sexta-feira, 27 de abril de 2012
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Paella ou a felicidade da partilha
Uma mulher acabada de casar traz consigo
quase todos os sonhos do mundo. Desliza pelos dias fora com a leveza da
felicidade menina, a extensão de momentos indizíveis votados apenas às
mulheres. O casamento é das mulheres. São elas que se transfiguram num ritual iniciático
alimentados de esperanças e ilusões. E julgam nesse efémero momento transcendental
que a vida será não mais do que a poesia que se liberta do breve instante em
que de braço dado com o seu pai, o homem primeiro, desliza de sorriso tímido e
transbordante rumo a uma nova vida. O aroma indefinível da plenitude paira no
ar como um manto protector dos tontos felizes, ingénuos tolos, os que assumem que o resto das
suas vidas não será se não uma extensão dos sorrisos e afectos do dia primeiro.
Uma mulher acabada de casar usa o
sonho do amor como véu e cuida do bouquet de expectativas como o enleio das
flores belas e frágeis. Julga-o eterno.
Uma mulher acabada de casar é um cadinho de esperança de amores partilhados e românticos. E é feliz.
Uma mulher acabada de casar é um cadinho de esperança de amores partilhados e românticos. E é feliz.
Eu como todas as mulheres
acabadas de casar tinha em mim todos os sonhos do mundo e o prazer de o
partilhar com os amigos. Houve almoços e jantares para os mais íntimos, a total
dedicação à cozinha.
Éramos todos à mesa e o dia
estava cinzento. O almoço foi paella. A primeira que terei feito na minha vida
e o primeiro prato que servi como mulher casada, anfitriã no meu castelo de
sonhos. Todas as paellas são desde então a celebração desse ensejo. O amor deve
ser partilhado. Só partilhado é amor.
Paella
Ingredientes
150 g de bacon cortados em
pedaços pequenos
1/2 chouriço de carne (geralmente compro de Seia)
1 cebola grande
Alho picado
200 g de carne de porco cortada
em cubos pequenos
200 g de carne de vaca cortada em
cubos pequenos
Mexilhões (deito a gosto, sem
fazer a menor ideia da quantidade)
Camarão (exactamente como os
mexilhões)
2 copos de arroz para risotto.
Azeite
Sal
Pimenta preta
1 colher de chá de açafrão.
Preparação
Cozer os camarões em bastante
água com sal. Depois de cozidos, retirá-los para arrefecer e reservar a água em
que foram cozidos. Num recipiente para paella ou numa frigideira funda com
pegas redondas que possa ir ao forno, deitar um fio de azeite. Deixar aquecer e
juntar o bacon e o chouriço cortados em pedaços. Quando começar a frigir,
adicionar a cebola picada, o alho e meia folha de louro. Deixar que a cebola
amoleça sem refogar e ganhe os aromas do bacon e do chouriço. Juntar depois as
carnes temperadas levemente com sal, alho picado e pimenta preta e deixar fritar
em lume brando mexendo de vez em quando.
Adicionar os camarões e os
mexilhões congelados. Depois de cozinhados, acrescentar o arroz para risotto,
deixar fritar e envolver muito bem com todos os ingredientes. Juntar a água de
cozer os camarões e o açafrão diluído na água. Para os dois copos de água pus três de água. Continuar em lume brando mas
deve ter-se cuidado e mexer levemente de vez em quando. Provar e rectificar os temperos. Quando o arroz estiver
praticamente cozido, levar ao forno pré-aquecido a 200º. Servir quando estiver
pronto, o arroz deve estar cozido mas um pouco húmido.
Esta receita é o resultado de uma
década de paellas. Já acrescentei outros ingredientes como frango, lulas ou ameijoas.
Já experimentei com outros tipos de arroz, agulha ou carolino, mas com o de
risotto fica infinitamente melhor. Recomendo. Gosto
de fazer mudanças, os ingredientes podem variar um pouco e as porções são
muitas vezes a ‘olho’, a maneira como funciono melhor. Não acrescento nunca
ervilhas, embora a paella original as tenha. Desta vez levou meia malagueta para lhe dar um toque atrevido.
É um dos meus pratos preferidos.
É quente, retemperante, variado e colorido quer pela riqueza dos ingredientes
quer pelo açafrão. É a minha paella.
Esta história e a receita foram escritas para O Bolo da Tia Rosa que está a festejar o primeiro aniversário do blogue. Os meus parabéns para a Mané.
