanto espero ou com a refeição, e de comer uns
amendoins salgados e picantes ou depenicar qualquer outra coisa que me corte o
adocicado do Moscatel ou do vinho do Porto ou do Port Tonic que, como se prevê,
também gosto.
E serve isto para dizer que com
esta genética e estes prazeres, só me restam dois trilhos: ou me conformo com
as formas rotundas, cada vez mais rotundas, ou me abalanço na dieta. Optei pela
última, mas como as dietas são como as leis, existem para ser quebradas, hoje
fiz um clafoutis de morangos para rematar o almoço de Domingo. Apetecia-me tanto mas tanto algo doce. Pareceu-me pouco
calórico e primaveril para comemorar a estação. Uma fatia não faz mal, ou fará?
Clafoutis de morango
Ingredientes
500 g de morangos
150 g de açúcar
120 g de farinha
4 ovos
200 ml de leite
200 ml de natas light.(usei marca branca Pingo Doce)
Preparação
Pré-aquecer o forno a 180º. Barrar uma forma
refratária com margarina. Lavar os morangos. Cortá-los em quartos longitudinais
e deixá-los escorrer. Bater os ovos com o açúcar até que fique um creme fofo e
esbranquiçado. Juntar a farinha e continuar a bater. Por fim adicionar o leite
e as natas. Espalhar os morangos uniformemente pela forma. Deitar o creme por
cima e levar ao forno durante cerca de quarenta minutos. Deixar arrefecer.
Fiquei fã deste doce indefinido
sem ser tarte ou bolo ou pudim de textura húmida, aveludada e macia. Ideal para
rematar um almoço mais pesado ou para quem gosta de sobremesas leves com fruta.
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