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terça-feira, 5 de junho de 2012

Cookies de chocolate e a festa derradeira

Era baixo, louro, adorava futebol, era tímido e discreto, provavelmente o mais velho da turma mas terá sido ele que algures perto do Natal sugeriu que se fizesse uma festa. Aproveitei a ocasião para os apresentar aos costumes gatronómicos alemães em tempo de Natal e não correu mal. Nessa festa houve Lebkuchen, Spekulatius de canela e umas Stollen pequenas, a única iguaria alemã que cá chega. Trouxe para a casa os Lebkuchen. Ainda os havia por cá quase um ano depois mas dos Spekulatius nem migalha. Aprovados. 
Depois desse dia de Dezembro tardio e frio, em que, desconfiada, achei que não haveria festa nenhuma e que os alunos presentemente não ligavam a festas que envolvessem aulas e professores, instituiu-se, para meu grande espanto, na minha turma de Alemão, a festa de final de período. E assim foi durante estes dois últimos anos.
Uns dias antes, às vezes na véspera, surge a pergunta sacramental, uma semi afirmação à espera da minha confirmação Então e a nossa festa? Stora, temos de fazer a nossa festa! Chegado o dia, cada um traz o que tem ou o que se lembrou, às vezes quotizam-se para comprar bebidas e outras trazem bolos caseiros feitos por elas. Acontece que este ano em vez de ir a correr comprar tudo pronto a comer, abalancei-me a fazer-lhes uns cookies de chocolate. A primeira vez adoraram, a segunda idem e hoje quando lhes perguntei Então e amanhã, querem outros biscoitos ou faço os de chocolate? A resposta não podia ser mais convicta: Não, stora, os de chocolate! Sorrisos largos com a leveza de quem tem o mundo pela frente. Largaram uns comentários elogiosos aos pequenos rochedos de chocolate e foram-se com a urgência de quem tem o mundo à espera. Num bocado de tarde entre uma e outra tarefa profissional, adentrei a cozinha e fiz os tão desejados cookies de chocolate para mais uma festa, desta vez a derradeira. Amanhã é a última aula. Terão sido por isso os últimos que lhes fiz e amanhã estarei forte como sempre me conheceram: de aparência robusta como os meus cookies de chocolate e no meio suave e frágil, como eles também. Também somos o que cozinhamos. Quando tiverem saído apanharei silenciosa as minhas próprias migalhas.

Cookies de chocolate

Ingredientes
250 g de farinha com fermento
90 g de chocolate em pó
1 colher de sopa de fermento
100 g de açúcar
100 g de flocos de aveia.
200 g de margarina
1 ovo
100 g de chocolate culinário

Preparação
Pré-aquecer o forno a 180º. Derreter a margarina e deixar arrefecer um pouco. Misturar os ingredientes secos numa tigela larga. Adicionar a margarina derretida e envolver bem. Juntar por fim o ovo inteiro e o chocolate cortado em pedaços pequenos. Fazer bolinhas pequenas e levá-las o forno num tabuleiro forrado com papel vegetal cerca de 15 minutos.




sábado, 26 de maio de 2012

Prazeres da vida e uns brigadeiros de coco


Chegada a minha vez esperava-me o médico que já vira várias vezes, de sorriso e braços abertos, é bom ter médicos que nos tratam bem, e a quem confiei várias vezes a tarefa de supervisionar o meu peso. De todas as confissões anteriores havia uma que se me tinha escapado, talvez porque nunca a considerei muito importante ou apenas porque a tenha sentido uma parte de mim, tão intrínseca como o cabelo selvagem ou os modos abruptos quando o humor se me enche como maré alta e rebenta em vagas furiosas. E sem saber por quê acabei por lhe dizer Sabe, doutor, é que eu gosto muito de cozinhar. Ele riu-se e respondeu Mas pode, cozinhar pode… ao que concluí Pois, não posso é comer. Ora acontece, como já terei confessado por aí, que cozinhar e o prazer da mesa andam de mãos dadas para mim, e admito que tenho uma certa desconfiança por quem depenica comida e a olha o prato à sua frente com ar de enfado ou náusea. Gente estranha. Associo sempre o prazer de comer aos prazeres da vida. Acontece ainda que se tiver convidados cá em casa tenho um medo incontrolável de que a comida não chegue e que os comensais se entreolhem com o estômago a reclamar e mentalmente me dirijam impropérios por tamanha frugalidade ou avareza ou incapacidade de calcular quantidades. Outras vezes não é apenas a quantidade que se me ataca, é a diversidade. Detesto refeições monótonas em dias de festa, refeições onde não há escolha e não se pode saltitar entre os folhadinhos de farinheira e os triângulos de chouriço ou entre a mousse de abacate e o bolo de chocolate. Foi exactamente por isto que depois de ter decidido a ementa de aniversário da minha mãe, atendendo aos seus pedidos e gostos e que cumpriria escrupulosamente, achei que faltaria algo doce para mesclar com o sabor meio acre do café no fim da refeição. Deitei mãos à obra e depois de umas voltas pela net para inspiração, nada, nos dias que correm, é totalmente inovador, lembrei-me de fazer brigadeiros de coco. O prazer de cozinhar que me cutucou outra vez e a necessidade vital da escolha e da diversidade. E provei-os evidentemente. Eu avisei que estava tudo ligado.