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sábado, 14 de abril de 2012
A vida na aldeia e um bolo de morangos
Dizem-me que a cidade me falta e
que bastarão uns fumos
poluentes logo ali na Calçada de Carriche para que se me libertem os humores e
os meus dias se encham de sol. A cidade falta-me, é verdade. Falta-me muitas
vezes. Faltam-me os lugares-comuns da luz de Lisboa e falta-me o bulício de
cidade, pessoas que se cruzam de um lado para o outro, correrias e idiossincrasias
várias. Não que me sinta citadina ou urbana mas as grandes urbes são como ímans
onde sonho sempre regressar.
A vida na aldeia não é como a vida na cidade. A vida na
aldeia é comandada pelos passos lânguidos de um tempo muito próprio, de uma outra
dimensão, como se as horas tivessem uma medida de tempo oculta vagarosa, uma
clepsidra feita de vagares que se alternam noite e dia, e se alongam entre conversas
várias no meio do largo ou em plena rua indiferentes a carros ou quaisquer
outros veículos. Na aldeia reinam as pessoas e os vagares.
Na aldeia não reinam só os vagares. Na aldeia reina a alma de
gente que tem o negócio no sangue. Se puderem vender nunca ficarão parados,
jamais calados perante as qualidades indiscutíveis dos seus bens e irredutíveis
na arte de convencer a freguesia. Não há como eles. A arte está-lhes nos genes.
Na aldeia não há isso de trabalho infantil, há a necessidade de dar um jeito
quando os adultos se ausentam para um qualquer propósito, uma responsabilidade
que se incute sem que daí venha mal ao mundo. Desde tenra idade é vê-los
diligentes nas demasias e a destrocar dinheiro enquanto elogiam as
batatas ou bendizem os morangos e perguntam se queremos ovos caseiros, na cidade diz que são biológicos.
Foi hoje pela fresca. Um almoço de família ditaria uma
sobremesa para a qual me faltava fruta. Rumei à mercearia que agora se acomodou
no largo da igreja mas desta feita quase de frente para a igreja e isto porque,
suspeito, o tempo em que estiveram de costas para a igreja o negócio murchou
como grelos ao sol. Seguiu-se um breve período em que a venda tinha lugar numa
carrinha. Uma vez aberta desvendavam-se cores e aromas, formas rotundas e longilíneas
de legumes e frutos diversificados. Uma festa para os sentidos. Ainda estou
para perceber porque aquele poema do Cesário Verde nunca me convenceu.
Estava lá o João. Tem uns nove anos, quem sabe, uns olhos
azuis acinzentados encantadores e a ginga do negócio no corpo. Estava a jogar
um jogo no computador literalmente virado de cangalhas, a noventa graus e com o
ecrã apoiado em cima duns caixotes, enquanto atendia uma anciã insatisfeita com
a cor tão desmaiada do açúcar amarelo. Os meus olhos saltaram para uns abacates
bem rotundos, um regalo para os olhos, e quando murmurei algo sobre os ditos, o
João saiu da caixa e ensinou-me, pegando num abacate Quer ver, disse, aproximando-o de mim, Se se ouvir o caroço lá dentro está maduro e pegando num outro
exemplificou abanando-o levemente Está a ouvir? Sim, estava.
Comprei morangos para o bolo do almoço de família, não havia ameixas e
as nêsperas não me convenceram. Voltei vagarosa. Perscrutei os patos e galinhas
da vizinha a caminho de casa, a exuberância dos limoeiros e fui cumprimentada
pela fragrância da glicínia à entrada do jardim.
Há dias em que tenho saudades da cidade. Hoje não foi um
deles.
Bolo (desta vez ) de morangos
Ingredientes
4 ovos
200g de farinha
200g de açúcar
200g de margarina
morangos ou outra fruta a gosto
Preparação
Untar uma forma de pirex baixa e pré-aquecer o forno a 190º. Bater a margarina com o açúcar. Juntar os ovos um a um e adicionar por fim a farinha continuando a bater mas em velocidade média. Deitar na forma e espalhar os morangos. Levar ao forno cerca de 20 minutos.
Este bolo que fica quase uma tarte presta-se a muitas variações de acordo com a fruta que for adicionada. Já experimentei com framboesas, mistura de frutos silvestres congelada, pêssegos e maçã envolvida em açúcar e canela. Se se quiser fazer um bolo maior é só acrescentar 50 gramas de cada ingrediente por cada ovo a mais. Muito fácil de confeccionar não me tem desiludido. Hoje também não correu mal.
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segunda-feira, 9 de abril de 2012
Temperos de letras (3)
Esta é uma arte que me dá prazer. Existe uma espécie de feitiçaria em todo o trabalho culinário: na escolha dos ingredientes, no processo de misturar, raspar, derreter, macerar e aromatizar, nas receitas retiradas de livros antigos, nos utensílios tradicionais - o pilão, o almofariz, a mistura com que a minha mãe fazia o seu incenso convertidos a um propósito mais caseiro, as suas especiarias e ervas aromáticas cedendo as subtilezas a uma magia mais básica e sensual. E é em parte a efemeridade de tudo que me delicia: tanta preparação amorosa, tanta arte e experiência aplicada num prazer que dura não mais que um momento e que só uns poucos apreciarão plenamente.
