Se há coisa que faço mal é cortar
pão. Por muito que me esforce, tal como confessado aqui, sou incapaz de cortar
uma fatia de pão como deve ser. Sai sempre mais grossa no final do que no início
ou vice-versa, às vezes com um recortado que nem sei muito bem como consegui e
outras com um pedaço a mais ou a menos. Peçam-me outras coisas que serão feitas
com mais perfeição mas caso ousem pedir-me essa tarefa tão mundana e
aparentemente tão simples saibam que correm o risco de sair algo parecido com
uma fatia de pão mas jamais uma fatia de pão direita e perfeita. Na verdade
esta falta de jeito também me assiste no que ao pão-de-ló diz respeito e a
outros bolos assim fofos. Nada a fazer
portanto. Nem eu sei explicar o que corre mal mas se puder correr mal certamente
correrá, a lei de Murphy aplicada à minha total incompetência em cortar uma
simples fatia de pão.
Quando esta semana a proposta do
grupo Dorie às Sextas me surpreendeu com uns Biscotti de Amêndoa, e depois de
lido e escalpelizado o modo de confecção, eis que se me colocava o desafio dos
desafios: os danados dos biscotti,
além de irem duas vezes ao forno, daí o nome biscotti e de engordarem, já se sabe, tinham de ser cortados,
valha-me Zeus e Gargântua, cortados como se corta pão, com faca de serrilha e o
rigor que se deve dar a tudo o que se quer belo para ser apetitoso. Os olhos
comem, ó se comem.
E enquanto estava aqui nesta conversa, sinto o
alerta das gatas, de orelhas perfiladas e olhar concentrado, e ouço a chave na
porta. Era ele. Só podia. Só podia ser o meu consorte. Estou safa, pensei. Nada disto teria interesse caso não fosse ele,
ao contrário de mim, um mestre na arte de bem cortar pão. Disse-lhe Preciso da tua ajuda. Ele entra na
cozinha, olha para os dois troncos que haviam de se de transformar em biscotti com desconfiança. Ninguém diria
que daqueles pedaços de massa informe e de tonalidades esbranquiçadas sairia
algo agradável. Explico-lhe o procedimento e ele supervisiona a tarefa,
dando-me conselhos e dicas. Eu sabia que estava safa. O amor faz milagres, já
se sabe. Até nos meus biscotti de
avelãs e limão.
Biscotti de avelãs e limão
Ingredientes
A escolha dos ingredientes obedeceu
ao critério único do que havia disponível cá em casa. Não havia farinha de
milho, mas havia farinha de trigo. Não havia amêndoas, mas havia avelãs. Não
havia essências de coisa nenhuma, nunca há cá em casa, mas havia uns enormes e
voluptuosos limões vindos directamente com todo o carinho do limoeiro dos vizinhos
e que esperavam o momento certo para mostrar do que são feitos limões saloios,
região por excelência de limoeiros frondosos e exuberantes, orgânicos e
tratados com a calmaria do campo.
1 chávena de açúcar
2 chávenas de farinha de trigo
com fermento
1 chávena mal cheia de gérmen de
trigo
100 g de margarina
3 ovos
¾ de chávena de avelãs
Raspa de dois limões.
Preparação
Ligar o forno a 175º. Derreter levemente
a margarina. Numa tigela larga deitar o açúcar e a raspa de dois limões. Com
uma espátula misturar o açúcar e a raspa de limão. Juntar a margarina morna e
bater com a batedeira até ficar um creme esbranquiçado. Adicionar os ovos um a
um e, por fim, deitar a farinha de trigo, depois o gérmen de trigo. O gérmen de
trigo foi uma solução de recurso porque a massa estava demasiado mole para ser
moldada. Com uma espátula envolver as avelãs.
Num tabuleiro de forno e sobre
uma folha de papel vegetal dividir a massa em dois rectângulos longos mas
estreitos. Levar ao forno durante cerca de 15 minutos. O tempo de cozedura é
muito importante. A massa não deve ficar demasiado cozida. Retirar do forno,
colocar sobre uma outra superfície, usei uma simples tábua de cozinha, e
esperar uns vinte minutos, até ficar quase frio. Cortar em fatias e levar ao
forno mais 15 minutos.