Brigadeiros de coco

Ingredientes
1 ½ lata de leite condensado
2 colheres de sopa de margarina
200 g de coco + coco para envolver os brigadeiros.
1 cálice pequeno de whisky

Preparação
Num tacho deitar o leite condensado, o coco e a margarina. Levar a lume brando mexendo sempre para não deixar queimar e envolver bem os ingredientes. Juntar o whisky e continuar a mexer até fazer estrada no tacho.
Deitar de seguida num recipiente e deixar arrefecer. Depois de morno ou frio enrolar bolinhas e envolvê-las no coco ralado. Levar ao frigorífico. Uma meia hora antes de servir retirar do frigorífico para reganhar sabor e melhorar a textura.
Todos comeram e ninguém se queixou.



sábado, 19 de maio de 2012

Fruta da época e uma mousse de morangos

Gosto de me ver como uma não nostálgica com a mania de que o passado deve ficar arrumado lá onde acomodamos com carinho o que já nos serviu, o que fez de nós quem somos mas que deve repousar no berço das coisas adormecidas, embalado por memórias felizes de tempos que não voltam. Gosto de olhar para mim como alguém que olha para a frente, mais para a frente e muito pouco para trás. Acontece que entre o que achamos que somos e o que somos na realidade existe um hiato. Dias há em que pensamos que o conseguimos resolver e outros em que o sentimos como um rio intransponível e a outra margem, a margem que achamos que somos, incapaz de ser alcançada. Acontece muito.
 Fui chamada ao passado pelos morangos quando um destes dias me cruzei com eles nos meus afazares domésticos. Carnudos, vermelhos e aromáticos são um festim para esta que come com os olhos e tem faro de perdigueira, uma falta a que não sei fugir, e fiquei incrivelmente nostálgica dos tempos em que havia fruta da época anunciada nos menus dos restaurantes, porque na verdade a única fruta disponível era a da época.
Nesses tempos, a fruta da época abria sempre um novo ciclo e a espera por esses momentos era feita com labor e ansiedade, a felicidade suprema quando os primeiros frutos surgiam nas bancas da praça, sem formatações nem brilhos adicionados, com os defeitos com a que a natureza os tinha parido. Laranjas e maçãs eram sempre fruta de Inverno, de recolhimento, aquecedores e humidade, e manhãs de nevoeiro gótico por aqui onde o sol se enchia de caprichos de fêmea e fazia aparições esporádicas de diva dominadora. Uvas eram fruta de Outono, o indício de que um tempo acabara. O tempo das tardes e noites longas, de roupas leves e corpos soltos. Um ciclo de inconsequências e felicidades efémeras, a transitoriedade do que se quer eterno chegara ao fim. Antes das uvas e das laranjas e maçãs, havia morangos e depois dos morangos, os pêssegos e as ameixas coroadas com o zénite do Verão. Os morangos marcavam o início do tempo quente, como eu gosto, a alvorada do sonho e a promessa de levezas várias, despreocupações múltiplas de corpos ao sol, tisnados de salgadiço, perfumados de maresia  e beijados longamente pelo sol em tardes sem fim no areal imenso que me viu crescer. Que saudades do tempo dos morangos. Desse tempo de morangos. Do meu tempo de morangos.

Mousse de morangos 

Ingredientes 
1 lata de leite condensado 
4 iogurtes gregos naturais sem açúcar (usei marca branca) 
6 folhas de gelatina 
500 g de morangos + morangos a gosto 
Bolacha torrada 

Preparação 
Demolhar as folhas de gelatina em água fria. Lavar os morangos e reduzi-los a puré numa liquidificadora. Bater o leite condensado com os iogurtes. Juntar o puré de morangos. Derreter as folhas de gelatina em água a ferver e incorporá-las depois de bem diluídas no preparado anterior. Deitar tudo numa taça e adicionar por cima morangos cortados em cubos pequenos. Levar ao frigorífico de um dia para o outro. No momento de servir, moer bolacha torrada a gosto e espalhar por cima.


sábado, 14 de abril de 2012

A vida na aldeia e um bolo de morangos



Dizem-me que a cidade me falta e que bastarão uns fumos poluentes logo ali na Calçada de Carriche para que se me libertem os humores e os meus dias se encham de sol. A cidade falta-me, é verdade. Falta-me muitas vezes. Faltam-me os lugares-comuns da luz de Lisboa e falta-me o bulício de cidade, pessoas que se cruzam de um lado para o outro, correrias e idiossincrasias várias. Não que me sinta citadina ou urbana mas as grandes urbes são como ímans onde sonho sempre regressar.
A vida na aldeia não é como a vida na cidade. A vida na aldeia é comandada pelos passos lânguidos de um tempo muito próprio, de uma outra dimensão, como se as horas tivessem uma medida de tempo oculta vagarosa, uma clepsidra feita de vagares que se alternam noite e dia, e se alongam entre conversas várias no meio do largo ou em plena rua indiferentes a carros ou quaisquer outros veículos. Na aldeia reinam as pessoas e os vagares.
Na aldeia não reinam só os vagares. Na aldeia reina a alma de gente que tem o negócio no sangue. Se puderem vender nunca ficarão parados, jamais calados perante as qualidades indiscutíveis dos seus bens e irredutíveis na arte de convencer a freguesia. Não há como eles. A arte está-lhes nos genes. Na aldeia não há isso de trabalho infantil, há a necessidade de dar um jeito quando os adultos se ausentam para um qualquer propósito, uma responsabilidade que se incute sem que daí venha mal ao mundo. Desde tenra idade é vê-los diligentes nas demasias e a destrocar dinheiro enquanto elogiam as batatas ou bendizem os morangos e perguntam se queremos ovos caseiros, na cidade diz que são biológicos.
Foi hoje pela fresca. Um almoço de família ditaria uma sobremesa para a qual me faltava fruta. Rumei à mercearia que agora se acomodou no largo da igreja mas desta feita quase de frente para a igreja e isto porque, suspeito, o tempo em que estiveram de costas para a igreja o negócio murchou como grelos ao sol. Seguiu-se um breve período em que a venda tinha lugar numa carrinha. Uma vez aberta desvendavam-se cores e aromas, formas rotundas e longilíneas de legumes e frutos diversificados. Uma festa para os sentidos. Ainda estou para perceber porque aquele poema do Cesário Verde nunca me convenceu.
Estava lá o João. Tem uns nove anos, quem sabe, uns olhos azuis acinzentados encantadores e a ginga do negócio no corpo. Estava a jogar um jogo no computador literalmente virado de cangalhas, a noventa graus e com o ecrã apoiado em cima duns caixotes, enquanto atendia uma anciã insatisfeita com a cor tão desmaiada do açúcar amarelo. Os meus olhos saltaram para uns abacates bem rotundos, um regalo para os olhos, e quando murmurei algo sobre os ditos, o João saiu da caixa e ensinou-me, pegando num abacate Quer ver, disse, aproximando-o de mim, Se se ouvir o caroço lá dentro está maduro e pegando num outro exemplificou abanando-o levemente Está a ouvir? Sim, estava.
Comprei morangos para o bolo do almoço de família, não havia ameixas e as nêsperas não me convenceram. Voltei vagarosa. Perscrutei os patos e galinhas da vizinha a caminho de casa, a exuberância dos limoeiros e fui cumprimentada pela fragrância da glicínia à entrada do jardim.
Há dias em que tenho saudades da cidade. Hoje não foi um deles. 