Joanne Harris, Chocolate.
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sexta-feira, 6 de abril de 2012
Em nome do Pai
A Páscoa é ter três ou quatro
anos, um vestido azul-turquesa de fazenda vestido que me picava, era capaz de
jurar que tinha a saia pregueada, e estar às cavalitas de um amigo dos meus pais.
A Páscoa é tremer de medo com a procissão dos farricocos em Braga nesse mesmo
dia do vestido azul-turquesa que me picava mas me aterrorizava menos que
aquelas figuras tétricas sem rosto a fazer barulho cidade fora. A Páscoa era
não haver politicamente correcto e poupar a criança do vestido azul-turquesa de
fazenda àquele susto. A Páscoa é Beira-alta. A Páscoa é Tibaldinho e a festa da
aldeia, o povo engalanado nas suas melhores farpelas. A Páscoa é esperar. A
Páscoa é esperar pacientemente sem meter dedo ou dente perante uma mesa cheia
de doces, bolos, folares pela hora do almoço, controlar o ímpeto de criança,
obedecer aos meus pais e portar-me bem lá nessa casa dos doces, bolos e folares
e dinheiro por baixo de uma laranja na mesa. A Páscoa é esse sacrifício. A
Páscoa é o padre chegar e trazer uma imagem e dar-nos a beijá-la. Diz que era
Cristo menino mas nunca entendi porque se havia de não comer bolos, haver dinheiro
em cima da mesa e beijar uma imagem naquele tempo. A Páscoa é a procissão do
enterro do Senhor pelas ruas de Viseu. A Páscoa é ter muitas dúvidas que dos
mortos nunca ninguém voltou e não me consta que Jesus Cristo apreciasse tanto
fausto, tanta celebração, alguma ostentação. A Páscoa é estar num qualquer
sítio do mundo e pensar Olha, hoje é
Domingo de Páscoa. A Páscoa é a esperança de dias longos, dias novos. A Páscoa é leite-creme queimado com a pá de ferro que
vai passando de geração em geração. A Páscoa é e será sempre pão-de-ló com
queijo da Serra. A Páscoa será sempre o pão-de-ló que fiz, que se fazia para o meu pai. A Páscoa é ele sorrir-me com os olhos amendoados e dizer-me Está uma maravilha, filhota. A Páscoa é
comer o pão-de-ló em sua homenagem. Hoje e sempre.
Ingredientes
250 g de açúcar
125 g de farinha
8 gemas
4 ovos inteiros
Preparação
Forrar uma forma com um buraco no
meio com papel vegetal. Pré-aquecer o forno a 190 º. Bater os ovos com o açúcar até ficar uma mistura fofa e
aveludada cerca de oito minutos. Juntar a farinha e bater mais dois minutos. É muito importante que a massa fiquei bem batida para ficar leve. Deitar com cuidado na forma e levar ao forno com uma folha de papel vegetal por
cima cerca de 45 minutos. O tempo de cozedura vai determinar se o pão-de-ló
fica mais ou menos húmido, é uma questão de gosto. Não fica particularmente
bonito mas é a receita que me foi dada por uma amiga dos meus pais,
curiosamente presente naquele episódio matricial da Páscoa em Braga. Nunca me
falhou até hoje. Ela também não.
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domingo, 1 de abril de 2012
Frugalidades pecaminosas ou clafoutis de morango
A primeira explicação encontra-se
na fotografia de casamento dos meus pais. Da esquerda para a direita estão os
meus avós paternos, o meu avô garboso e a fazer pose, a minha avó muito
sorridente, um momento raro, de vestido escuro, colar de pérolas e chapéu, ambos
sorridentes, parecem felizes ambos, o meu pai, muito direito a fazer-se
indecentemente para a fotografia, atitude que o acompanhou durante todos os
seus dias, a minha mãe, radiosa, como todas as noivas, embevecida a olhar para
o seu recente marido e a minha avó materna, pequenina e fofa, já de cabelo
branco e com o ar doce de sempre. E vem tudo isto, porque o pedaço de perna e
de pantorrilha que sobra dos vestidos de ambas as minhas avós deixa à mostra a pernoca
gorducha e o tornozelo grosso. A da minha mãe, igualmente gorducha e de tornozelo
grosso não se vê evidentemente. Penso nesta fotografia quando me travo de
razões com as pernas encorpadas e tornozelos grossos e maldigo a genética.
A segunda explicação é que de
todos os pecados mortais aquele a que mais sucumbo é a gula. Não preciso de
comer muito, às vezes como, é verdade, mas sabem os deuses e Baco também, como
gosto de uma refeição opípara, preparada com carinho e partilhada com a
generosidade de dividir amores e deixar misturar-se no ar o aroma volúvel da
amizade. Se estiver sozinha, como algo rápido e frugal, passam-se anos sem que
coma um bolo de pastelaria, prescindo de cremes, natas e bolos superlativos de
cores e decorações, torço o nariz aos fritos que me olham de soslaio, miseráveis na sua existência entre vitrinas, se não comer pão não morro e batatas fritas e massas, como legumes, como fruta, como iogurtes magros, bebo muita água, mas não resisto a uma boa mesa entre amigos, um jantar de sexta-feira caprichado e um almoço de Domingo retemperador e prenhe de sabores novos e velhos na calmaria de nada fazer.
A terceira explicação é que gosto
de cozinhar. Gosto de experimentar coisas novas, acrescentar ao que já sei
fazer, modificar o faço, modifico muito e raramente sigo uma receita à risca e
gosto das cores, das fragrâncias, da expectativa, de cozinhar para os
outros. E gosto de bebericar um copo de
vinho enquanto cozinho, ou enquanto espero ou com a refeição, e de comer uns
amendoins salgados e picantes ou depenicar qualquer outra coisa que me corte o
adocicado do Moscatel ou do vinho do Porto ou do Port Tonic que, como se prevê,
também gosto.
E serve isto para dizer que com
esta genética e estes prazeres, só me restam dois trilhos: ou me conformo com
as formas rotundas, cada vez mais rotundas, ou me abalanço na dieta. Optei pela
última, mas como as dietas são como as leis, existem para ser quebradas, hoje
fiz um clafoutis de morangos para rematar o almoço de Domingo. Apetecia-me tanto mas tanto algo doce. Pareceu-me pouco
calórico e primaveril para comemorar a estação. Uma fatia não faz mal, ou fará?
Clafoutis de morango
Ingredientes
500 g de morangos
150 g de açúcar
120 g de farinha
4 ovos
200 ml de leite
200 ml de natas light.(usei marca branca Pingo Doce)
Preparação
Pré-aquecer o forno a 180º. Barrar uma forma
refratária com margarina. Lavar os morangos. Cortá-los em quartos longitudinais
e deixá-los escorrer. Bater os ovos com o açúcar até que fique um creme fofo e
esbranquiçado. Juntar a farinha e continuar a bater. Por fim adicionar o leite
e as natas. Espalhar os morangos uniformemente pela forma. Deitar o creme por
cima e levar ao forno durante cerca de quarenta minutos. Deixar arrefecer.
Fiquei fã deste doce indefinido
sem ser tarte ou bolo ou pudim de textura húmida, aveludada e macia. Ideal para
rematar um almoço mais pesado ou para quem gosta de sobremesas leves com fruta.
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sexta-feira, 30 de março de 2012
quinta-feira, 29 de março de 2012
Biscoitos crocantes reloaded
A verdade é que ninguém dá nada
por mim. Quem me conhece ao vivo e a cores acha-me incapaz, meio tresloucada,
de fala intempestiva e impulsiva e como tal incapaz de me dar a momentos calmos
de tecer sabores no templo por excelência da mulher prendada, a cozinha. Acham-me
inapta para a calmaria e harmonia de que são feitos todos os cozinhados opíparos
e sublimes. E eu aceito e não lhes levo a mal. Na verdade, acho até uma certa
piada a esta minha faceta obscura só inteligível a quem me conhece fora dos
portões da escola. Acontece-me muitas vezes quando digo que fiz algo que
adentre o domínio da fada do lar, essa capaz de amar com o que cozinha, capaz
de fazer declarações de amor só percetíveis ao palato. São cabeças que se viram
em desconfiança, olhares inquisitivos que pairam no ar e muitas vezes
verbalizações: Foste tu? E outras vezes o descrédito assumido: Não foste
nada! Nestas alturas faço o meu número preferido e afirmo peremptória mas
imensamente divertida: Sim, fui eu! Acrescento em versão resumida o que anteriormente foi dito e remato:
Ninguém dá nada por mim mas eu sou uma fada do lar. Na cozinha evidentemente. Quem tem ar de estarola basta saber fazer uns biscoitos para merecer o epíteto.