Bolo (desta vez ) de morangos 

Ingredientes
4 ovos
200g de farinha
200g de açúcar
200g de margarina
morangos ou outra fruta a gosto

Preparação
Untar uma forma de pirex baixa e pré-aquecer o forno a 190º. Bater a margarina com o açúcar. Juntar os ovos um a um e adicionar por fim a farinha continuando a bater mas em velocidade média. Deitar na forma e espalhar os morangos. Levar ao forno cerca de 20 minutos. 
Este bolo que fica quase uma tarte presta-se a muitas variações de acordo com a fruta que for adicionada. Já experimentei com framboesas, mistura de frutos silvestres congelada, pêssegos e maçã envolvida em açúcar e canela. Se se quiser fazer um bolo maior é só acrescentar 50 gramas de cada ingrediente por cada ovo a mais. Muito fácil de confeccionar não me tem desiludido. Hoje também não correu mal.


sexta-feira, 6 de abril de 2012

Em nome do Pai


A Páscoa é ter três ou quatro anos, um vestido azul-turquesa de fazenda vestido que me picava, era capaz de jurar que tinha a saia pregueada, e estar às cavalitas de um amigo dos meus pais. A Páscoa é tremer de medo com a procissão dos farricocos em Braga nesse mesmo dia do vestido azul-turquesa que me picava mas me aterrorizava menos que aquelas figuras tétricas sem rosto a fazer barulho cidade fora. A Páscoa era não haver politicamente correcto e poupar a criança do vestido azul-turquesa de fazenda àquele susto. A Páscoa é Beira-alta. A Páscoa é Tibaldinho e a festa da aldeia, o povo engalanado nas suas melhores farpelas. A Páscoa é esperar. A Páscoa é esperar pacientemente sem meter dedo ou dente perante uma mesa cheia de doces, bolos, folares pela hora do almoço, controlar o ímpeto de criança, obedecer aos meus pais e portar-me bem lá nessa casa dos doces, bolos e folares e dinheiro por baixo de uma laranja na mesa. A Páscoa é esse sacrifício. A Páscoa é o padre chegar e trazer uma imagem e dar-nos a beijá-la. Diz que era Cristo menino mas nunca entendi porque se havia de não comer bolos, haver dinheiro em cima da mesa e beijar uma imagem naquele tempo. A Páscoa é a procissão do enterro do Senhor pelas ruas de Viseu. A Páscoa é ter muitas dúvidas que dos mortos nunca ninguém voltou e não me consta que Jesus Cristo apreciasse tanto fausto, tanta celebração, alguma ostentação. A Páscoa é estar num qualquer sítio do mundo e pensar Olha, hoje é Domingo de Páscoa. A Páscoa é a esperança de dias longos, dias novos. A Páscoa é leite-creme queimado com a pá de ferro que vai passando de geração em geração. A Páscoa é e será sempre pão-de-ló com queijo da Serra. A Páscoa será sempre o pão-de-ló que fiz, que se fazia para o meu pai. A Páscoa é ele sorrir-me com os olhos amendoados e dizer-me Está uma maravilha, filhota. A Páscoa é comer o pão-de-ló em sua homenagem. Hoje e sempre.

Ingredientes
250 g de açúcar
125 g de farinha
8 gemas
4 ovos inteiros

Preparação
Forrar uma forma com um buraco no meio com papel vegetal. Pré-aquecer o forno a 190 º. Bater os ovos com o açúcar até ficar uma mistura fofa e aveludada cerca de oito minutos. Juntar a farinha e bater mais dois minutos. É muito importante que a massa fiquei bem batida para ficar leve. Deitar com cuidado na forma e levar ao forno com uma folha de papel vegetal por cima cerca de 45 minutos. O tempo de cozedura vai determinar se o pão-de-ló fica mais ou menos húmido, é uma questão de gosto. Não fica particularmente bonito mas é a receita que me foi dada por uma amiga dos meus pais, curiosamente presente naquele episódio matricial da Páscoa em Braga. Nunca me falhou até hoje. Ela também não.


domingo, 1 de abril de 2012

Frugalidades pecaminosas ou clafoutis de morango


A primeira explicação encontra-se na fotografia de casamento dos meus pais. Da esquerda para a direita estão os meus avós paternos, o meu avô garboso e a fazer pose, a minha avó muito sorridente, um momento raro, de vestido escuro, colar de pérolas e chapéu, ambos sorridentes, parecem felizes ambos, o meu pai, muito direito a fazer-se indecentemente para a fotografia, atitude que o acompanhou durante todos os seus dias, a minha mãe, radiosa, como todas as noivas, embevecida a olhar para o seu recente marido e a minha avó materna, pequenina e fofa, já de cabelo branco e com o ar doce de sempre. E vem tudo isto, porque o pedaço de perna e de pantorrilha que sobra dos vestidos de ambas as minhas avós deixa à mostra a pernoca gorducha e o tornozelo grosso. A da minha mãe, igualmente gorducha e de tornozelo grosso não se vê evidentemente. Penso nesta fotografia quando me travo de razões com as pernas encorpadas e tornozelos grossos e maldigo a genética.
A segunda explicação é que de todos os pecados mortais aquele a que mais sucumbo é a gula. Não preciso de comer muito, às vezes como, é verdade, mas sabem os deuses e Baco também, como gosto de uma refeição opípara, preparada com carinho e partilhada com a generosidade de dividir amores e deixar misturar-se no ar o aroma volúvel da amizade. Se estiver sozinha, como algo rápido e frugal, passam-se anos sem que coma um bolo de pastelaria, prescindo de cremes, natas e bolos superlativos de cores e decorações, torço o nariz aos fritos que me olham de soslaio, miseráveis na sua existência entre vitrinas, se não comer pão não morro e batatas fritas e massas, como legumes, como fruta, como iogurtes magros, bebo muita água, mas não resisto a uma boa mesa entre amigos, um jantar de sexta-feira caprichado e um almoço de Domingo retemperador e prenhe de sabores novos e velhos na calmaria de nada fazer.
A terceira explicação é que gosto de cozinhar. Gosto de experimentar coisas novas, acrescentar ao que já sei fazer, modificar o faço, modifico muito e raramente sigo uma receita à risca e gosto das cores, das fragrâncias, da expectativa, de cozinhar para os outros.  E gosto de bebericar um copo de vinho enquanto cozinho, ou enquanto espero ou com a refeição, e de comer uns amendoins salgados e picantes ou depenicar qualquer outra coisa que me corte o adocicado do Moscatel ou do vinho do Porto ou do Port Tonic que, como se prevê, também gosto.
E serve isto para dizer que com esta genética e estes prazeres, só me restam dois trilhos: ou me conformo com as formas rotundas, cada vez mais rotundas, ou me abalanço na dieta. Optei pela última, mas como as dietas são como as leis, existem para ser quebradas, hoje fiz um clafoutis de morangos para rematar o almoço de Domingo. Apetecia-me tanto mas tanto algo doce. Pareceu-me pouco calórico e primaveril para comemorar a estação. Uma fatia não faz mal, ou fará?