Chegadas mais umas reuniões de
final de período e para que pudéssemos rematar o momento com um apontamento
doce para apagar a pressão que sobre nós se abate, levei biscoitos para a minha reunião de Direcção de Turma. Não foi a primeira vez que o fiz e na
escola há mais quem o faça, comi um delicioso bolo de chocolate feito pela
Directora de uma das minhas turmas. Gosto destes momentos. Gosto de cozinhar
para os outros. Gosto de lhes dizer que, apesar dos pesares, de anos difíceis, e-mails
nem sempre simpáticos, gosto deles. Na escola pública, essa selva onde o povo se esgadanha aos olhos da opinião pública, os alunos batem nos professores e os professores são uns bandalhos merdosos,
passam-se coisas boas, muito boas. Basta afastarmos o preconceito e olhar,
entrar, sentir.
Ingredientes
1 ½ chávena de flocos de aveia
integrais
1 ½ chávena de flocos de trigo
tostados
1/3 de chávena de gérmen de trigo
1 chávena de amendoins com sal
picados grosseiramente
1 chávena de passas
1 chávena de farinha
1 chávena de açúcar amarelo
200g de margarina
1 ovo
Preparação
Pré-aquecer o forno a 190º. Hidratar as passas em
chá Earl Grey morno.
Juntar os flocos de aveia, de
trigo, o gérmen de trigo numa tigela e reservar.
Bater o açúcar com a margarina
até ficar cremoso. Juntar o ovo e bater mais. Deitar a farinha e bater bem para
que fique uniforme. Incorporar os amendoins picados grosseiramente e envolver
com uma espátula de silicone. Por último incorporar a mistura de ingredientes
sólidos. Moldar pequenas bolas de massa e achatá-las um pouco. Levar quinze a
dezoito minutos ao forno pré-aquecido.
Esta é a segunda versão destes biscoitos com pequenas alterações. Foram aprovados e voltei para casa com as
migalhas apenas. Há lá coisa melhor?
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domingo, 25 de março de 2012
Cantigas de Amigo e uns biscoitos de avelã
Durante um tempo achei que esquecíamos
os livros que líamos na escola porque os professores não os tornavam suficientemente
interessantes e atractivos. Lembro-me de livros de total negregura, sabem os
deuses como li Eurico o Presbítero e
como fiquei a odiar The Catcher in the
Rye. Acontece que no caso destes dois livros, os professores responsáveis
por cada uma das disciplinas eram competentes e interessados. Não seria pois
problema deles. Foi só mais tarde que percebi que o problema das leituras
obrigatórias não era dos professores, podia ser dos livros, não tenho a menor
dúvida, mas era acima de tudo do imperativo ‘Lê!’ Diz Daniel Pennac que o verbo
ler não comporta o imperativo. Nada mais certo. Ainda hoje, mulher adulta, se
me mandarem ler ou se tiver de ler por obrigação é um sacrifício, procrastino
até à última, apetece-me invariavelmente ler outras coisas, mastigo as letras
com enfado, e tenho digestões lentas e incomodativas.
Mas os livros que lemos na escola
assaltam-me de vez em quando. Não os livros, mas frases soltas que me ficaram
na memória. Estranhamente assaltam-me muito uns versos do Cesário Verde quando
se me anoitece a alma e por aqui paira alguma soturnidade. Desta vez o que me assaltou
foi um verso solto de uma cantiga de amigo. Terá sido há umas três décadas, mas
fiquei com aquela sonoridade das ‘avelaneiras frolidas’, logo eu que nunca vi
uma avelaneira. E isto tudo veio porque a receita desta semana do Dorie às
sextas eram uns biscoitos de avelã. Podiam ser olhos de avelã, provavelmente a
cor mais bonita de olhos, mas não. São sempre os livros que me cutucam.
Biscoitos de avelã e compota
Ingredientes
2 chávenas de avelã moída
(comprei no Lidl)
1 chávena de farinha sem fermento
½ chávena de farinha com fermento
½ chávena de açúcar
175g de margarina
1 ovo
Doce de framboesa e de alperce ou a gosto
Preparação
Pré-aquecer o forno a 190º. Bater o açúcar com a
margarina amolecida até ficar um creme esbranquiçado e fofo. Juntar o ovo e
continuar a bater. Juntar a farinha misturada com a avelã moída.
Fazer bolinhas com a massa. Achatá-las e abrir uma cavidade
no meio. Levar ao forno. Cerca de 5 minutos depois retirar os biscoitos do forno
e reforçar a cavidade com um objecto de madeira, Usei um maço de madeira para
esmagar as limas para a caipirinha. Levar ao forno cerca de 15 minutos mais.
Retirar do forno e deixar arrefecer um pouco. Levar a compota ao lume o tempo
suficiente apenas para derreter, não deixar ferver. Com uma colher de chá
encher as cavidades dos biscoitos com o doce.
Estes bolinhos/biscoitos são muito fáceis de fazer e são
deliciosos. A massa presta-se a variações e mesmo sem o doce são muito bons. Simples e despreocupados como eu gosto. Bailemos agora, por Deus, ai velidas.
terça-feira, 20 de março de 2012
Abraços de canela
Há dias em que não são precisas
palavras. Há dias em que um abraço forte chega, um beijo sentido é o suficiente.
Momentos de comunhão, de silêncios cúmplices longos, de conversas só audíveis
por um toque ou a troca de olhares de que são feitos os amores sólidos e
fortes. Há dias em que as palavras sobram inúteis e há dias em que se completa
o cadinho de enlevos com a mais ancestral forma de se amar, o prato preferido,
comida preparada para abraçar, perfumada de afectos.
Tarte de natas
Ingredientes
1 embalagem de massa folhada
refrigerada
5 ovos
225 g de açúcar
Raspa de 1/2 limão
2 colher de sobremesa de farinha Maizena
4 dl de natas (2 pacotes)
açúcar e canela em pó
Preparação
Pré-aquecer o forno a 190º. Desenrolar a placa de
massa folhada e com o papel vegetal. Forrar uma forma de tarte com fundo
amovível. Picar o fundo com um garfo e reservar no frigorífico enquanto se
prepara o recheio.
Bater os ovos com o açúcar e a
raspa do limão com a batedeira eléctrica na velocidade máxima. Dissolver
a farinha Maizena nas natas e juntar ao preparado anterior, continuando a bater.
Deitar o creme na caixa de massa
e levar forno quente durante cerca de 40 minutos. Desenformar e polvilhar com açúcar e canela em
pó.
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sábado, 17 de março de 2012
St.Paddy's Day ou um guisado luso-irlandês
Acalento a ideia de um dia ir a
Dublin passar um Bloomsday. Meros dias depois do meu aniversário, lá para Junho,
celebra-se a literatura. Pode haver coisa melhor para comemorar um aniversário?
Comemora-se o dia em que se desenrola Ulisses,
a obra-prima de James Joyce, diz que há gente pela rua a ler excertos da obra e
que é uma verdadeira festa. Acalento assim a ideia de começar o dia a pôr o
dente num rim frito que, como se sabe, sou rapariga temente e respeitadora no
que à literatura diz respeito e o que me falta em religiosidade sobra-me em
respeito venerando a entes vários desta arte que me colore os dias. O Bloomsday
é a festa da literatura por excelência. O que eu gostava de lá estar um dia.
Daria também um dia uma saltada a Edimburgo para celebrar a Burns’ Night bem no fim de Janeiro e acabar a noite a meter o dente num haggis, um
guisado de miúdos de cabrito, aconchegado como enchido e servido de formas
várias. Uma delícia, não se deixem desmoralizar pelos miúdos e o bucho. Ainda
hoje me sabem bem os que degustei em terras de kilts e gaitas de foles. Robert
Burns amarrou-o a este poema e acompanhado com uma ale num pub ruidoso nessa
tal Burns Night é ideia que me parece bem. E uns passeios a pé, castelo acima e
abaixo, bater perna nas ruelas íngremes ao entardecer quando o sol ilumina o castelo com o vento cortante a romper a barreira de cachecóis e luvas. E uns
pubs. Nada a fazer. A mulher do povo que há em mim odeia sítios presunçosos de
gente igualmente presunçosa atada de pés e mãos numa moralidade de pacotilha,
agarrada a pratos de fome gourmet e gosta de pubs. Muito. E de degustar. E de
bebericar. Acalento também a ideia de um dia ir passar o dia de St. Patrick a
Dublin.
Explicada que está esta ideia
peregrina do Bloomsday e da Burns Night, resta-me a explicação para o St.
Patrick’s Day. Acontece que não, não comemoro dia de festividade religiosa
nenhuma, estou cada vez menos católica de há décadas a esta parte, comecei a
celebrar o Natal com a festa da família, e na Páscoa revejo “A Vida de Brian”
como filme de época, um épico cá em casa, mas acho muita piada a esta festa de
rua com paradas e copos que celebra o santo católico que alegadamente terá
livrado a Irlanda das cobras. Diz que havia cobras na Irlanda. E leprechauns e potes de ouro no fim do
arco-íris. E chega de conversa fiada. Fica por saber se o que gosto é de celebrar
a literatura ou se de pôr pé daqui para fora, exactamente agora que me
rapinaram parte do ordenado e subsídios. Inclinar-me-ia pela segunda hipótese.
É sabido que os irlandeses não são exímios no que respeita a artes culinárias,
foi lá que bebi o pior café da minha vida, experiência tão traumática que
passado um quarto de século ainda me sabe mal e que a comida, ao contrário da
cerveja e do bom humor e simpatia dos irlandeses, pode ser maçadora e
sensaborona. Hoje é dia de St. Patrick e, por coincidência ou não, cá em casa o
jantar é Irish Stew. Começou a viagem. Estão convidados.