Clafoutis de morango

Ingredientes
500 g de morangos
150 g de açúcar
120 g de farinha
4 ovos
200 ml de leite
200 ml de natas light.(usei marca branca Pingo Doce)

Preparação
Pré-aquecer o forno a 180º. Barrar uma forma refratária com margarina. Lavar os morangos. Cortá-los em quartos longitudinais e deixá-los escorrer. Bater os ovos com o açúcar até que fique um creme fofo e esbranquiçado. Juntar a farinha e continuar a bater. Por fim adicionar o leite e as natas. Espalhar os morangos uniformemente pela forma. Deitar o creme por cima e levar ao forno durante cerca de quarenta minutos.  Deixar arrefecer.



Fiquei fã deste doce indefinido sem ser tarte ou bolo ou pudim de textura húmida, aveludada e macia. Ideal para rematar um almoço mais pesado ou para quem gosta de sobremesas leves com fruta. 

quinta-feira, 29 de março de 2012

Biscoitos crocantes reloaded


A verdade é que ninguém dá nada por mim. Quem me conhece ao vivo e a cores acha-me incapaz, meio tresloucada, de fala intempestiva e impulsiva e como tal incapaz de me dar a momentos calmos de tecer sabores no templo por excelência da mulher prendada, a cozinha. Acham-me inapta para a calmaria e harmonia de que são feitos todos os cozinhados opíparos e sublimes. E eu aceito e não lhes levo a mal. Na verdade, acho até uma certa piada a esta minha faceta obscura só inteligível a quem me conhece fora dos portões da escola. Acontece-me muitas vezes quando digo que fiz algo que adentre o domínio da fada do lar, essa capaz de amar com o que cozinha, capaz de fazer declarações de amor só percetíveis ao palato. São cabeças que se viram em desconfiança, olhares inquisitivos que pairam no ar e muitas vezes verbalizações: Foste tu? E outras vezes o descrédito assumido: Não foste nada! Nestas alturas faço o meu número preferido e afirmo peremptória mas imensamente divertida: Sim, fui eu! Acrescento em versão resumida  o que anteriormente foi dito e remato: Ninguém dá nada por mim mas eu sou uma fada do lar. Na cozinha evidentemente. Quem tem ar de estarola basta saber fazer uns biscoitos para merecer o epíteto.
Chegadas mais umas reuniões de final de período e para que pudéssemos rematar o momento com um apontamento doce para apagar a pressão que sobre nós se abate, levei biscoitos para a minha reunião de Direcção de Turma. Não foi a primeira vez que o fiz e na escola há mais quem o faça, comi um delicioso bolo de chocolate feito pela Directora de uma das minhas turmas. Gosto destes momentos. Gosto de cozinhar para os outros. Gosto de lhes dizer que, apesar dos pesares, de anos difíceis, e-mails nem sempre simpáticos, gosto deles. Na  escola pública, essa selva onde o povo se esgadanha aos olhos da opinião pública, os alunos batem nos professores e os professores são uns bandalhos merdosos, passam-se coisas boas, muito boas. Basta afastarmos o preconceito e olhar, entrar, sentir.

 Biscoitos crocantes de amendoim e passas

Ingredientes

1 ½ chávena de flocos de aveia integrais
1 ½ chávena de flocos de trigo tostados
1/3 de chávena de gérmen de trigo
1 chávena de amendoins com sal picados grosseiramente
1 chávena de passas
1 chávena de farinha
1 chávena de açúcar amarelo
200g de margarina
1 ovo

Preparação

Pré-aquecer o forno a 190º. Hidratar as passas em chá Earl Grey morno.
Juntar os flocos de aveia, de trigo, o gérmen de trigo numa tigela e reservar.
Bater o açúcar com a margarina até ficar cremoso. Juntar o ovo e bater mais. Deitar a farinha e bater bem para que fique uniforme. Incorporar os amendoins picados grosseiramente e envolver com uma espátula de silicone. Por último incorporar a mistura de ingredientes sólidos. Moldar pequenas bolas de massa e achatá-las um pouco. Levar quinze a dezoito minutos ao forno pré-aquecido.


Esta é a segunda versão destes biscoitos com pequenas alterações. Foram aprovados e voltei para casa com as migalhas apenas. Há lá coisa melhor?

domingo, 25 de março de 2012

Cantigas de Amigo e uns biscoitos de avelã


Durante um tempo achei que esquecíamos os livros que líamos na escola porque os professores não os tornavam suficientemente interessantes e atractivos. Lembro-me de livros de total negregura, sabem os deuses como li Eurico o Presbítero e como fiquei a odiar The Catcher in the Rye. Acontece que no caso destes dois livros, os professores responsáveis por cada uma das disciplinas eram competentes e interessados. Não seria pois problema deles. Foi só mais tarde que percebi que o problema das leituras obrigatórias não era dos professores, podia ser dos livros, não tenho a menor dúvida, mas era acima de tudo do imperativo ‘Lê!’ Diz Daniel Pennac que o verbo ler não comporta o imperativo. Nada mais certo. Ainda hoje, mulher adulta, se me mandarem ler ou se tiver de ler por obrigação é um sacrifício, procrastino até à última, apetece-me invariavelmente ler outras coisas, mastigo as letras com enfado, e tenho digestões lentas e incomodativas.
Mas os livros que lemos na escola assaltam-me de vez em quando. Não os livros, mas frases soltas que me ficaram na memória. Estranhamente assaltam-me muito uns versos do Cesário Verde quando se me anoitece a alma e por aqui paira alguma soturnidade. Desta vez o que me assaltou foi um verso solto de uma cantiga de amigo. Terá sido há umas três décadas, mas fiquei com aquela sonoridade das ‘avelaneiras frolidas’, logo eu que nunca vi uma avelaneira. E isto tudo veio porque a receita desta semana do Dorie às sextas eram uns biscoitos de avelã. Podiam ser olhos de avelã, provavelmente a cor mais bonita de olhos, mas não. São sempre os livros que me cutucam.

Biscoitos de avelã e compota

Ingredientes
2 chávenas de avelã moída (comprei no Lidl)
1 chávena de farinha sem fermento
½ chávena de farinha com fermento
½ chávena de açúcar
175g de margarina
1 ovo
Doce de framboesa e de alperce ou a gosto

Preparação
Pré-aquecer o forno a 190º. Bater o açúcar com a margarina amolecida até ficar um creme esbranquiçado e fofo. Juntar o ovo e continuar a bater. Juntar a farinha misturada com a avelã moída.
Fazer bolinhas com a massa. Achatá-las e abrir uma cavidade no meio. Levar ao forno. Cerca de 5 minutos depois retirar os biscoitos do forno e reforçar a cavidade com um objecto de madeira, Usei um maço de madeira para esmagar as limas para a caipirinha. Levar ao forno cerca de 15 minutos mais. Retirar do forno e deixar arrefecer um pouco. Levar a compota ao lume o tempo suficiente apenas para derreter, não deixar ferver. Com uma colher de chá encher as cavidades dos biscoitos com o doce.
Estes bolinhos/biscoitos são muito fáceis de fazer e são deliciosos. A massa presta-se a variações e mesmo sem o doce são muito bons. Simples e despreocupados como eu gosto. Bailemos agora, por Deus, ai velidas.




terça-feira, 20 de março de 2012

Abraços de canela

Há dias em que não são precisas palavras. Há dias em que um abraço forte chega, um beijo sentido é o suficiente. Momentos de comunhão, de silêncios cúmplices longos, de conversas só audíveis por um toque ou a troca de olhares de que são feitos os amores sólidos e fortes. Há dias em que as palavras sobram inúteis e há dias em que se completa o cadinho de enlevos com a mais ancestral forma de se amar, o prato preferido, comida preparada para abraçar, perfumada de afectos.

Tarte de natas

Ingredientes
1 embalagem de massa folhada refrigerada
5 ovos
225 g de açúcar
Raspa de 1/2 limão
2 colher de sobremesa de farinha Maizena
4 dl de natas (2 pacotes)
açúcar e canela em pó

Preparação
Pré-aquecer o forno a 190º. Desenrolar a placa de massa folhada e com o papel vegetal. Forrar uma forma de tarte com fundo amovível. Picar o fundo com um garfo e reservar no frigorífico enquanto se prepara o recheio.
Bater os ovos com o açúcar e a raspa do limão com a batedeira eléctrica na velocidade máxima. Dissolver a farinha Maizena nas natas e juntar ao preparado anterior, continuando a bater.
Deitar o creme na caixa de massa e levar forno quente durante cerca de 40 minutos.  Desenformar e polvilhar com açúcar e canela em pó.

Tão fácil o amor às vezes.




sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O dia de todas as indecisões

Acordei cedo com uma sensação estranha. O corpo meio mole mas sem sono. Deixei-me deambular sem grandes planos excepto um compromisso à tarde que me impossibilitaria um outro. E agora, a qual vou? Esta indecisão usurpou-me a alma e fez-me balançante, incapaz de tomar decisões, de resolver até as pequenas coisas, dia fora. Ainda de manhã, olhei para o relógio várias vezes, cronometrando se teria tempo de ir à frutaria, aqui mesmo em cima, para fazer a tarte proposta esta semana no Dorie às sextas. Teria? Não teria? E depois a dúvida ainda mais penosa. Faço? Não faço? E ainda: vou fazer uma caminhada? Não vou? Se a este ponto já estão cansados de me ouvir, imaginem a minha saturação desta mulher meio frouxa que raramente me visita. Não gosto dela. Esta indecisão prendia-se como uma outra decisão: fazer dieta. Nada de muito austero, neste momento não suporto mais austeridade, começo até a odiar a palavra, mas um regime mais frugal e equilibrado, sem biscoitos e outras iguarias que me têm desgraçado, só vai contribuir para que não perca o fôlego e me sinta melhor. No meio da indecisão, e depois de ter ido fazer a dita caminhada aqui pelo campo, entre pinhais e limoeiros, decidi que sim, que participaria, a publicação de fotografias apetitosas aguçou-me o apetite e a curiosidade, e deitei mãos à obra. Compradas as maçãs e com a rodela de massa folhada no frigorifico, a consciência um pouco mais leve de me ter ido livrar de calorias por esse mato fora, iniciei esse processo alquímico e profundamente intuitivo de cozinhar. Quem gosta de cozinhar sabe como é. A proposta era uma tarte de maçã, mas não qualquer tarte, uma Tarte Tatin que requer calma e temperança, mesmo sem ser muito trabalhosa. O fim de tarde pôs-se ameno e foi bordejado por um momento doce em excelente companhia e uma chávena de Earl Grey fumegante. Boa decisão afinal.