Irish Stew
Ingredientes
1kg de carne de vaca para guisar
1 chávena de caldo de carne
1 chávena de Guinness
1 chávena de vinho tinto
1 colher de sobremesa de molho inglês
(Worcestershire)
1 cebola
Batatas
Cenouras
Azeite
Margarina com alho
Alho picado
Tomilho
Sal
Pimenta preta acabada de moer
Preparação
Pré-aquecer o forno a 200º. Numa frigideira aquecer
um fio de azeite e uma noz de margarina com alho. Juntar a carne e selar.
Salpicar com pimenta preta acaba de moer e alho picado. Passar para um tacho de
barro que possa ir ao forno. Usei um tacho de barro saloio que comprei aqui na
aldeia. Cortar a cebola em rodelas finas e levar à frigideira onde se fritou a
carne. Quando a cebola amolecer um pouco, juntá-la à carne. Acrescentar a
chávena de Guinness, a de vinho tinto e de caldo de carne. Temperar com sal,
pimenta e acrescentar o tomilho. Levar ao forno cerca de uma hora a hora e meia
com o tacho tapado. Verificar a cozedura da carne e rectificar o tempero.
Após cerca de hora e meia de
cozedura acrescentar as batatas e as cenouras cortadas em pedaços. Usei batatas
pequenas para assar e corre sempre bem. Aguardar até que cozam, cerca de uma
hora, e servir. O molho fica líquido mas apurado. Dizem os especialistas que assim deve ser.
Este prato é um verdadeiro
conforto, inadequado para gente apressada, moroso, como convém em dias de calma e de recolhimento, e aconselhado para dias de invernia ou de alma fria. Nada a que os
irlandeses não estejam habituados e que nós não saibamos o que é. Agora vou ali
à procura do pote de ouro.
fotografias minhas de Dublin (James Joyce) e do Writers' Museum em Edimburgo.
terça-feira, 13 de março de 2012
Temperos de letras (2)
It is impossible not to love someone who makes toast for you. People's failings, even major ones such as when they make you wear short trousers to school, fall into insignificance as your teeth break through the rough, toasted crust and sink into the doughy cushion of white bread underneath. Once the warm, salty butter has hit your tongue, you are smitten. Putty in their hands.
Nigel Slater, Toast.
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domingo, 4 de março de 2012
Beef effing Wellington ou uma declaração de amor
A televisão contemporânea está cheia de programas de culinária e gastronomia. Entraram-nos pela casa dentro uma série de chefs completamente desconhecidos e que hoje em dia são quase íntimos. Cá em casa adoptámos um. Bruto, de linguajar impróprio, maneiras ríspidas e uma irresistível pronúncia britânica, Gordon Ramsay passou a ser o nosso chef de estimação. E isto porque, acredito, em cada um de nós há um Gordon Ramsay oculto, mais brando mas ainda assim impetuoso e quando não existe oculto desejamos ardentemente tê-lo e poder soltar uns impropérios sem mais consequências. Ninguém é assim, eu sei, mas há dias, alturas, momentos em que ficaria tão mais leve, assim pudesse libertar este vapores de fúria que se acumulam nos pulmões. Ou nas ancas talvez, o que explica muita coisa e me alivia a consciência. É fúria afinal. Posso comer mais uns biscoitos ou devassar-me num crumble ou num tiramisú. Das gritarias desalmadas do Hell’s Kitchen uma grande parte desenrolava-se em torno do Beef Wellington que, diga-se de passagem, nunca me suscitou grande interesse, mas um dia, há sempre um dia, comecei a nutrir uma certa curiosidade pelo naco de carne embrulhado numa camada generosa de massa folhada. O que faria desesperar e gritar tanta gente? Que raio se esconderia entra a crosta folhada e carne tão rosada? E era motivo para tanta quezília? Era. A gota de água foi quando me acusaram de não fazer Beef Wellington num misto de queixume e súplica e quando na procura da receita me cruzei com este clip. Parece tão fácil.
E foi hoje então. Os preparativos começaram no dia anterior logo com a escolha do naco de carne. Além de ter de ser suculento tinha de ser redondo, se não nada feito, para desespero do rapaz do talho. Nada como uma escolha criteriosa, qualidade e aspecto. No fundo não é assim em quase tudo na vida? Depois os cogumelos, uma trabalheira para os encontrar e por último foi esperar e deitar mãos à obra. Com calma e de alma descansada. O sol da manhã iluminava-me a cozinha e quase conseguia ver a tarja de mar lá ao fundo, minha companheira inseparável de todas as incursões no mundo de palatos e aromas. E depois foi partilhá-lo entre a expectativa e a surpresa, um copo de vinho frutado para contrastar a intensidade dos cogumelos e as réstias de sol que completaram mais este ágape da intimidade. Delicioso. Suculento. Divinal. Há muitas formas de declarar o amor. Esta é uma delas. Provavelmente a que faço melhor.