Ingredientes:
120 g de açúcar
50 g de margarina
6 maçãs Gala
1 embalagem de massa folhada refrigerada

Preparação:
Numa frigideira derreter a margarina. Depois de derretida, juntar o açúcar e continuar no lume. Juntar as maçãs cortadas em oitavos com a parte convexa para baixo e deixá-las caramelizar com calma mas sempre sob supervisão. Quando estão suficientemente douradas, não deixei caramelizar muito, borrifar com Moscatel. Tirar do lume. Aconchegar as maçãs com a massa folhada e levar ao forno pré-aquecido a 190º cerca de 20 minutos. Assim que estiver pronta virar para um prato de forma determinada e sem hesitações. Por esta hora já me tinha passado a indecisão e correu muito bem.
Esta tarte pode ser feita com outra fruta e aromas mais criativos. Hoje o dia não me permitiu grandes variações mas assim mesmo ficou deliciosa. Menos é mais. Hoje pelo menos.


sábado, 11 de fevereiro de 2012

Como na vida


Que tudo fosse tão fácil. Que tudo fosse tão fácil como cozinhar, fazer bolos e biscoitos. Nesta minha participação no Dorie às Sextas tem havido algo que me ocupa mais tempo do que a confecção das receitas propostas. Não que não me aplique mas quando chega a altura de tirar as fotografias para postar começam as dificuldades. Subo as escadas, abro o armário e, depois de uma espreitadela,  escolho uma toalha. Depois vou tentando. Mudo os biscoitos, mudo os adereços, provavelmente a toalha, dou uma volta aos bolos, acrescento chávenas, ora de chá ora de café, ponho uma colher, tiro a colher, parto os biscoitos ao meio para lhe dar uma ar mais verosímil, como se alguém os tivesse partilhado mas nunca nada fica exactamente como gostaria e nunca se sente na plenitude como ficaram. Desta vez, por exemplo, esperei um dia pela luz da manhã e apliquei-me. O resultado foi o que vêem. 
A proposta desta semana eram uns deliciosos biscoitos de granola. Ora como se sabe, tenho a mania das invenções e, portanto, quando a receita foi divulgada tratei logo de fazer alterações. Primeiro foi a dita granola, cá em casa mais conhecida por müsli. Não tendo conseguido encontrar sem frutos decidi que utilizaria apenas flocos de aveia e flocos tostados de trigo, ambos encontrados na secção de produtos naturais do supermercado e um dos meus poisos nos últimos tempos. E depois a fruta. Excluí liminarmente as passas e optei por damascos picados em pedaços. E como nem tudo são rosas neste templo alquímico de criar fórmulas de prazer e resultados de deleite, a massa saiu-me uma amálgama informe, difícil de arrumar em pequenas circunferências e que me deixou na dúvida durante aqueles quinze minutos de forno. Uma vez cá fora espreitei-os desconfiada e passados dez minutos dissiparam-se-me as dúvidas com um belo cafezinho em mais uma gloriosa manhã de sol: deliciosos, crocantes, doces na medida certa, animadores como o amendoim e levemente ácidos do damasco tímido lá pelo meio. Assim um bocadinho como se quer a vida: não demasiado doce para que não enjoe, suficientemente animadora para que possamos sorrir e com uma acidez esporádica para que o doce se torne mais doce quando regressa. Nada que se sinta nas fotografias, como vêem. Eu não disse que era um fracasso?

Biscoitos crocantes de amendoim e damasco

Ingredientes
1 ½ chávena de flocos de aveia integrais
1 ½ chávena de flocos de trigo tostados
1/3 de chávena de gérmen de trigo
1 chávena de amendoins salgados picados grosseiramente
1 chávena de damascos secos picados
1 chávena de farinha
1 chávena de açúcar amarelo
200g de margarina
1 ovo

Preparação
Pré-aquecer o forno a 190º.
Juntar os flocos de aveia, de trigo, o gérmen de trigo e os amendoins picados numa tigela e reservar.
Bater o açúcar com a margarina até ficar cremoso. Juntar o ovo e bater mais. Deitar a farinha e bater o suficiente para que fique uniforme mas não muito. Incorporar os damascos e envolver com uma espátula de silicone. Por último incorporar a mistura de ingredientes sólidos. Moldar pequenas bolas de massa e achatá-las um pouco. Levar ao forno pré-aquecido quinze a dezoito minutos. 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Prazeres simples


Um destes dias num périplo de supermercado dei por mim em frente à estante de pudins instantâneos. O que poderia ser um acaso sem sentido -quantas mas quantas estantes de produtos existem por esses supermercados fora?- levou-me de braço dado a um passeio ao passado, território que me tem assolado nos últimos tempos. Cutuca-me no braço a fazer-se notar, um lembrete de quanto fui e do que restou e se metamorfoseou no que sou. Os olhos atraídos ao de caramelo, o meu preferido de sempre, relembraram-me do sabor tão mas tão simples, nada elaborado e com zero de sofisticação. Bastava juntar leite e esperar. E as esperas eram quase sempre longas e ansiadas. Embalada na infância tranquila, regressaram todos os sabores tão pouco complexos, sem gourmandise ou ingredientes sofisticados. Açúcar, farinha, ovos e tínhamos um bolo. Arroz e frango e surgiria o mais opíparo arroz de frango que em casa dos meus pais era borrifado com caril para rematar e onde era dada liberdade a cada um para a intensificação deste toque de exotismo. Leite, açúcar e ovos e eis que a casa se inundava com o aroma do açúcar queimado no mais ancestral leite-creme. Tudo tão simples e tão bom. E terá sido à procura dos sabores longínquos, o regresso ao território perdido de vidas tão ausentes de sofisticação balofa que me deu a vontade de sabores simples de técnicas caracterizadas pelo zelo de um tempo de vagares. E apareceram então os biscoitos que me acompanham neste momento com uma chávena de chai bem quente. Às vezes gosto de prazeres simples. Nada mais simples que uma chávena de chá e biscoitos. Nada mais reconfortante.

Biscoitos de trigo e laranja
1 ¾ chávenas de farinha de trigo
1 chávena de gérmen de trigo
½ chávena de açúcar
 ½ chávena de mel
Raspa de uma laranja grande ou de duas pequenas
1 colher de chá de fermento
½ colher de chá de sal
160 g de margarina
1 ovo grande

Misturar os ingredientes sólidos. Juntar a raspa de laranja ao açúcar e misturá-los. Bater o açúcar com a margarina meio derretida até ficar cremoso. Juntar depois o mel. Bater uns dois minutos e adicionar por fim o ovo. Envolver os ingredientes sólidos em duas vezes e levar ao firgorífico a refrigerar durante pelo menos duas horas. Com uma colher deitar bolinhas de massa no gérmen de trigo que sobrou e enrolá-las. Colocar no tabuleiro e achatar com a mão. Levar a forno pré-aquecido a 190º 18 a 20 minutos. 

Receita inspirada aqui.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

De muffins a queques


Nada como fazer planos para saírem todos gorados. Quando esta receita foi proposta no Dorie às sextas, e depois de dar duas ou três voltas à cabeça, decidi que iria fazer a versão salgada. Eliminaria o açúcar, incluiria pedacinhos de bacon em vez do milho e salpicaria com pimenta preta e orégãos. Ora acontece que deixei tudo para esta sexta-feira de manhã, serviriam de entrada ao almoço tranquilo de boas-vindas ao fim-de-semana, mas obrigações profissionais mantiveram-me ocupada sem mais tempo. Sem tempo e calma para estes momentos de evasão de que tanto gosto e preciso.
Excluída esta hipótese e sem vontade para adiamentos decidi fazê-los para o lanche e eliminar a versão salgada. Acabei por fazer afinal uns belos queques para esta tarde tão agradável de Janeiro. De muffins nem rastos mas surgiram-me duas versões de queques: uma simples e outra com canela e müsli. E depois foi pôr a mesa, fazer um chá bem quente e esperar a minha mãe para uma conversa animada de sexta-feira à tarde e o veredicto final. Ficaram bons mas nada de perder a cabeça nem que eu tenha ficado com muita vontade de repetir. Ficam muito bem num lanche com uma chávena de chá e são fáceis de rápidos de fazer.  Cozinhar é muitas vezes um acto de amor e de partilha, a forma de expressão que tanto uso em vez de palavras e também por isso valeram mais uma vez a pena.


Receita

1 chávena de farinha de trigo
1chávena de farinha de milho
2 colheres e meia de chá de fermento em pó
1/4 de colher de chá de bicarbonato de sódio
8 colheres de sopa de açúcar
3 colheres de sopa de óleo
3 colheres de sopa de margarina derretida mas fria
1 ovo grande e uma gema
1 chávena de buttermilk

Preparação

Primeiro preparei o buttermilk. Uma chávena de leite e sumo de um limão pequeno. Esperei um quarto de hora e comecei com o resto. Juntar os ingredientes sólidos numa tigela. Juntar os líquidos e envolver com uma vara de arames. Incorporar nos ingredientes sólidos sem bater e levar ao forno uns quinze minutos em forno aquecido a 190º. Como só tinha oito formas fiz duas fornadas. Na massa que me sobrou juntei uma colher de chá de canela e uma chávena de müsli com frutas.


Actualização aqui. Muito mas muito melhores.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Intenso e apaixonado


Além da Mariana que me incluiu neste grupo, houve algo que me fez aderir de coração aberto. Lê-se assim nas regras do grupo “As receitas podem sofrer todas as alterações que o cozinheiro quiser. E encoraja-se a partilha dos casos de sucesso e de fracasso.” Cozinhar para mim é quase sempre transgredir, experimentar, e dar um cunho pessoal. Não que tenha em mim o heroísmo presunçoso de que eu vou além dos demais e erguer-me acima deles. Nada disso. Odeio, de resto, gente que profere que vai fazer a diferença seja em que área da vida for. Na minha, por exemplo, quando alguém se autoproclama agente de mudança é razão suficiente para que eu fique de pé atrás, soube-se-me a desconfiança que herdei de há tanto viver na região saloia e algo me retrai. A diferença faz-se, não se anuncia, é um caminho que se trilha e para mim os caminhos servem sempre propósitos de serviço ao próximo não de autopromoção. E isto tudo para dizer que não gosto de mudar para ser diferente, gosto de mudar porque gosto de alguma mudança, na vida também, e nas receitas a mudança é inevitável. Convenço-me que agriolhado a este corpo de mulher madura vive uma adolescente com a mania de contrariar e de transgredir. Na cozinha nota-se muito. Eu noto e eu sei.
A ideia era fazer este bolo de chocolate com ameixas e Armagnac. Armagnac não tinha e ameixas não são muito apreciadas por todos, portanto depois de dar voltas à cabeça e de o bolo ter assumido várias possibilidades como substituir as ameixas por tâmaras aos pedacinhos que era o que tinha cá em casa e em vez do Armagnac usar outra coisa ou pôr nozes e whisky, decidi-me por sabores que gosto muito de combinar: chocolate e laranja.
Levei-o há pouco para um almoço de família e esperei o veredicto. Ficou intenso e apaixonado, exactamente como gosto. Aconselhável a espíritos aventureiros e almas ousadas. O chocolate casa na perfeição com a laranja, a intuição não me falhou. Muito bom e recomenda-se, disseram-me, enquanto o bolo ia diminuído no prato entre risadas e conversa animada. A minha mesa é a minha comunhão. Às vezes acho que se me faltar a voz para declarar amores terei sempre a cozinha. Cada um fala como sabe e nem sempre me ocorrem e acorrem as palavras. Venha a próxima receita.


Bolo de chocolate com whisky e laranja

100g de chocolate culinário +100g de chocolate negro com laranja
150g de açúcar
100g de farinha
120g de manteiga
60ml de whisky
4 ovos

Deixei derreter os chocolates com a manteiga, enquanto fui metendo discretamente o nariz para sentir o aroma da laranja. Seria demasiado forte? Bati as gemas com o açúcar até ficar um creme branco e fofo. Depois há que envolver os chocolates na mistura de ovos e açúcar, com calma e sem pressas. A seguir a farinha e logo após o whisky. Bati então as claras em castelo e envolvi cuidadosamente na massa anterior com uma espátula de slicone. Levar ao forno pré-aquecido a 190º durante vinte e seis minutos.  Para a cobertura derreti 100 gr de chocolate com três colheres de sopa de açúcar e um pedacito de manteiga. Juntei depois meio pacote de natas light e derrubei com enlevo sobre o bolo. Tão fácil a vida numa manhã soalheira de Janeiro.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Biscoitos de chocolate