1kg de carne de vaca para assar
250 g de cogumelos de Portobello
1 pacote de presunto fatiado
1 embalagem de massa folhada refrigerada
Sal, pimenta preta acabada de moer, tomilho
Azeite e margarina com alho.
Vinho branco
Mostarda
Preparação
Envolver a carne em sal e pimenta preta acabada de moer e selá-la numa frigideira com azeite bem quente durante cerca de 20 minutos. Retirar do lume e deixar arrefecer no frigorífico enquanto se preparam os cogumelos.
Depois de lavados e escorridos, triturar num robot de cozinha. Levar ao lume num frigideira com azeite e uma noz generosa de margarina com alho. Deixar sumir por completo a água, temperar com sal, pimenta preta e tomilho. Deitar vinho branco e deixar cozinhar até o vinho sumir por completo. Deixar arrefecer.
Retirar a carne do frio e pincelar bem com mostarda. Na bancada da cozinha estender duas folhas de película aderente. Colocar as fatias de presunto, por cima a mistura de cogumelos e em cima a carne. Enrolar a carne e fechá-la bem na película aderente. Levar ao frigorífico 20 minutos.
Estender a massa folhada, pincelá-la com o ovo batido nas extremidades e enrolar a carne. Colocar numa travessa untada e levar ao frio mais cinco minutos. Retirar, pincelar com o restante ovo e fazer uns traços com uma faca na longitudinal mas sem cortar a massa. Levar ao forno pré-aquecido a 200º entre vinte e trinta minutos, dependendo do gosto.
Receita adaptada daqui
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sexta-feira, 2 de março de 2012
Fajitas chez moi
Advento do fim-de-semana a sexta-feira é por excelência dia de calma anunciada e dia em que me começa a apetecer fazer coisas diferentes. Comecei a maturar a ideia logo de manhã, enquanto finalizava uns afazeres profissionais e, como sempre, o resultado acabou por ser diferente. Primeiro pensei em deitar-lhe uns cogumelos, depois cogumelos e castanhas e por último batatas salteadas e castanhas. Acontece que não tinha cogumelos em casa e hoje estava sem paciência para supermercados, acontece que cheguei tarde a casa e sem paciência para as castanhas, acontece ainda que era jantar e as castanhas não são as mais pacíficas criaturas no que respeita a digestões. Acontece pois que da formação original, assim como se fosse uma banda que se foi desmembrando ao longo dos tempos, restou apenas a carne. De porco.
Não me lembro nunca de ter comido fajitas de porco, tenho mesmo a certeza de nunca o ter feito e sei também que nunca me cruzei com nenhuma receita, mas o que sei é que tinha cá em casa umas febras de porco bem suculentas compradas no talho aqui da aldeia e que não me apeteciam bifanas fritas ou panadas. Também sei que as fajitas requerem tempo para o tempero se abraçar à carne num lento passo de tango enlaçando ingredientes como se um só fossem, mas não, não tinha tempo para isso, não o suficiente. Teria de optar por um abraço menos longo, mais fugaz. Quantos não demos, assim fugazes, mas mantendo a intensidade? E bons, quentes e envolventes? Isso mesmo. Fajitas seriam.
Fajitas de porco
Fajitas de porco
Comecei por cortar as bifanas em tiras não muito finas. Juntei-lhes uma cebola em rodelas, temperei com sal, alho e pimenta preta moída na hora. Depois azeite, sumo de um limão e umas pitadas generosas de tomilho. Envolvi cuidadosamente com um grafo de madeira, valham-nos os deuses e a asae por este pecado. As batatas então. Cozi batatas pequenas com a pele. Cortei-as em pedaços. Voltemos à carne. Aqueci muito bem uma frigideira e deitei-lhes a carne e a cebola. Deixei frigir com o lume alto e supervisão constante. Ao mesmo tempo comecei a saltear as batatas em azeite. A meio do processo, juntei-lhes alho. No fim faltava o toque de cor com salsa picada e o toque inquieto do vinagre. Como as batatas salteadas da minha infância, eliminadas liminarmente do meu prato sempre que a minha mãe as preparava e que aprendi a gostar em adulta. Fácil e delicioso. Só me faltou um copo de vinho tinto para miscijenar ainda mais os sabores. Se são fajitas ou não é uma outra questão.
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