As preocupações fora de portas e nada mais há naqueles instantes É como se o mundo parasse. Momentos de puro prazer, deleite, escapismo. O mundo seria mais fácil se tudo se reduzisse ao prazer ancestral de matar fomes e desejos e tudo se pudesse resolver à mesa entre aromas e palatos saciados. Pela janela há um dia de Dezembro bem claro, o sol que brilhou pela manhã apaziguando o crepúsculo de algo que se não sabe muito bem o que é, o mundo como o conhecemos talvez, algumas seguranças e garantias colapsam como baralho de cartas sem que nada se possa fazer se não aguentar. A roda da fortuna que cumpre o seu destino. Aguentar dias, anos, de verborreia moralista de crime e castigo, pecados alheios que agora temos de pagar. Não quero saber. Não agora. Não hoje. Deixo amolecer 250 gramas de margarina enquanto deito 125 gramas de açúcar mascavado na velha taça azul que me acompanha há anos nestes momentos de descontracção. Lá fora entardece mansinho. Um cão que refila, o mesmo de todos os dias feriado e fins-de-semana e uma das gatas espreita-me pela porta da cozinha. Bato energicamente o açúcar e a margarina até ficar um creme fofo e junto-lhe 225 gramas de farinha. Dezembro é mês de cozinha, de colo e de regresso, a casa, a nós mesmos, ao fim para que o início regresse. Envolvo bem a farinha e junto-lhe 100 gramas de flocos de aveia. E depois vario. Não há receita nas minhas mãos que não seja acrescentada, mudada, experimentada com umas pitadas imprevistas ao sabor dos meus dias e vontades, imprevisíveis também. Meia tablete de chocolate culinário cortada grosseiramente, pedaços irregulares a quem vou sem critério cortando mais aparas pontiagudas para  envolver na massa. E esperar. Uma hora de frio. Uma hora de silêncios tranquilos, o bálsamo necessário deste Dezembro que me traz agastada. Bolachas tendidas com o carinho de quem alimenta e de quem ama. O amor também se alimenta da alquimia de aromas e metamorfoses. E depois há o perfume do forno quente e do chocolate espalhando-se pela casa. Entardece. Recolho-me num biscoito e um chá aromático. Se tudo pudesse reduzir-se a prazeres simples. Às vezes pode. Hoje pôde.



A receita dos biscoitos foi inspirada nesta. Um beijo à Cristina Nobre Soares a quem prometi experimentar as bolachas de aveia.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Leite-creme

Cruzo-me com a pá de queimar o leite-creme numa incursão fugaz à despensa. Conheço-a desde que me conheço a mim. Tem cabo de madeira carcomido pelas décadas e na ponta, a pá propriamente dita, a forma de paus do naipe de cartas em ferro também vetusto. Recolho-a e decido Vou fazer um leite-creme. Coloco-a ao lume no bico mais pequeno, a chama deve incidir cabalmente sobre a pá e a pá deve estar bem quente quando beijar o açúcar sobre o leite-creme. Desse beijo escaldante com o açúcar surgirá a camada torrada e crocante e desprender-se-á o aroma mais doce e perfumado que os beijos produzem. Recolho um tacho de ferro. Deito-lhe duas colheres de sopa de farinha de trigo, nunca farinha maizena, açúcar a gosto, umas seis ou oito colheres, oito desta vez, adiciono um pouco de leite apenas para ligar a farinha e o açúcar e, de seguida, junto cinco gemas de ovos, as claras reservadas para outras doçarias. Mexo com cuidado. Depois adiciono cuidadosamente o litro de leite condizente com as duas colheres de sopa de farinha. Levo a lume brando e deixo engrossar, mexendo sempre, com cuidado e enlevo. A textura espessando-se e a memória que embate com todos os leites-creme – estranho plural- da minha vida passada, mesmo antes de me ter sido dada a receita pela minha avó paterna, prolixa em manjares, contida em carinho, e neles estão anos e décadas, almoços de Natal e de Páscoa, dias comuns como o Domingo que se solta lá fora, momentos que não voltam, o meu pai que não volta. A pá aquece, entretanto. O açúcar granulado por cima do leite-creme, agora numa travessa, esperando o beijo ardente da pá, o aroma que se solta no primeiro contacto, o fumo perfumado que invade a cozinha. Hoje há leite-creme, Papá.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Os sonhos

E os sonhos de que são feitos? Penso nisso enquanto o dia se aconchega na noite e a tarja de mar prateado cintila lá longe pela janela da cozinha. Será Natal do outro lado do mar? Um tacho, claro, largo, como todos os tachos, preto e pesado, naturalmente. Um copo de leite, uma pitada de sal, uma colher bem cheia de manteiga. Manteiga, jamais margarina. Deixar ferver sob olhar vigilante. Os sonhos são caprichosos, qualquer desvio pode derrotá-los ainda meninos. Retirar do lume. Acrescentar a medida do leite em farinha. A tarja de mar desaparece-me no horizonte entretanto. Levar ao lume outra vez e envolver vigorosamente todos os ingredientes com uma colher de pau, enquanto o calor se encarrega de os ligar. Deitar para um recipiente largo e, quando começar a arrefecer, ir juntando ovos inteiros: um, dois, três, quatro, cinco, seis. Os ingredientes de que os sonhos são feitos devem abundar em quantidade e qualidade, é sabido. Escureceu de repente. Da janela da cozinha escuro apenas. Momento improvável para acalentar sonhos. Depois as mãos na massa, os sonhos que se querem sonhos querem-se batidos com o vigor da vida, amassados com as próprias mãos, já se sabe. Com perseverança, sem desistir, até chegarem ao ponto exacto, difícil de explicar na palidez do ecrã para que escrevo e na noite que ouço lá fora, silenciosa e soturna. Depois a fritura. Aquecer o óleo e ir deitando pequenas porções na fritadeira. O óleo nem muito quente nem muito frio, um dos segredos mais bem guardados. E eis que se avolumam e crescem. Os sonhos devem crescer, pois claro. Envolver com açúcar e uma quantidade muito generosa de canela. E assim são os sonhos, envolvidos com carinho, batidos com robustez e saboreados com a doçura do açúcar e o exotismo da canela. O aconchego possível para a noite imensa que se pôs lá fora.